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13.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXIX

 

O tempo que passou no Hospital, não foi só de cirurgias e tratamentos. Foi também, depois que recuperou a consciência, de muita reflexão, sobre a sua vida passada e futura, embora principalmente se interrogasse, sobre que futuro podia haver para ele, se realmente não fosse apenas o uso das pernas que tinha perdido. Ele podia aprender a viver numa cadeira de rodas, mas não conseguia pensar em viver o resto da vida sexualmente morto.  

Quando recebeu alta hospitalar, recusou o encaminhamento direto para a fisioterapia de reabilitação e refugiou-se na quinta, para desespero dos pais e do tio, que não parava de lhe mandar enfermeiras, com quem ele era deliberadamente mal-educado, para que o deixassem em paz. A penúltima enfermeira que o tio lhe trouxera, era uma mulher de rara beleza, que podia sem desprimor adornar a capa de qualquer revista de moda. Porém, ela era uma prova viva, daquilo que ele tinha perdido com aquela maldita explosão. Por isso a mandara embora imediatamente.

Como médico, sabia que estava deprimido e sabia também que estava num ponto critico da sua vida. Pela frente tinha dois caminhos. Ou aceitava o que pudesse acontecer, e lutava para que fosse o melhor, ou simplesmente desistia, entrava numa depressão grave que acabaria certamente no suicídio. Sim, ele sabia isso, mas precisava de algo que lhe desse o empurrão para entrar no caminho certo, pois nessa manhã, sentira que estava a um passo, de entrar na via da autodestruição.

Mas então o tio aparecera com outra enfermeira. Como é que ele dissera que ela se chamava? À sim, Anabela. Pois, esta era diferente das outras. Embora tivesse a certeza de que o tio a tinha advertido para o seu mau génio, ela não o olhou com pena, nem como se ele fosse um monstro. Ela olhou-o como se ele não fosse um inútil, mas uma pessoa normal e com firmeza mostrou-lhe que ali mandava ela e fizesse ele o que fizesse não conseguiria amedrontá-la.

Em vez de se exasperar, Tiago ficou curioso. Onde seria que o tio a tinha ido buscar? E quanto tempo, ela seria capaz de manter aquela pose? Será que ia medir forças, com ele, dia a dia? Quando anoiteceu, sem ter voltado a vê-la, surpreendeu-se, por, pela primeira vez, depois que saiu do hospital, ter levado a tarde a pensar noutra coisa, que não o futuro negro que o aguardava. Não esperava voltar a vê-la antes da manhã seguinte. Mas eis ela que voltara surpreendê-lo.

Dez minutos depois, Anabela voltou a entrar no quarto. Poisou o jarro e o copo sobre a mesa e disse:

-Pronto aqui tem a sua água. Vai tomar algum medicamento? Antiálgico, ansiolítico, ou quer que lhe traga um chá?

- Não, obrigado.

Ela retirou a bacia que levou para a casa de banho. Depois dobrou a toalha e guardou-a no espaço por baixo da gaveta, na mesa de apoio.

-Devia tentar dormir. Uma boa noite de descanso, vai ajudá-lo amanhã com a dureza dos tratamentos, - disse dirigindo-se para a porta.

 

Nota: Não sei que se passa mas todos os dias tenho no spam uma série de comentários da Isa Sá, Francisco Manuel Carrajola Oliveira e Teresa Silva. Desde 2016 para cá. Tenho a certeza que estes comentários estiveram publicados na altura e não entendo porque carga de água agora aparecem no spam. E são sempre os mesmos. ontem foram 5 anteontem 7 e por aí fora.