Depois do jantar, como já era tarde, e a avó se deitava cedo, Isabel arrumou as suas roupas e como a noite estava quente resolveu dar um passeio. Enquanto o fazia, pensava no que a avó lhe tinha contado. Hélder estava cego. Como era possível? O que teria acontecido? E era escritor? Ela nunca ouvira o seu nome ligado à literatura, nem vira nenhum livro dele. Decerto usaria um pseudônimo. Mas qual? De súbito viu-o no passeio do outro lado da rua, e agora sim, reconheceu o cão guia. Ficou parada no passeio, vendo como o cão parava junto do portão do jardim, que ele abria, e entrava, fechando-o atrás de si.
Sentiu uma pena enorme dele, e dela que em dez anos não
esquecera um único dia, a vergonha da rejeição que sofrera, e o amor que desde
menina lhe devotava.
