22.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE VI


Isabel abriu o portão e disse ao homem que estava no jardim que ia por causa da vaga de secretária. Ele pediu-lhe para esperar, e entrou em casa. Voltou pouco depois e levou-a ao escritório. Ela ia olhando para a casa. Estava bonita, mais moderna, mas mais impessoal. Tão diferente daquilo que ela se recordava.
O homem abriu a porta, deu-lhe passagem e fechou-a atrás dela. Na sua frente, Helder encontrava-se recostado num cadeirão, com o cão a seu lado. Tinha vestido umas calças cinzentas, e um polo azul-escuro.
Mentalmente fez as contas. Se ela tinha vinte e seis anos, ele tinha trinta e seis. Parecia mais velho. Tinha já alguns fios de cabelo branco. O rosto moreno, continuava bonito, apesar dos óculos escuros, que escondiam os outrora brilhantes olhos castanhos.
- Bom-dia, - saudou. - Venho por causa da vaga de secretária.
- Bom-dia. A agência não me informou de que tinham mandado alguém.
- Bom, é que não vim mandada pela agência.
- Como assim?
- É que ouvi um comentário no talho, em que diziam que estava à procura de uma secretária. Eu estou a trabalhar num escritório de advocacia na cidade, mas como moro aqui se conseguisse empregar-me cá, era muito melhor para mim. Assim resolvi tentar a minha sorte.
- E diz que trabalha num escritório de advocacia? Naturalmente vai dar-me o nome e número de telefone para que possa confirmar e tomar referências.
- Claro, sem problema.
- Bom, se decidir dar-lhe o lugar, quero que saiba que não quero mexericos, não quero saber que a minha vida ande na praça pública. Também poderá, uma ou outra vez, sair mais tarde. De qualquer modo será sempre compensada monetariamente cada vez que o seu dia, vá para além do  horário normal.
- Não tenho por hábito falar da vida de ninguém,- retorquiu ela
- Já nos conhecemos? Parece-me que conheço a sua voz, - disse franzindo a testa, como procurando recordar.
 - Passei por si, ontem na praia e saudei-o. Deve ser daí – apressou-se a dizer.
- Talvez – não parecia muito convencido.- Como disse que se chamava?
- Não disse. Chamo-me Isabel Antunes.
Era o apelido de sua mãe, antes do casamento. Tinha a certeza que apesar de não poder mudar o nome, ele não associaria aquele apelido a ela. Se é que ele se lembraria dela.
- Bom, deixe-me os seus dados, e o número de contacto. Terá notícias em breve.
Ela já estava preparada para isso. Retirou a folha da mala e estendeu-lha. Ele rodou o braço na procura do papel e encontrou-o.
- Bom dia, senhor, - disse ela voltando-se e encaminhando-se para a porta. Abriu-a e saiu. Mal chegou ao jardim ligou para o escritório e falou com a telefonista da empresa, dizendo-lhe que era provável que lhe ligassem para pedir referências sobre ela. Devia dar as melhores, como secretária, e de maneira nenhuma dizer que era advogada. Só então se dirigiu à casa da avó.
“A sorte está lançada. Vamos ver onde me levará” – murmurou.


14 comentários:

Os olhares da Gracinha! disse...

A partir daqui muito da vida pode mudar! Bj

AvoGi disse...

Uma nova etapa vai começar. Daqui para a frente é que vai aquecer
Kis :=)

✿ chica disse...

Bah! Na torcida pra que seja contratada e há de ser.... bjs, chica

redonda disse...

Parece estar tudo a correr bem. Será que ele não reconheceu mesmo a voz dela?

E agora vim também porque acabei de saber de um novo concurso de escrita
fiz um post no dona-redonda, mas vim deixar aqui também o link
http://editorapapel.blogspot.pt/2017/06/convite-10-concurso-literario-uma-noite.html

e depois volto para ver se já temos mais um capítulo...

Tintinaine disse...

Diz-se que a mentira tem perna curta. Veremos quanto tempo vai demorar para ele descobrir quem ela é. Se ele mantiver contacto com alguém da aldeia não vai levar muito tempo até que alguém lhe vá contar quem é esta Isabel Antunes.

Prata da casa disse...

Espero que ele não se sinta enganado por ela quando eventualmente descobrir quem ela é.
Bjn
Márcia

Ailime disse...

Vou continuar a seguir!
Excelente enredo.
Beijinhos,
Ailime

Beatriz Pin disse...

Olá Elvira, acabo de ler os catro capítulos e vou tendo o fiu da historia. Leva caminho de ser tan interesante como todo o que escrive. Pois ben, ter uma minusvalía como é a falla de visión ou de ouvido ou calquer outra, imposibilita pero non impide ser feliz. Boa fin de semana.

Rui disse...

Olá Elvira. Li os 6 capítulos de uma assentada ! :)
Estou a gostar, mas receio que esta mentirinha não resulte bem ! :(...
E há muitas "pontas soltas" ... a voz, as recordações da adolescência, a profissão, o nome, ... Vamos a ver como ela conseguirá contornar tudo isso !...

Abraço :)

Edumanes disse...

Isabel quer manter-se próximo de Hélder, sem que este se aperceba quem ela é! Não penso que isso seja boa ideia?

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Gaja Maria disse...

Ummm. Vamos ver :)

lua singular disse...

Oi Elvira,
Ele logo saberá de ser advogada, cada profissão a pessoa tem um tic, o meu é conversar com pessoas e as mão vão juntas.kk
Beijos no coração
Lua Singular

Jack Lins disse...

Não gosto de mentiras, me dá uma agonia...

Smareis disse...

Ele vai descobrir quem ela antes de lhe dar o emprego.
Creio que sim.
O nome da minha mama era Isabel Fernanda.
Beijos!