Duas horas mais tarde, Odete vestindo um conjunto de seda azul celeste, composto por calças e top, desceu do quarto de hóspedes, que ocupava desde que voltara na véspera, e encontrou o marido na cozinha, comendo uma sandes de presunto e bebendo cerveja.
- Que queres lanchar? – Perguntou
levantando-se
- Nada. Não me apetece comer.
- Não podes estar muitas horas
sem comer. Não ajudas em nada a tua mãe se ficares doente.
- Eu sei. Como alguma coisa lá em
casa se sentir fome.
- Então senta-te enquanto acabo
de comer. Quero falar contigo antes de sairmos.
Sentou-se e aguardou.
-Estive ao telefone com o meu
amigo e já está tudo tratado.
Amanhã às onze horas, vais com a
tua mãe ao hospital S. Francisco, e pedes para falar com o Dr. Rui Teixeira.
Dizes que vais da minha parte, ele já estará à vossa espera, para assinar os
documentos de internamento. A tua mãe será operada, dentro de oito dias, mas
terá que fazer vários exames, testes de anestesia, e tudo o que é necessário
para acautelar possíveis problemas na cirurgia. Amanhã tenho um dia complicado no
hospital, não posso acompanhar-vos, mas posso garantir-te que ela vai estar bem
entregue, o Rui é do melhor que temos no país como cirurgião cardiovascular. E
eu próprio o assistirei no dia da cirurgia, já combinámos.
Reparou no seu rosto preocupado.
- Não fiques assim. Vai correr tudo bem, verás. Queres um chá?
- Por favor, - respondeu quase
sem voz.
Ele ligou a chaleira elétrica,
pôs a garrafa de cerveja, vazia, no recetáculo de reciclagem, ligou a máquina
do café, introduziu-lhe uma cápsula e tirou um café que encheu a cozinha de um
aroma delicioso.
Depois de o beber, abriu o
armário, procurou entre os vários pacotes de chá acabando por tirar um
pacotinho de camomila que pôs na chávena despejando-lhe em cima a água que
acabara de ferver.
- Açúcar, ou mel? Perguntou pondo
a chávena na sua frente.
-Bebo simples. Obrigado.
- Come pelo menos duas ou três
bolachas, - disse colocando o pote na sua frente. – Tens que te manter o mais
serena possível. Sei que é difícil, mas tens de perceber que a tua mãe já está
nervosa, e com medo, porque toda a gente teme a sala de operações mesmo que
seja uma coisa muito simples, quanto mais quando mexe com o coração. Quanto
mais serenos estiverem, tu e o teu pai, mais confiante, ela ficará. Os teus
irmãos já sabem o que se passa?
- A minha irmã, ligou-me esta
manhã, e com os meus irmãos falei ontem. Só o meu pai não sabe. Tive receio que
ficasse desorientado e tivesse algum acidente.
- Está bem. Eu falo com ele
quando chegar. Vai lavar a cara, para que a tua mãe não veja que choraste.
-Obrigado. Não sei como te
agradecer. Tenho tanto medo que alguma coisa corra mal. Não estou preparada
para perder a minha mãe.
- Não penses nisso, vai correr
tudo bem, - disse passando-lhe a mão pelo rosto numa suave carícia que ela não rejeitou
