9.5.18

RENASCER - XXXI



Naquele dia, Carlos e Luísa encontraram-se em Santa Apolónia, onde ele ia apanhar o comboio, para um fim-de-semana com a família, que festejava no domingo o aniversário do seu pai.  
- Antes de partires, queria falar contigo, sobre um assunto muito sério, Carlos.
- Aconteceu alguma coisa com a Teresinha, - perguntou ele sem saber o que ela poderia ter para lhe dizer.
- Em parte sim, embora ela esteja bem de saúde, graças a Deus. Mas o anjinho já fez um ano, e ainda não está batizada. Queria fazê-lo em breve, e queria que tu fosses o seu padrinho. Sei que é uma grande responsabilidade, e não ficarei zangada se disseres que não. Mas sabes como é, na falta dos pais, compete aos padrinhos, cuidar dos afilhados. Ficaria mais descansada, se soubesse que no caso de me acontecer alguma coisa, a minha filha seria criada por alguém que lhe ia poder falar dos pais. Aceitas?
- O que poderá acontecer-te, mulher de Deus? És jovem, tens saúde...
- Ninguém tem a vida nas mãos, nem há idade certa para a morte. Posso sair daqui, ser atropelada e morrer. Aceitas? - Voltou a perguntar.
- Claro que aceito, se isso te deixa mais feliz. O que preciso fazer?
- Já falei com o padre, gostava que fosse batizada agora em Agosto. Vais comigo à igreja para marcar a data?
- Conta com isso. Vou falar com as minhas irmãs e saber o que é necessário e quando voltar, tratamos disso. Sabes que já tenho uma promessa de emprego? Para guarda florestal de Monsanto.  O comandante da unidade, ao saber que eu pretendia arranjar trabalho em Lisboa, deu-me uma carta para me apresentar na Câmara Municipal. Estive lá, e garantiram-me que o trabalho será para mim. Diz que vão abrir concurso, porque é de lei e não podem admitir ninguém sem concurso. Mas dado o que se passou comigo em África, o emprego vai ser para mim.  Não é um grande ordenado, mas tendo em conta, que me darão casa, é muito bom. Depois sabes o que se diz, é estado, e esse é garantido. Vamos ver, se o pregador não mente, como se diz na minha terra.
- Oxalá. E enquanto não te dão a resposta, tens onde ficar, agora que já não vais para o Alfeite?
- Quase. Um amigo deu-me a morada dos seus tios, ali no Chiado. Diz que eles têm um quarto para alugar, e que ia falar com eles este fim-de-semana. Depois na Câmara disseram-me que teria de esperar mais ou menos um mês por isso não é muito tempo. 
 Mas não é hora de falar disso nesta altura. Falamos quando eu voltar. Tenho que entrar, faltam poucos minutos para o comboio partir.
-Então boa viagem, - disse ela estendendo-lhe a mão, que ele apertou entre as suas, dizendo:
- Obrigado. Cuida-te. E dá por mim, um beijo à Teresinha.



Nota: Eu sei que esta história, não parece possível à luz da presente época. Especialmente para aqueles que não viveram no 24 de Abril.
Mas aquela era outra época. O povo vivia subjugado ao regime e à igreja. A religiosidade era muito grande, uma promessa era sagrada, as pessoas tinham uma grande noção de honra, e para a maioria a sua palavra valia mais que qualquer documento assinado. 
O amor, entre o casal como o entendemos hoje era algo irrelevante, os pais encaminhavam os filhos para uma união mais de interesse do que de amor. Dizia-se que o amor vinha com o tempo. Sexo então era uma coisa  só aceitável na ótica da procriação. Fora desse contexto era imoral, ensinavam a igreja, e as mães.  Mulher então quando casava era objeto do homem. Não podia sair de casa, se o marido não quisesse, não podia viajar sem autorização dele, e não se podia negar a ter relações sexuais, porque o seu dever de esposa, era satisfazer o marido, parir, cuidar dos filhos, e da casa. Se fosse vitima de violência, ninguém a ajudava, "porque entre marido e mulher, ninguém mete a colher" e muitas vezes ainda o homem era elogiado porque se lhe batia, é porque ela merecia. E isto era tanto pior, quanto mais pequena a terra, ou a escolaridade do povo. 


