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19.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XL

 


Nos dez dias que se seguiram, até à antevéspera do Natal, a rotina dos tratamentos mudou muito. Anabela não dava descanso ao doente, mas este respondia amável a tudo o que ela lhe dizia, e por vezes até com algum humor. Anabela estava satisfeita, já via melhoras no seu estado geral e embora ainda fosse demasiado cedo para o pôr na passadeira e tentar que conseguisse dar alguns passos, notava que Tiago movimentava com mais facilidade o braço esquerdo, tinha mais força nos braços, e nas pernas, o corpo não estava tão magro e a musculatura estava voltando a evidenciar-se. Para ela era essencial exercitar e fortalecer a musculatura do doente antes de passar a outro tipo de tratamentos.

Também estava contente, porque segundo Joaquim, o doente mostrava-se mais animado, conversava mais e o empregado acreditava, que mais uns dias e Tiago seria capaz de sair enfim do quarto, quanto mais não fosse para ir tomar as refeições com eles.

Porém no dia seguinte era véspera de Natal, e ela partiria logo após terminar os tratamentos da manhã, pois iria passar o Natal com a comadre em Lisboa, e ainda tinha de comprar os presentes.

Voltaria no dia vinte e seis bem cedinho de modo a estar na quinta à hora do início dos tratamentos de Tiago, pois entendia que parte do êxito ou do fracasso de qualquer doente, estava na persistência e força de vontade com que se encarava o tratamento. 

Por isso antes de se deitar naquela noite separou e colocou numa pequena mala, algumas peças de roupa e objetos pessoais, o necessário para as duas noites que estaria fora, de modo a não perder tempo no dia seguinte.

Anabela ajudara Isilda a decorar a árvore de Natal, e a preparar a casa para receber os pais de Tiago. Não que isso fosse a sua obrigação, ou que alguém lhe tivesse pedido, mas a casa era grande, e mantê-la limpa e arrumada e ainda cozinhar era difícil e muito cansativo para alguém que já deixara os melhores anos da sua vida no passado.

Com a sua ajuda, a empregada ficava com mais tempo livre, para preparar as iguarias natalícias.

 Nessa noite, Tiago não conseguia dormir. Novamente. Mas dava as boas-vindas à insónia, porque era melhor do que sonhar. Sonhos eram uma das poucas coisas que ele não podia controlar. Eles vinham espontaneamente, penetravam seu cérebro e o envenenavam com as terríveis memórias. Pelo menos, a mente consciente estava sob seu comando. Assim depois do pequeno-almoço e antes de iniciar os tratamentos, pegou no Smartphone e mandou uma mensagem ao tio pedindo que lhe indicasse um bom psicólogo para uma consulta.

Pouco depois estava na sala para a sessão de fisioterapia, e logo depois que esta terminou,  Anabela desejou-lhe um feliz Natal, despediu-se com um abraço de Isilda e do marido, entrou no carro e dirigiu-se à cidade.


27.6.18

O DIREITO À VERDADE - X





Lena pensara visitar alguns monumentos nessa mesma tarde. Perguntou ao empregado que lhe serviu o almoço, se estava muito longe do Convento e Igreja de Santa Cruz.  Ele respondeu-lhe que atravessava a rua e cortava na próxima rua à esquerda ao fundo dessa rua, ficava a Praça 8 de Maio onde ficava o Monumento.
Acabou de almoçar, pagou e saiu para a rua. Distraída, viu a passadeira à sua frente, e sem reparar que o sinal estava vermelho, atravessou a estrada. Ouviu o chiar dos travões que no entanto não evitaram que o carro lhe batesse e a fizesse cair um pouco mais à frente. Meio zonza, ouviu a porta do carro bater e viu um longo par de pernas que se aproximava, enquanto dois jovens saiam do passeio para a ajudar a levantar-se.
- Está doida? – Perguntou uma voz furiosa. Quer matar-se, faça-o, mas onde não meta os seus semelhantes em trabalhos.
Não o olhou. Tão pouco lhe respondeu. Agradeceu aos dois jovens que a ajudaram e tentou atravessar a passadeira, agora já com o sinal verde para os peões.  Uma mão forte cerrou-se no seu braço, como se fora uma argola de aço.
- Onde é que pensa que vai?
- Seguir o meu caminho, - disse levantando o rosto para se encontrar com os olhos cinzentos mais extraordinários que tinha visto na sua curta existência.
- Não vai, não. Vai entrar no carro e vou levá-la ao hospital, fazer exames ver se está bem. Não quero ter nenhuma surpresa desagradável daqui a algum tempo, - disse levando-a para a porta do carro que abriu.
- Entre, o sinal vai abrir e os carros que estão aí atrás vão fazer uma serenata, que não lhe vai agradar.
Esperou que ela entrasse, fechou a porta, e foi sentar-se ao volante no momento em que o sinal abria de novo e os carros atrás de si, começavam a apitar.
O homem conduziu em silêncio durante uns minutos. A jovem sentia o corpo dorido, mas não acreditava que tivesse algum osso partido. Não se atrevia a olhar o homem a seu lado, que lhe parecera bastante rude, embora ela reconhecesse que ele tinha razão. Ela atravessara a estrada sem olhar ao sinal e  podia dar graças a Deus e à perícia masculina se o choque não foi bem mais grave. Ainda assim doía-lhe bastante a anca do lado esquerdo.
-Tem muitas dores? Já estamos a chegar ao hospital.
Surpreendeu-se com o tom amável, quase amistoso do homem, tão diferente do anterior.
- Um pouco. Peço desculpa pelo transtorno. Ia completamente distraída.
- Eu também lhe peço desculpa. Fui demasiado rude consigo. Ainda não sei o seu nome. O meu é Cláudio.
-Helena.
- Muito bem Helena, Chegámos, - disse estacionando o automóvel.



Coitada da Helena. Vai ficar quatro dias no hospital :)))
Esta história volta segunda feira