8.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXV




Actual Unidade de cuidados intensivos, era no final de 1984, o hospital da Misericórdia do Barreiro, onde a Gravelina esteve internada. O actual centro hospitalar Barreiro- Montijo, seria inaugurado no ano seguinte com o nome de Hospital Nossa Senhor do Rosário do Barreiro 



A filha foi buscar o aparelho e perguntou enquanto lho ajustava:
-Sente-se mal?
-Penso que estou a ter uma trombose, - respondeu ela.
A filha mediu-lhe a tensão arterial, 132-81 Normalíssima. Perguntou:
- Dói-lhe a cabeça, está com tonturas? 
-Não. 
A filha segurou-lhe as mãos, e pediu:
- Aperte as minhas mãos.
Ela apertou. A filha não sentiu nada de anormal, mas ela insistia que lhe estava a dar uma trombose. Voltou a medir-lhe a tensão que se mantinha normal. Pensou que talvez a mãe tivesse tido algum sonho e acordasse impressionada. 
-O Paizinho?
- Foi lá para o quintal, - respondeu a tia
- Não noto nada de anormal. A tia ajude-a a deitar-se. Não a quero fora da cama, o médico disse que ela tinha que estar deitada. Vou ao Barreiro comprar a mobília para o quarto do Pedro. Assim que chegar, volto cá. Ela tomou a medicação?
-Tomou. Tudo certinho, fui eu que lha dei. 
A filha deu um beijo na mãe e saiu. Arrepender-se-ia amargamente mais tarde. Mas como acreditar que uma pessoa vai ter um AVC, só porque ela o diz, quando ao mesmo tempo, não se nota nada de estranho e a pessoa em questão aparentemente está normal?
Quando duas horas mais tarde a filha regressou, encontrou à sua porta um vizinho da mãe que lhe disse para lá ir com urgência. A mãe tinha sofrido uma trombose, ele já fora ao quintal, chamar o Manuel, já telefonara para a ambulância que deveria estar a chegar, mas a mãe chamava pela filha.
Ela correu para casa da mãe, que nesse momento estava a ser metida na ambulância. 
Ainda consciente, a mãe disse-lhe:
-Ainda bem que vieste, filha. Eu não te disse que estava a ter uma trombose?
A filha acompanhou a mãe ao hospital. No trajecto a mãe acabou por ficar inconsciente. 
Observada, foi logo para os cuidados intensivos. A filha recebeu as roupas, e regressou a casa da mãe, onde encontrou o pai em pranto. O Manuel não se conformava. Dias e dias, chorou a companheira, não comia, dizia que se ela se fosse, ele iria com ela. Que sem ela a vida não tinha sentido, nem merecia o nome de vida. 
A Gravelina esteve um pouco mais de um mês em coma. Foram dias muito duros para todos. O Manuel continuava a não reagir. Só com muito esforço comia alguma coisa. Não ouvia rádio, não acendia a TV. Todos ficaram com a certeza que se a mulher partisse, ele segui-la-ia em breve.
Quando recuperou a consciência, a Gravelina parecia uma boneca desengonçada. Todo o lado esquerdo estava paralisado, a boca torta, não falava, o corpo sem força. Chorava o tempo inteiro, sem que a família soubesse se o fazia por ter dores, ou por se ver reduzida aquele estado.
Dois dias antes do Natal, o médico deu-lhe alta. 
À filha, que falou com ele, o médico disse que não acreditava que ela tivesse muito tempo de vida, mas dado que eles já não podiam fazer mais nada por ela, seria melhor que passasse os últimos dias rodeada pelo carinho da família.
Segundo os médicos, o que provocara o AVC à Gravelina, fora a sua teimosia em andar de pé. A explicação médica, foi de que tendo ela muitas varizes, e tendo a perna engessada, ela teria que ter repouso absoluto, deitada e com a perna ligeiramente mais alta a fim de que nunca inchasse e o gesso não comprimisse demasiado as varizes. Ao andar de pé, a pressão sobre s varizes foi tanta que um pequeno trombo se soltou e foi até ao cérebro, onde entrou numa pequena veia que obstruiu, fazendo com que a parte do cérebro irrigado por ela, morresse, deixando-a para sempre deficiente.






