18.11.15

FOLHA EM BRANCO PARTE XXXIV







Sempre que pensava em pai sentia uma sensação estranha.
No início era uma grande  angústia, uma opressão no peito, uma enorme vontade de chorar. Agora já não era tão intensa, tão opressiva, mas continuava a ser qualquer coisa que a entristecia. O psiquiatra, aventara a hipótese de que podia ser essa a relação causa-efeito da sua amnésia. Mas não passava de uma hipótese, ela não conseguia lembrar-se de nada, a sua cabeça, continuava a ser para o passado uma folha em branco.
Sentiu os passos de Miguel no quarto ao lado. Pensou que talvez fosse sair, mas depois de algum tempo, teve a certeza que nessa noite não o faria.
-Ainda bem, - murmurou ajeitando a almofada e preparando-se para dormir.
No quarto ao lado, Miguel acabara de se deitar. Pegou num livro que repousava na mesa-de-cabeceira e tentou embrenhar-se na leitura. Cedo percebeu que não o conseguia. Poisou-o no mesmo sítio e apagou a luz. Lá fora chovia intensamente.  Percebia-se pelo som nas persianas, que ecoava na casa em silêncio. Mariana decerto já dormia. Lembrou da sua alegria essa tarde, enquanto faziam as compras. Era como uma criança. Uma criança num corpo de mulher. Sim porque ele tinha de reconhecer que a jovem era uma bela mulher. Nem lhe tinha passado despercebido o modo como a olhavam, os homens que por eles passavam.
Tinham passado três meses desde aquele fatídico dia na falésia.
O dia em que ela chegara à sua vida, alterando rotinas, e sentimentos.
A sua vida era tão diferente antes disso.
Não se arrependia. Não. Voltaria a fazer o mesmo. Mas a verdade, é que desde esse dia, vivia uma preocupação constante, Que seria da jovem se nunca mais recuperasse a memória?
“Isso não vai acontecer, não sejas parvo” recriminou-se em seguida. “O médico disse que é temporária. É sempre temporária quando não há lesão ou doença cerebral. E ela não tinha, nenhum mal físico, a RM estava limpa.
Um dia lembra de tudo, e adeus Mariana. Talvez até nem se lembre de todo este tempo, quando recordar o que ficou para trás.
A casa vai ficar vazia sem a sua presença, - pensou
 E embalado pelo som da chuva acabou por adormecer.
Miguel, nunca saberia o que o acordou. Se o enorme trovão que ribombava sobre a sua cabeça, se o grito de terror que lhe chegou do quarto ao lado. Saltou da cama, passou as mãos pelo cabelo e dirigiu-se para lá.
Bateu uma, duas vezes, mas de dentro só lhe chegava o choro aflitivo da jovem.
Rodou a maçaneta, empurrou e a porta abriu-se na sua frente.
O quarto estava às escuras Acendeu a luz e viu a jovem. Estava sentada na cama, os braços abraçando as pernas dobradas, a cabeça escondida nos joelhos, o corpo sacudido pelos soluços. Sentou-se a seu lado, e perguntou acariciando-lhe os cabelos, como quem acalma uma criança.
-O que foi? Tens medo da trovoada?
.-Ó Miguel, eu matei o meu pai! - Murmurou entre soluços abraçando-se ao seu pescoço.

16 comentários:

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Já temos um inicio para começar a ver se a jovem começa a visionar a sua memória.
Um abraço e continuação de uma boa semana.

Edumanes disse...

Mais uma inesperada tragédia. Quando eu já pensava que a Mariana estava no caminho certo, para encontrar a felicidade. será que isso foi mesma verdade. Ou serão os efeitos da amnésia? Não sei se um filho que mata o seu pai, possa viver o resto da sua vida feliz?

Tenha um bom dia de quarta-feira, amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

ONG ALERTA disse...

Tragedias fazem parte da vida....
Bjbjb Lisette.

Mariangela do Lago Vieira disse...

Ah meu Deus...Será mesmo verdade?
Talvez não seja... Pois como será feliz com esta culpa?
Vou torcer para que não seja!
Abraços Elvira!
Mariangela

Janita disse...

Tal como o médico diagnosticara a amnésia foi provocada por um grande choque emocional! Até estou arrepiada, Elvira!

Deixe-me fazer uma breve referência à veracidade que nos relata sobre os laços afectivos que aos poucos se vão estreitando entre duas pessoas carentes e nunca antes se tinham visto.

Estou a gostar imenso. A partir de agora não virei ler episódios antigos, vai ser tudo fresquinho do dia.
( mesmo que tenha de estender o meu tempo)
Obrigada, Elvira.

Um abraço
Janita

Ana S. disse...

bem, pelo menos parece que a amnésia temporária já foi embora. E agora?

Silenciosamente ouvindo... disse...

Puxa, que revelação. Será que foi mesmo uma realidade?

Que se lembrou de um acto praticado.

É esperar para ver o desenvolvimento.

Desejo que se encontre bem.

Bj.
Irene Alves

Rogerio G. V. Pereira disse...

A memória raramente se recupera num pesadelo
raramente
mas nem sempre

Socorro Melo disse...


Memória confusa. Informações desencontradas, Flashs... Mas, não deixa de ser uma revelação forte.

Olinda Melo disse...


Bem. A coisa adensa-se. Como alguém disse mais acima, á temos um ponto de partida. Uma situação aflitiva.
E agora, Miguel, qual é o passo seguinte? Já tens o problema de teres a miúda contigo esse tempo todo e agora mais isto... Serás que estás em maus lençóis?

Bj

Olinda

Olinda Melo disse...


Corrigindo gralha: "Será"

Zilani Célia disse...

NOSSA, QUE TRISTE.

http://zilanicelia.blogspot.com.br/

lua singular disse...

Estou fazendo almoço, depois venho comentar seu blog, mas deixei uma resposta para você no meu blog
Lua Singular

lua singular disse...

Oi Elvira,
Espero que seja uma confusão da sua mente. Matar o pai é mais que tragédia que não tem cura.
Vou subindo
Beijos no coração
Lua Singular

Laura Santos disse...

Será que matou mesmo o pai?!...
xx

Rosemildo Sales Furtado disse...

Creio na possibilidade de ter acontecido um acidente com o trágico falecimento do pai e, com a perda da memória, ela está botando a culpa em si. Continuo gostando e super curioso. Rsrs.

Abraços,

Furtado.