Odete entrou em casa e foi ao quarto da mãe ver como ela se encontrava. Pareceu-lhe que já dormia e retirava-se quando a mãe abriu os olhos e perguntou:
- Falaste com ele?
- Nunca me contaste porque o
abandonaste. Suponho que algo de muito grave se passou. Gostavas tanto dele.
Mas se te quer de volta, é porque também te ama. Se assim não fosse há muito tempo tinha
pedido o divórcio. Porque não lhe dás uma segunda oportunidade?
- Não te preocupes mãe. Esclarecemos
tudo e fizemos as pazes. Amanhã mudo-me para lá, mas estarei contigo sempre que
puder. O João disse que amanhã chega uma enfermeira para cuidar de ti até seres
internada.
- Mas isso é muito caro.
- Não te preocupes com isso.
Ele faz questão de pagar tudo. Só tens de pensar em que tudo vai correr bem e
que daqui a uns meses, nem te vais lembrar disto. Agora descansa. Eu vou
telefonar ao pai e depois também me vou deitar.
- Não lhe fales da gravidade da
minha doença. Tem tempo de saber quando voltar.
- Fica descansada. Agora
procura dormir. Até amanhã.
- Até amanhã, filha. Deus te abençoe.
Odete telefonou ao pai, que
atravessava Espanha, rumo a Portugal, verificou que estava bem, informou-se de
quando chegava e despediu-se com um beijo.
Foi à cozinha, aqueceu uma
caneca de leite, que bebeu, verificou se as janelas da casa estavam todas
fechadas, e foi para o quarto que fora seu e da sua irmã, até que casaram e saíram
para as suas casas.
Procurou um pijama e foi à casa
de banho escovar os dentes e preparar-se para dormir. Fazia tudo com uma
lentidão propositada, tentando não pensar no caos em que se transformara a sua
vida, pelo menos até ao momento em que se deitasse. Porque ela sabia que assim
que pousasse a cabeça na almofada, as memórias viriam em catadupa, tal como
tinha acontecido durante todo o tempo que vivera na casa da sua irmã Laura em Leeds onde se refugiara tentando esquecer o fracasso do seu casamento.
Inicialmente pensara que
seria só até ao divórcio, mas como João nunca o pedira, ela foi ficando e
acabara empregando-se numa creche do irmão do cunhado.
Regressara há menos de quinze
dias a pedido do pai, para cuidar da mãe.