22 comentários:

Pedro Coimbra disse...

Parece mentira, não é?
Mas não é, era a mais pura e dura realidade :(
Abraço

Isa Sá disse...

A passar por aqui para acompanhar a história!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Roaquim Rosa disse...

bom dia
mais um problema para a cabeça do Carlos .
como vai ele agora pedi-la em casamento quando ela quer apenas que ele seja padrinho da sua filha .
leitor sofre !!!
JAFR

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Muito interessante e fico à espera da continuação.
Um abraço e continuação de boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

Ailime disse...

Bom dia Elvira,
Depois do convite a Carlos para padrinho de Teresinha o suspense continua.
Vou continuar a acompanhar com muito interesse.
Beijinhos e óptimo dia.
Ailime

noname disse...

Tem muito de verdade o que diz mas, não era tábua rasa. Tinha mais a ver com a cultura do homem que do regime. Nunca vi meu pai bater na minha mãe, o casamento não foi arranjado, a mãe saía quando queria, tinha carro próprio oferecido pelo pai, e fomos educadas a olhar nos olhos, nunca baixar a cabeça a não ser que fosse para levantar alguém. Os pais não iam à missa, nunca proibiram a que fossemos. Como digo por experiência própria, tinha mais a ver com a mediocridade do homem, que se acharia mais homem por beber demasiado, bater na mulher e nos filhos. Sou filha da cidade, mas boa parte da vida vivi em meio rural. Sei do que fala a Elvira, e sei do que falo eu.

Beijinho

Tintinaine disse...

É verdade, aqueles tempos eram uma vergonha, principalmente pelos medos injectados nos fieis pelos padres, nas aldeias. Na cidade era um pouco diferente, mas havia outros pecados.
O machismo, o álcool e outros pecados masculinos faziam a vida das mulheres um tanto ou quanto difícil e a filharada em excesso complicava-a ainda mais.
O romance da Luísa e do Carlos a algum lado irá dar, confiem na nossa novelista!

Emília Pinto disse...

Era mais ou menos assim, Elvira, pois vivi nessa é poca e até o simples facto de uma ulher usar calças era uma vergonha. Claro, havia muitas excepções, mas, a minha avó nunca perdoou a minha mãe por ela não ter casado com quem ela queria. Depois que o meu avô morreu, nunca mais a minha mãe foi considerada filha. Cá continuo acompanhando a história. Bijinhos, amiga e tudo de bom.
Emilia

Gil António disse...

Bom dia. Realidades doutros tempos que, hoje parecem não existir.

* Ouvindo o silêncio dos Areais. *
.
Cumprimentos Poéticos

✿ chica disse...

Ele como padrinho agora...Vamos ver no que vai dar...Estou imaginando uma morte e ele livre pra com quem ama, verdadeiramente ,se casar! Será? beijos, chica

Cidália Ferreira disse...

Muito bem!
Com esta aproximidade de Padrinho, vai ser um bom motivo para se encantarem um pelo outro, lol

Beijos e um excelente dia.

Os olhares da Gracinha! disse...

Facilmente se apercebe dessa dura realidade por isso sua história está tão interessante e "verdadeira"!!!bj

Meu Velho Baú disse...

Foram anos difíceis para quem os viveu e ainda havia a acrescentar a PIDE :((

Bell disse...

Os tempos mudaram até o valor de madrinha e padrinho encontram-se perdidos.

bjokas =)

Ontem é só Memória disse...

Estou cada vez viciada nesta história!

Bjxxx
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A Nossa Travessa disse...

