25.11.15

25 DE NOVEMBRO DIA DA ELIMINAÇÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER


A violência  contra a mulher é um flagelo dos nossos dias. Rara é a semana em que não sabemos que mais uma mulher sucumbiu  às mãos de quem um dia jurou amá-las. Muitos dos meus contos retratam essa realidade. Celeste, Graça, Rita, Rosa, Elisa, Carlota, são contos onde descrevo essa realidade em várias vertentes. Este é mais um...




                                              Amélia



 Amélia, engoliu as lágrimas, afivelou a máscara de mulher feliz, e saiu para a rua. O dia estava lindo, o sol aquecia o corpo e era como um balsamo para o seu coração.
Era ainda uma mulher muito bonita apesar de já não ser muito jovem. Tinha uma farta cabeleira negra, uns doces olhos castanhos, e uma boca bem desenhada. Alta, magra mas bem proporcionada. E era sobretudo uma excelente atriz, embora nunca tivesse subido num palco. Porque ninguém diria, ao vê-la caminhar pela rua, pisando com segurança, saudando com um sorriso um ou outro conhecido, ou brincando com as colegas no emprego que não era uma mulher feliz.
Oriunda de uma família pobre, Amélia estudara até ao final do secundário com grande sacrifício dos pais. Impensável entrar para a Universidade, naquela época, a vida era muito difícil e embora ela tivesse sonhado com mais, viu-se obrigada a procurar emprego. Pouco tempo depois, conheceu aquele que viria a ser o pai dos seus filhos.
Alexandre, parecia ser um bom rapaz, era alegre, e a sua boa disposição encantou-a. Depois de um curto namoro,  casaram num domingo de Maio.
Ainda nem bem terminara a lua-de-mel, e Amélia já se dava conta de que o marido não era aquilo que ela imaginara. Saía após o jantar, com um “até já vou ali ao café “, mas raramente voltava antes da meia-noite, uma hora. Amélia arrumava a cozinha, preparava os almoços para o dia seguinte, as roupas e finalmente caía cansada na cama, já que no dia seguinte tinha que se levantar cedo. Quando o marido chegava, raramente vinha “sozinho”. A acompanhá-lo vinha um insuportável hálito a álcool. Amélia fingia que dormia, para não iniciar uma discussão altas horas da noite. Na manhã seguinte, quando lhe chamava a atenção, ele era agressivo, dizia que ela era maluca, que estava a insinuar que ele era bêbado e que bêbado, tinha ela o juízo. Por essa altura Amélia soube que estava grávida. 
Quando contou ao marido ele ficou muito feliz e durante três ou quatro dias não saiu de casa à noite. Renovaram-se as esperanças de Amélia. Porém, como sol de Inverno, durou pouco, nem deu para que as esperanças da mulher ganhassem raízes.
Quando Amélia desabafou com a mãe, esta que fora criada no conceito de obediência ao marido, disse-lhe:
- Tem paciência filha. Ele é bom marido, isso é o álcool. E depois a tua avó sempre me dizia: “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”.
Foi nessa altura que Amélia, afivelou a máscara de mulher feliz e enveredou pela carreira de atriz no palco da vida.
O filho nasceu, foi uma enorme alegria para ela, mas nem o nascimento do filho trouxe um novo comportamento ao marido. Cada dia bebia mais, cada dia estava mais agressivo. Não que lhe batesse, diga-se em honra da verdade que isso nunca chegou. Mas os gritos, os nomes que lhe chamava, e até as coisas que partia, era tão mau ou pior do que as agressões físicas.
Quando o filho tinha três anos, depois de uma violenta briga, Amélia tomou a decisão de se separar do marido. Nessa altura o divórcio ainda não tinha chegado a Portugal.
O marido caiu de joelhos, implorou perdão, disse que daí para a frente ia ser diferente, que nunca mais iam brigar, prometeu o mundo e a lua como se costuma dizer.
Pensando no filho, ela decidiu dar mais uma oportunidade ao casamento.
 Alexandre levou um mês sem sair depois do jantar. Estava muito mais calmo, parecia um homem diferente, muito embora algumas vezes parecia que já tinha bebido um pouco, quando chegava do trabalho, mas enfim não seria grande coisa, já que ele se mostrava controlado. Por essa época Amélia engravidou de novo.
Uma malfadada infeção na garganta, uns medicamentos que tomou, que possivelmente anularam o efeito da pílula. Porque ela jurava que a tomara sem falha. Pouco depois o marido voltou a sair à noite e a chegar a casa, não bêbado, mas como  o povo diz,  “atravessado” Quando vinha bêbado, caía na cama, às vezes até vestido e dormia. Quando vinha “atravessado” implicava com tudo, dava pontapés nas coisas, dizia palavrões, ameaçava bater-lhe. O tempo corria, o segundo filho de Amélia, nasceu era uma menina linda que fez o encanto do irmãozinho.
No dia em que a menina fez um ano, o marido fez um "escarcéu" com ela numa loja de roupas infantis, que a deixou indignada e envergonhada. Era a primeira vez que o fazia em público, e Amélia saiu da loja sem compras e a chorar.
Em casa, pensou seriamente na vida que levava, no dinheiro que ganhava, e chegou à conclusão de que para se separar do marido só se fosse para casa dos pais, pois o seu ordenado, não chegava para pagar uma casa, e por comida na mesa para ela e os filhos. Sem falar que havia que pagar à ama dos filhos, ou não poderia trabalhar.
Pensando nisso pegou nos filhos, disse ao marido que ia visitar os pais, e foi sondá-los. Porém não encontrou apoio da parte deles. A mãe voltou com a tal máxima de “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”, o pai disse que não lhe arranjara marido, fora escolha dela, por isso era ela que tinha que resolver o problema, e “ que entre marido e mulher ele não metia a colher”
Voltou para casa, e no dia seguinte antes do marido ir para o trabalho, pôs os pontos nos is.
 Ela estava farta daquela vida. Ou ele deixava a bebida ou ela deixava de ser sua mulher. A escolha era dele. E como sempre que ela ameaçava separar-se, o marido implorou, fez promessas, teve o desplante de dizer que bebia porque a amava, e tinha medo de a perder pois não saberia viver sem ela. Amélia, percebeu que ele era doente, e teve pena dele, dela e dos filhos. Dele, porque não reconhecia que era doente e precisava de ajuda, dela porque era jovem e tinha pela frente um futuro de sofrimento, e dos filhos que amavam o pai e não tinham culpa de nada. Mas quando o marido voltou a beber, Amélia comprou um divã e instalou-se no quarto da filha. E nunca mais foi mulher de Alexandre embora vivam na mesma casa. Quando os filhos casaram, Amélia podia enfim pedir o divórcio. Mas nessa altura Alexandre estava muito doente, e nem ela teria coragem de o abandonar, nem os filhos, iam compreender que o fizesse nessa altura, depois de uma vida inteira de sofrimento.
Passaram-se quatro anos. Alexandre conseguiu superar a doença, já não bebe, mas está mentalmente muito envelhecido, quem sabe se efeito do álcool bebido sem regra, durante tantos anos. Ela sofre, porque nada é mais triste do que ver, dia a dia, a degradação mental do marido.
Hoje, Amélia põe toda a sua felicidade e enlevo nos dois netinhos que os filhos já lhe deram. 
E no emprego que apesar da crise, mantém. O futuro… quem poderá saber o futuro? Há muito que ela vive um dia de cada vez.
Fim


