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29.5.19

UM PRESENTE INESPERADO -- PARTE VIII







- Reparou bem nele? – a vizinha repetiu a pergunta assim que ela entrou na cozinha.
-Não. Vê-se que é um homem elegante e bem-parecido, mas só de pensar, que ele podia estar a pensar que o queria enganar, fez com que evitasse olhá-lo. Porquê?
- Ele já tinha tocado à porta antes da Isabel ter chegado. Falámos um pouco e eu reparei nos seus olhos cinzentos, nos cabelos negros e na cor da sua pele. E pensei logo que era o pai da Matilde. Acho-os parecidos - respondeu Natália.
- Estou muito confusa. Ele parecia tão sincero ao dizer que não conheceu a Susana. E diz que vai imediatamente marcar o teste do ADN. Deveria saber que se estiver a mentir, o teste o vai desmascarar. E ele está muito seguro de que o teste vai provar que não tem nada a ver com a menina. A Natália acha possível que a Susana me tenha enganado?
- Não creio. A sua irmã tinha aquelas manias de grandeza, sempre sonhou com a riqueza e sempre se revoltou com a vida que tinha, mas daí a inventar um pai rico para a filha, é demais. E depois, como é que ela ia saber o nome dele e todos os dados que deu para por no registo da menina?
-Bom, o melhor é não pensar mais nisso agora. A Natália pode ficar com a Matilde esta tarde? Tenho que ir ao centro de emprego.
- Claro que fico, pode ir descansada. Entretanto tomei a liberdade de trazer almoço para as duas. É que ontem fiz cozido à portuguesa e nunca fui capaz de fazer cozido para uma só refeição. São tantos ingredientes, que acabo sempre enchendo a panela. Isto se gostar de cozido, como é evidente.
- Gosto muito. E agradeço-lhe, na verdade fez-se tarde e já nem ia fazer almoço.
Durante o almoço continuaram a conversa, sobre os últimos acontecimentos. Natália conhecia a vida daquela família como conhecia a sua, já que os dois casais compraram as casas, com poucos meses de diferença. Isabel era nessa altura uma criança de poucos meses. Viu-a crescer, sempre muito educada e responsável, viu nascer Susana, apoiou a vizinha quando o marido morreu, mais tarde foi a mãe da jovem a retribuir o apoio quando ela também enviuvou.
Anos depois quando Carmo morreu, viu como Isabel assumiu a educação da irmã, aumentando em muito a admiração que já tinha por ela, tanto mais que cedo se apercebeu que Susana era uma jovem rebelde, com a cabeça cheia de sonhos de grandeza, e  desejosa de altos voos. Totalmente diferente da irmã.
Depois da sua trágica morte, Natália aproximou-se ainda mais de Isabel, sempre pronta a apoiá-la, tomando conta da menina enquanto Isabel trabalhava, ou procurava emprego depois que a empresa onde trabalhava fechou.
Por seu lado a jovem via na vizinha uma segunda mãe.