Emocionada retirou um envelope cheio de fotos suas. Cada uma recordava uma etapa da sua vida. Havia uma no berçário da maternidade, outra a andar num baloiço de bebé. Virou-a e viu que tinha no reverso a data. Era do seu primeiro aniversário. Pegou noutra e viu-se bem pequenina no meio de outras crianças a apagar duas velas pequeninas num bolo de aniversário. Havia muitas mais, o seu primeiro dia de aulas, a entrada para os escuteiros, com o fato de lobito, a sua primeira comunhão, os seus aniversários. A última fora tirada seis meses atrás. A sua mãe tinha feito um registo fotográfico da sua vida, e ela nunca dera por isso. Poisou-as a seu lado, pensando que tinha que comprar um álbum e organizá-las. Se algum dia viesse a ter filhos, seria interessante comparar as suas fotos com as várias etapas deles.
Em seguida, retirou da caixa, um envelope grande e lá
dentro encontrou os documentos da casa, a escritura de compra, e o registo
predial. Voltou a metê-los no envelope, e retirou da caixa um pequeno baú de
madeira. Abriu-o e encontrou uma caixa de joalharia. Assombrada, porque nunca
tinha visto a sua mãe com qualquer jóia, abriu-a e mais espantada ficou ao
encontrar lá dentro um anel de noivado e uma aliança.
-De quem seriam? Da sua mãe não era com certeza, ela
sempre lhe dissera que nunca se interessou suficientemente por ninguém para
desejar casar. Seria dos seus avós? Rodou a aliança e viu que tinha uma
inscrição no interior “Jorge 25 -5-1990”. Não podia ser dos seus avós. Mas
então de quem podiam ser? E porque estariam na posse da sua mãe? Voltou a fechar o
estojo e retirou do fundo da caixa um outro envelope. Abriu-o e tirou vários documentos.
Uma certidão de nascimento em nome da sua mãe, Natália Trindade. Uma outra
certidão de nascimento em nome de Jorge Noronha.
Cada vez mais intrigada procurou o seguinte. Uma certidão
de casamento em nome da sua mãe e de Jorge Noronha. Procurou a data. A mesma
que estava na aliança. Então a aliança e o anel de noivado eram da sua mãe? Mas
se assim era, porque é que ela sempre lhe dissera que era solteira? O que a
levara a mentir-lhe a vida inteira? E quem seria aquele homem com quem casara?
E onde estaria? Procurou no fundo da caixa, mas não havia mais nada lá. Voltou
a pegar no envelope e ao abri-lo para guardar os documentos verificou que havia ainda um outro documento lá dentro. Retirou-o e leu-o. Era o registo do processo de divórcio da
sua mãe. A data do divórcio era de vinte e oito de Novembro de mil novecentos e
noventa e um.
Ela nascera a vinte e dois de Maio de mil novecentos e
noventa e dois. Fez rapidamente as contas. Cinco meses e vinte e quatro dias.
Então aquele tal Jorge era o seu pai. Porque é que ela não tinha o seu nome?
Tê-la-ia rejeitado? Seria por isso que a mãe se divorciara? Mas porque
esconder-lhe os factos. Pior, porque lhe mentiu?
Tornou a guardar tudo na caixa. Estava arrasada. Desde
que tinha memória a mãe sempre esteve a seu lado sozinha. Quando foi para a
escola tentou saber porque não tinha pai como as outras meninas.
E a mãe disse-lhe que tinha ido a uma festa, bebera mais
do que a conta e fizera amor com alguém. Um mês mais tarde soube que estava
grávida, mas não se lembrava de nada e não sabia quem seria o seu pai. Porquê?
