Algumas horas mais tarde, Salvador, preparava-se para alinhar todos os passos a seguir. Aquele jantar, tinha sido muito proveitoso. Anete era uma jovem encantadora, mas demasiado inocente, para um advogado tão experiente como ele, habituado a descobrir até o que lhe queriam esconder. Ele não acreditava em coincidências, e a jovem dera-lhe a pista, quando lhe dissera, que era a única pessoa morena na família. A sua intuição dizia-lhe que a história de vida, da jovem, estava ligada à da sua cunhada. Como a data de nascimento era a mesma, e o local também, só havia duas hipóteses. Prima, o que tinha ficado descartado, quando a jovem lhe contou que seus pais eram filhos únicos, ou irmã gémea. E nesse caso, como é a jovem não sabia que era adotada? Ele sabia que certos pais, escondiam dos filhos esse facto, para que não se sentissem inferiores aos filhos biológicos. Seria esse o caso? E como é que a instituição tinha separado duas gémeas idênticas?
Durante o jantar ele ficara a saber quase tudo sobre a
jovem. O que ela não lhe contou, ele adivinhou nas entrelinhas. Tinha tido uma
infância feliz, mimada e protegida por pais e irmãos. Casara com um vizinho, mas o
casamento não dera certo, segundo ela por excesso de amizade e falta de amor.
Sobre esse ponto não conseguira arrancar-lhe mais nada, mas ficou claro que não
aparentava estar a sofrer por causa disso.
Usando discretamente o telemóvel, como se fora atender
uma chamada, conseguira fotografá-la, quando no fim de jantar, se levantou para
ir à casa de banho.
Sentado na cama, observava a fotografia pensativo. Com exceção de quando pensou que a cunhada tinha um amante, nunca na sua
vida se tinha sentido tão indeciso. Teria ele, direito a mexer naquela história, correndo o risco de desestruturar
duas famílias? Decerto que não. Mas por
outro lado teria o direito de deixar que as irmãs, continuassem na ignorância da
sua própria história?
E se tudo não passasse de uma incrível coincidência? Passou a mão pela testa, como se com isso
afastasse aquele pensamento. Não. Ainda se as jovens tivessem nascido em
cidades diferentes, poderia pensar em coincidência. Mas no mesmo dia, e na mesma cidade? Impossível.
O passo a seguir, era mostrar a fotografia ao irmão,
e juntos decidirem o que fazer. Talvez Raul conseguisse alguma informação junto dos sogros. E pedir uma cópia do registo e nascimento da jovem. As adoções costumam ser averbados ao registo de nascimento. Olhou o relógio. Quase duas
da manhã. Pousou o telemóvel na mesa-de-cabeceira, levantou-se e dirigiu-se à
casa de banho. Precisava tomar um duche a fim de relaxar, e enfim dormir.
