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10.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XI






Odete entrou em casa e foi ao quarto da mãe ver como ela se encontrava. Pareceu-lhe que já dormia e retirava-se quando a mãe abriu os olhos e perguntou:
- Falaste com ele?
- Sim, mãe. Ele vai tratar de tudo para que sejas rapidamente tratada. Mas quer que eu volte para casa.
- Nunca me contaste porque o abandonaste. Suponho que algo de muito grave se passou. Gostavas tanto dele. Mas se te quer de volta, é porque também te ama. Se assim não fosse há muito tempo  tinha pedido o divórcio. Porque não lhe dás uma segunda oportunidade?
- Não te preocupes mãe. Esclarecemos tudo e fizemos as pazes. Amanhã mudo-me para lá, mas estarei contigo sempre que puder. O João disse que amanhã chega uma enfermeira para cuidar de ti até seres internada.
- Mas isso é muito caro.
- Não te preocupes com isso. Ele faz questão de pagar tudo. Só tens de pensar em que tudo vai correr bem e que daqui a uns meses, nem te vais lembrar disto. Agora descansa. Eu vou telefonar ao pai e depois também me vou deitar.
- Não lhe fales da gravidade da minha doença. Tem tempo de saber quando voltar.
- Fica descansada. Agora procura dormir. Até amanhã.
- Até amanhã, filha. Deus te abençoe.
Odete telefonou ao pai, que atravessava Espanha, rumo a Portugal, verificou que estava bem, informou-se de quando chegava e despediu-se com um beijo.
Foi à cozinha, aqueceu uma caneca de leite, que bebeu, verificou se as janelas da casa estavam todas fechadas, e foi para o quarto que fora seu e da sua irmã, até que casaram e saíram para as suas casas.
Procurou um pijama e foi à casa de banho escovar os dentes e preparar-se para dormir. Fazia tudo com uma lentidão propositada, tentando não pensar no caos em que se transformara a sua vida, pelo menos até ao momento em que se deitasse. Porque ela sabia que assim que pousasse a cabeça na almofada, as memórias viriam em catadupa, tal como tinha acontecido durante todo o tempo que vivera na casa da sua irmã Laura em Leeds onde se refugiara tentando esquecer o fracasso do seu casamento.
Inicialmente pensara que seria só até ao divórcio, mas como João nunca o pedira, ela foi ficando e acabara empregando-se numa creche do irmão do cunhado.
Regressara há menos de quinze dias a pedido do pai, para cuidar da mãe.