Minha querida Elvirinhamiga

Vamos por partes. Para isso vou alongar-me; não muito, mas...

A estória vai decorrendo de acordo com a tua excelente narrativa e por isso limito-me a fazer o registo que bem merece.

Outra coisa são os considerandos que teces sobre os usos e costumes da minha/nossa época. Na maioria (ia a escrever esmagadora, hesitei, estive para apagar, mas finalmente deixei ficar assumidamente) dos casos era mesmo assim. De resto recordo a chachada Sebastião come tudo, come tudo sem colher, fica todo barrigudo e depois dá pancada na mulher!

No meio da miséria e da muita fome que se vivia na "felicidade da «Casa Portuguesa» a tal que tinha um São José de azulejo e que anunciava «A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar, e ficar contente»

o ditador de Santa Comba Dão não ignorava que quem não era do Benfica não era bom chefe de família e que quando os encarnados (vermelhos eram os comunistas que comiam criancinhas ao pequeno almoço) perdiam chegavam bêbados a casa e davam um arraial de porrada na mulher para descarregar os maus fígados e o mau carrascão.

Mas, como comenta a Noname e porque a moeda tem sempre duas faces havia também a média, a alta burguesia e as nobrezas, a velha, marialva e a "nova" dos novos ricos, dos donos dos escudos dos já então DIT ou seja Donos de Isto Tudo e a Igreja, ah o Patriarca Cerejeira, companheiro do Botas em Coimbra e os seus acólitos.

Esses não batiam nas mul..., oops, esposas, (ou se o faziam era recatadamente e elas comiam e calavam para não dar escândalo) tinham amant..., oops, amigas, ballets roses e por aí fora.

A minha família fazia parte da média/alta burguesia e por isso vivíamos bastante bem e era em nossa casa que se festejavam os Natais e Anos Novos e aniversários e outras festas e era o pai Henrique Silva Ferreira quem abria os cordões à bolsa.

Pronto, já me estendi em considerandos, quiçá para além do que queria. Mas creio que estabeleci um equilíbrio sobre o que se passava no "Estado Novo".

Muitos qjs deste teu amigo e admirador
Henrique, o Leãozão

Olinda Melo disse...


Será premonição? Vai acontecer alguma coisa a Luísa?

Bj

Olinda

Gaja Maria disse...

Eu era muito criança quando se deu o 25 Abril, posso não saber muitas coisas dessa época, mas uma coisa eu sei, meus pais e suas famílias de ambas as partes, todos casaram por amor e ninguém me parecia posse de ninguém, nem havia qualquer tipo de abuso, sempre houve respeito entre homens e mulheres. A minha terra é hoje uma cidade mas sempre foi uma vila pequena com muitos analfabetos. Acho que sempre houve e haverá quem beba e quem abuse dos direitos dos outros, acredito que nessa altura essas coisas se calassem mais e fossem mais habituais devido a muitas razões, mas felizmente não conheci esse lado.
Abraço Elvira

Kique disse...

Vivências de outra época mas que algumas delas ainda persistem por cá...mesmo que escondidas.
Bjs
https://caminhos-percorridos2017.blogspot.pt/

Anete disse...


O conto está ganhando novos passos e suspenses...
Vamos adiante, gosto das esperas...
Um abraço e uma suave noite...

Lucia Silva disse...

Muito interessante esse capítulo! Aqui na minha realidade, ser padrinho ou madrinha tem esse mesmo caráter de responsabilidade como se fosse pais. Tanto no tocante ao cuidar como nos aspectos morais e religiosos.
Abraços carinhosos!

Cantinho da Gaiata disse...

Tempos duros ainda bem que isto nos dias de hoje é bem diferente, uns mais e outros bons mas é o que temos.
Mais um problema para a cabeça do Carlos, agora vai ser padrinho, vamos ver se isso o faz esquecer, o grande amor que deixou para trás.
Bjs

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