Se a Gravelina fosse viva, faria hoje 90 anos.


18 comentários:

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

À pessoas que conseguem ter uma noção muito acertada do seu estado de saúde eu nesse aspecto sou um desleixado.
Um abraço e continuação de uma boa semana.

Majo Dutra disse...

~~~
Deve ter sido duro descrever este episódio,

mas a vida é, mesmo, assim.

Há um ensinamento louvável para os leitores,

que muito agradeço.

Abraço solidário.
~~~~~~~~~~

✿ chica disse...

Gravelina sabia o que sentia e tinha. Triste dor pra todos. Doenças mexem com todos e deixam marcas. bjs, chica

Isa Sá disse...

Passando para acompanha a história e desejar um ótimo dia!


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Emília Pinto disse...

No capitulo anterior, Elvira descreves com muito pormenor uma epoca que também vivi e foi essa grave crise que me levou para o Brasil onde fui muito feliz Este episódio de hoje é muito triste e espero que o final seja nao seja muito trágico, principalmente para o Manuel. Cá fico à espera do desenrolar dos acontecimentos. Um beijinho e um bom fim de semana prolongado, com alegria e saúde.
Emilia

António Querido disse...

O "SEXTA" de cara lavada, pronto para ir até à praia!
Pior foi o que aconteceu à Gravelina, não a conheci, mas sinto pena dessas pessoas que de repente vão desta para o outro lado, quando ainda fazem tanta falta e tanto para fazer!
Com o meu abraço.

Anete disse...

A família agora se encontra com a Gravelina debilitada, puxa!
Triste realidade da vida...
Vamos aguardar o próximo capítulo p ver os acontecimentos seguintes...

Um abraço nesta 4ª feira.

Blog da Gigi disse...

Ótima quarta- feira!!!!!!!!!!!! Beijos

Elisa Bernardo disse...

Hoje apareço por aqui mais cedo. E aproveito para lhe mandar um grande beijinho. Sempre a acompanhar.

Crocheteando...momentos! disse...

A vida por vezes não se compadece com o destino traçado!!!
Bj amigo

Rui Espírito Santo disse...

Antes de mais uma excelente homenagem à Gravelina no dia do seu aniversário e logo 90 !!!
Aparte a "delicadeza" do tema fica-se maravilhado com a maneira como contas estas estórias (reais) ! ... Escreves e contas maravilhosamente !
É um enorme prazer ler estes teus posts !!!

Obrigado, Elvira !... Um beijo ! :)

Tintinaine disse...

http://nma-16429.blogspot.pt/
Para quem me perdeu o rasto

Bell disse...

Difícil fazer um idoso ficar em repouso e quieto. Eles querem sair.
Impressionante é estar ciente do que está por vir, mesmo qdo tudo está tranquilo.

bjokas =)

LopesCa Blog disse...

Coisas que acontecem :(

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aluap Al disse...

Está de Parabéns pela forma especialmente bonita como homenageou a Gravelina no dia do seu aniversário.
Um abraço de amizade.

Edumanes disse...

Não há nenhuma doença que seja boa. Mas quem sofrer uma trombose, poderá livrar-se da morte, mas não se livrará, das mazelas por ela deixadas para o resta da vida!
Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Morreu nova a Gravelina...
58 anos? Ao certo, que idade tinha?

Odete Ferreira disse...

Curiosa, essa perceção da mãe...
Compreendo esse teu sentimento, mas não somos donos do destino, como se costuma dizer. Não é fácil lidar com a teimosia dos mais velhos. Quantas vezes aconselho a minha mãe, em várias situações mas ela desvaloriza sempre.
(leitura atualizada, com comentários deixados em alguns textos)
Bjo, Elvira