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17.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXV





Duas horas mais tarde, Odete vestindo um conjunto de seda azul celeste, composto por calças e top, desceu do quarto de hóspedes, que ocupava desde que voltara na véspera, e encontrou o marido na cozinha, comendo uma sandes de presunto e bebendo cerveja.
- Que queres lanchar? – Perguntou levantando-se
- Nada. Não me apetece comer.
- Não podes estar muitas horas sem comer. Não ajudas em nada a tua mãe se ficares doente. 
- Eu sei. Como alguma coisa lá em casa se sentir fome.
- Então senta-te enquanto acabo de comer. Quero falar contigo antes de sairmos.
Sentou-se e aguardou.
-Estive ao telefone com o meu amigo e já está tudo tratado.
Amanhã às onze horas, vais com a tua mãe ao hospital S. Francisco, e pedes para falar com o Dr. Rui Teixeira. Dizes que vais da minha parte, ele já estará à vossa espera, para assinar os documentos de internamento. A tua mãe será operada, dentro de oito dias, mas terá que fazer vários exames, testes de anestesia, e tudo o que é necessário para acautelar possíveis problemas na cirurgia. Amanhã tenho um dia complicado no hospital, não posso acompanhar-vos, mas posso garantir-te que ela vai estar bem entregue, o Rui é do melhor que temos no país como cirurgião cardiovascular. E eu próprio o assistirei no dia da cirurgia, já combinámos.
Reparou no seu rosto preocupado.
- Não fiques assim. Vai correr tudo bem, verás. Queres um chá?
- Por favor, - respondeu quase sem voz.
Ele ligou a chaleira elétrica, pôs a garrafa de cerveja, vazia, no recetáculo de reciclagem, ligou a máquina do café, introduziu-lhe uma cápsula e tirou um café que encheu a cozinha de um aroma delicioso.
Depois de o beber, abriu o armário, procurou entre os vários pacotes de chá acabando por tirar um pacotinho de camomila que pôs na chávena despejando-lhe em cima a água que acabara de ferver.
- Açúcar, ou mel? Perguntou pondo a chávena na sua frente.
-Bebo simples. Obrigado.
- Come pelo menos duas ou três bolachas, - disse colocando o pote na sua frente. – Tens que te manter o mais serena possível. Sei que é difícil, mas tens de perceber que a tua mãe já está nervosa, e com medo, porque toda a gente teme a sala de operações mesmo que seja uma coisa muito simples, quanto mais quando mexe com o coração. Quanto mais serenos estiverem, tu e o teu pai, mais confiante, ela ficará. Os teus irmãos já sabem o que se passa?
- A minha irmã, ligou-me esta manhã, e com os meus irmãos falei ontem. Só o meu pai não sabe. Tive receio que ficasse desorientado e tivesse algum acidente.
- Está bem. Eu falo com ele quando chegar. Vai lavar a cara, para que a tua mãe não veja que choraste.
-Obrigado. Não sei como te agradecer. Tenho tanto medo que alguma coisa corra mal. Não estou preparada para perder a minha mãe.
- Não penses nisso, vai correr tudo bem, - disse passando-lhe a mão pelo rosto numa suave carícia  que ela não rejeitou