Horas mais tarde, Ricardo
encontrava-se na biblioteca, que também utilizava como escritório, quando a
jovem entrou.
- Bom, agora que as crianças dormem, podemos ter a tal
conversa que deveríamos ter tido antes do casamento. Ainda me surpreendo como
podemos chegar a esta situação, sem que eu saiba nada de ti e das crianças. Não
é justo, tanto mais que tenho a certeza o relatório do teu detetive deve ter
trazido até a data em que me caiu o primeiro dente.
-Foi bem detalhado, mas não chegou a tanto - disse
ele com um esgar que pretendia ser um sorriso. - Por exemplo, não me disse porque
terminou o teu namoro, depois de quase dois anos. Se vou ter de te confiar os
meus segredos, porque não começas por me esclarecer esse ponto?
- Primeiro, porque ele não tem qualquer interferência
na minha missão de educar as crianças. Segundo, não te pedi que me falasses de
ti, mas delas, porque quanto melhor as conhecer, melhor será a minha
relação com eles.
-Esqueces que as suas histórias estão ligadas à minha?
-Não. Mas foste tu que falaste em segredos. E eu não
quero imiscuir-me na tua vida, senão naquilo que às crianças diga respeito.
O silêncio reinou na sala durante
alguns segundos. Sério, Ricardo olhava-a fixamente. Ela sustentou-lhe o olhar.
Por fim, ele levantou-se e aproximou-se da janela. De costas para ela, começou a
falar:
Não tenho nenhuma memória da minha mãe. Era ainda bebé
quando ela faleceu. Três anos depois meu pai voltou a casar, mas a minha
madrasta, não gostava de mim. Tinha ciúmes, não sei se do amor que meu pai me
tinha, se por lhe recordar que o meu pai já tivera outra mulher antes dela. Fez-me
a vida negra, durante dois anos, até que influenciado por ela, meu pai
enviou-me para casa da minha avó materna.
Clara engoliu em seco. Na voz rouca do homem, estava latente o sofrimento, que aquelas recordações despoletavam. Imaginou como teria sido a vida do seu irmão, se
após a morte dos pais, ela não tivesse cuidado dele, e sentiu pena do menino que
Ricardo fora.
-Na minha família - continuou Ricardo, - o filho varão
sempre seguiu a carreira militar. Foi assim com meu pai, meu avô e bisavô. De
modo que mal fiz o ensino primário entrei para o Colégio Militar. Não era
o que eu queria, mas quem mandava era o meu pai e não havia nada a
fazer. A minha juventude não foi muito diferente da de outros da
minha geração, talvez mais solitária pela falta de apoio familiar e mais rígida por causa da educação militar. Terminado o Colégio, ingressei, na Academia Militar e acabado o curso, fui integrado no exército, onde participei em algumas missões em África, mas nada de
muito importante. Tinha vinte e seis anos e vivia apenas para a carreira. Contrariamente
aos meus colegas, que ou estavam casados, ou iam a caminho do altar, eu nunca
tinha encontrado uma mulher por quem sentisse outro sentimento que não fosse
apenas a satisfação de um desejo momentâneo. Mas nessa altura, durante umas
férias, conheci a Céu. Era muito bonita, mas o que me seduziu foi a sua doçura. Apaixonei-me. Namorámos durante catorze meses, e a ideia de nos casarmos em breve, estava a ser encarada seriamente, mas nessa altura, fui destacado para o
serviço permanente da NATO, por dois anos. Decidimos protelar o casamento para o fim da comissão. Despedimo-nos com juras de amor eterno, e promessas de que íamos estar em contato diário. Apesar dos meus quase vinte e oito anos, era tão ingénuo que ainda acreditava em amores eternos.
Parti então, mas nesses dois anos, participei em missões no Afeganistão, em lugares tão remotos, onde não havia Internet, e o correio só chegava uma vez por semana, quando o avião de abastecimento nos levava os alimentos.
Parti então, mas nesses dois anos, participei em missões no Afeganistão, em lugares tão remotos, onde não havia Internet, e o correio só chegava uma vez por semana, quando o avião de abastecimento nos levava os alimentos.
