Desceu as escadas e dirigiu-se à biblioteca. Abriu a porta, não sem antes bater com os nós dos dedos.
Ricardo estava sentado atrás de uma grande secretária.
Tinha um bloco na sua frente onde escrevia algo.
Levantou a cabeça e olhou-a. Era um olhar amistoso?
Indiferente? Clara não saberia dizê-lo.
- O teu irmão saiu há uns vinte minutos. Disse que ia
acampar com o seu grupo de escuteiros e que te telefonava amanhã. Vai acampar
muitas vezes?
- Entrou para os escuteiros aos seis anos. E desde
essa data que acampa, amiúde, durante as férias. No tempo de aulas não. Porquê?
Não te agrada?
- Porque não me agradaria? Perguntei por simples
curiosidade.
- Por falar em curiosidade. Disseste que o Tiago e a
Soraia não são irmãos?
-Não quero falar sobre isso.
- Como não? Temos um contrato, no qual eu me
comprometi a cuidar deles, a educá-los e protegê-los até atingirem a maioridade,
tal como se fossem meus filhos. O que são, mais ou menos quinze anos. Se vou
ser a mãe deles, tenho todo o direito de saber o que lhes diz respeito.
Tinha levantado a voz, e ao dar-se conta disso, corou.
Ricardo pousou a caneta, e por largos minutos não
disse nada. Depois…
-Talvez tenhas razão, mas de qualquer modo, hoje não é
dia para falarmos disso. Antes quero apresentar-te as minhas desculpas. Devia
ter-te dado as boas vindas à tua nova casa, coisa que não fiz. Sê bem-vinda.
-Obrigada. Disseste que a Antónia fazia o trabalho da
casa e que eu só devia cuidar das crianças. Quero saber se estou proibida de
fazer outras coisas.
- Que coisas? O teu trabalho é, cuidar das crianças.
- E durante o tempo em que dormem? Ou quando forem
para a escola? Posso cozinhar, jardinar, ou fazer qualquer outra coisa que me apeteça no momento, ou tenho que me sujeitar a ficar no
quarto como se estivesse de castigo?
- Que se passa, Clara? Porque não falaste nisso, antes
de assinares o contrato? És mais esperta do que eu pensava. Aceitaste tudo, até
estares casada e agora começas a mostrar as garras.
Ergueu a cabeça e disse o mais serena que conseguiu, embora os seus olhos estivessem mais brilhantes e a raiva lhe apertasse a garganta.
- Não sei com que espécie de mulheres, lidaste até hoje,
mas gostaria que não me julgasses por elas. Fui absolutamente sincera quando te
disse o que me tinha levado a responder ao teu estúpido anúncio. Mas mesmo
necessitando-o com toda a minha alma, eu não teria assinado aquele contrato, se não gostasse de
crianças e não soubesse que era capaz de ser para elas a mãe que decerto precisam. Fui
mãe do Tiago, desde que meu pai morreu e tu sabes isso, deve estar no relatório
do detetive. A ideia do casamento foi tua. Eu faria exatamente a mesma coisa com um simples contrato de empregada. Por isso não me venhas dizer que fiz isto ou aquilo, até estar casada, como se te tivesse enganado. Sabes muito bem que até ao momento da cerimónia, vi mais vezes o teu advogado do que te vi a ti. E decerto não lhe ia fazer as perguntas a ele. E outra coisa, o facto de cuidar das crianças não me impede de fazer outras coisas que gosto de fazer,
como cuidar do jardim, fazer um almoço especial quando me apeteça, ou até lavar os vidros da janela.
Sei que tens uma boa empregada e que podes contratar quantas quiseres mais. Calculo que sejas um homem muito rico, mas que fique bem claro. Compraste os meus serviços, mas não há dinheiro no mundo que compre, a minha vontade, ou mude a minha maneira de ser. Quando era criança, os meus pais tinham uma cozinheira e duas empregadas. Mas desde os oito anos que aprendi a arrumar o meu quarto e nunca mais deixei a empregada fazê-lo.
Sei que tens uma boa empregada e que podes contratar quantas quiseres mais. Calculo que sejas um homem muito rico, mas que fique bem claro. Compraste os meus serviços, mas não há dinheiro no mundo que compre, a minha vontade, ou mude a minha maneira de ser. Quando era criança, os meus pais tinham uma cozinheira e duas empregadas. Mas desde os oito anos que aprendi a arrumar o meu quarto e nunca mais deixei a empregada fazê-lo.
Virou-se, saiu e subiu para o seu quarto sem
esperar resposta.