Maria Elvira Carvalho

22 comentários:

Olinda Melo disse...


Este ano já são 26, salvo erro, as vítimas mortais da violência doméstica, sem contar com as que têm sofrido ataques e que continuam sob a alçada dos companheiros porque vários motivos essas mulheres não conseguem libertar-se.

Este conto evidencia bem o sofrimento de algumas mulheres e as razões que se vai encontrando para se continuar a viver uma vida sem amanhã. Por fim, no caso como o da Amélia, chega-se a um ponto em que é a própria sociedade que já não olharia com bons olhos que a mulher seguisse um caminho que não ao lado de uma pessoa que sempre a fez sofrer.

Bj
Olinda

Isa Sá disse...

É uma triste realidade...

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Maria do Mundo disse...

É um flagelo de há muitos anos no qual agora cada vez mais se fala. Uma dura realidade.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

É um flagelo e uma chaga na nossa sociedade a violência sobre as mulheres, falta de civismo.
Um texto muito elucidativo.
Um abraço e continuação de uma boa semana.

Bell disse...

Mulheres merecem respeito e muito amor!!
Nada menos que isso.

bjokas=)

Edumanes disse...

Penso que, infelizmente, é um mal sem fim à vista, enquanto alguns homens pensarem de que a mulher é sua propriedade, de inferior inteligência em relação à sua! A violência nunca terá fim. Pensarão eles, talvez, de que a mulher o pariu para ser sua escrava?

Tenha amiga Elvira, um bom dia de quarta-feira, 25 de Novembro, sem violência.
Eduardo.

Janita disse...

Esse flagelo não é dos nossos dias, Elvira!Infelizmente, já vem de tempos imemoriais.
O grande problema que se coloca é que, nos nossos dias- pleno século XXI - esse flagelo se tenha vindo a agravar, em vez de diminuir.

Nunca é demais falarmos do repúdio que a violência doméstica nos provoca, mas erradicá-la vai ser muito difícil!
As mentalidades é que precisavam ser limpas e humanizadas. Sem isso nada feito!

Um abraço.

esteban lob disse...

En Chile, amiga Elvira, también habrá una marcha contra la violencia intrafamiliar que tantas agresiones y muertes ha causado. Sus ejecutantes, aparte de su falta de humanidad y respeto, demuestran cobardía infinita al hacer prevalecer su mayor fortaleza física contra las mujeres. Son personas cobardes e infames. No tienen perdón de Dios ni merecen el de nadie.

António Querido disse...

A mulher terá que continuar a lutar, para fazer compreender aos meninos violentos que a mulher não foi criada para ser sua propriedade!
Não esquecendo também os homens que sofrem com a violência feminista!
Haja compreensão, paz, amor e alegria!

São disse...

Ainda mais trágico é quando existe dependência psicológica entre vítima e agressor.


Beijos, amiga

Laura Santos disse...

Um texto bem demonstrativo da violência que se abate todos
os dias sobre tantas mulheres.
Evoluiu-se em tanta coisa, no entanto as mentalidades parecem ter ficado lá bem para trás, congeladas no tempo.
Bom lembrar, Elvira!
xx

Mariangela do Lago Vieira disse...

Quantas Amélias existem por ai.Elvira!
Quem falou que elas não souberam escolher...
Muitas vezes as coisas mudam.
Mas, homem sefredores também existem, por ter que aguentar
o que certa mulheres fazem!
Tudo seria mais simples se só o amor reinasse!
Um grande abraço!!
Mariangela

Duarte disse...

Na cidade de Valência este dia está a ser levado com grande difusão.
Não posso compreender que exista , existindo, alguém que seja capaz de proceder desse modo, incompreensível, sendo certo.
Já está bem! Dureza, com este tipo de comportamentos, mas para ambos sexos.
São muitos os casos, como o da nossa Amélia, por esse mundo fora.
Somos seres humanos, o sexo é apenas para fazer com que nos sintamos muito mais unidos: nos necessitamos!
Abraços de vida, querida amiga

Pérola disse...

Uma realidade que parece não ter fim.

Beijinhos com saudades.

Graça Sampaio disse...

Uma realidade tão triste, tão injusta e, no entanto, tão atual ainda!!
Mau de mais!! E as coisas não estão a ir para melhor: as jovens e adolescentes sujeitam-se a apanhar dos namorados e, mesmo assim, avançam para o casamento! Não dá para entender!

Beijinhos.

Socorro Melo disse...


Excelente reflexão, amiga! Ah, quantas Amélias existem mundo à fora? Que assumem uma vida de sacrifícios, se anulam, por causa de casamentos e relacionamentos desarmonizados.

Belo conto.

Luis Eme disse...

Não há cobardia maior que bater numa mulher.

Infelizmente somos um país de cobardes.

Tenho muito orgulho do meu pai, por me fazer perceber que não se bate em mulheres nem em quem está caído no chão.

Abraço Elvira

Vera Lúcia disse...


"Quem se obriga a amar, obriga-se a padecer"... Que frase terrível!
Amar nunca poderá estar atrelado a um estado de sofrimento.
Amélia não largou o marido por insegurança financeira, o que acontece com muitas mulheres que padecem nas mãos dos maridos. Infelizmente, apesar de toda proteção legal oferecida a tais mulheres, muitas ainda relutam em dar um basta na relação e recomeçar suas vidas com mais perspectivas. O medo do revanchismo também é um fator importante para que elas optem por continuar com os companheiros.
Uma triste realidade, difícil de ser erradicada.

Beijo.

Odete Ferreira disse...

Um conto que é o paradigma de muitas realidades, ainda muito presentes nos dias de hoje.
Com mais ou menos variantes, a violência de género (ainda que não se chegue à violência física e/ou psicológica), não se revê nas estatísticas, visto que é feita de silêncio e conformismo.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Um dia não educa as pessoas. É urgente educar e corrigir mentalidades.

Marina Fligueira disse...

¡Hola Elvira!!!

Nos dejas un buen relato, que refleja muchas verdades e injusticias por las que pasan cientos, que cientos? Miles y miles de mujeres en este mundo que parce civilizado... Pero no, todavía le falta mucho y en el nos toca vivir.
Gracias por compartir este sentimiento que es mutuo.
Un abrazo y mi gratitud, por tu buen hacer y tu cercanía.
Un beso. Y se feliz.

manuela barroso disse...

Parabéns , Elvira
Primeiro pela mensagem que traz num conto que é copia da realidade
Segundo, repetindo , a oralidade do seu estilo consegue captar o leitor até ao fim!
Beijinho