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7.7.18

ALCÁCER DO SAL - UMA CIDADE COM MUITA HISTÓRIA

Na margem direita do rio Sado, a cidade estende-se sobre uma pequena colina, que se debruça no rio.
Alcácer do Sal, faz parte das cidades mais antigas da Europa. Provas arqueológicas afirmam-no. Era um porto importante no tempo dos fenícios, que aqui comercializavam e exportavam principalmente o sal, peixe salgado e cavalos. Para isso contribuiu o facto de nessa época o rio ser navegável até aqui. A cidade reflecte-se no rio, como se estivesse sempre a mirar-se nele. Lá em cima, o Castelo, que inicialmente o foi, ( hoje só conserva as muralhas e as torres,) depois foi um convento, e agora é a Pousada  D. Afonso II, sob a qual jaz a história da cidade através dos séculos. Querem ver?









Peças da idade do Bronze e moedas de várias épocas


A pousada oferece 35 quartos, tantos como teria o extinto convento, tendo sido reconstruída respeitando a antiga traça conventual, com os seus claustros e capela. Mas para além disso, a cave da pousada possui um verdadeiro tesouro histórico, como mostram as fotos anteriores

                                    O exterior da pousada,


De diferentes pontos do Castelo, o olhar encanta-se na paisagem, ora citadina, ora campestre, com os enormes campos de arroz (quando lá estive, era a época de preparar  os campos.)
Dentro das muralhas a Igreja de Santa Maria do Castelo, da qual mostrei acima o portal lateral de arco perfeito, prova da sua origem romana. Por falar em romanos, sabem que eles batizaram a cidade com o nome de Salacia? Por causa da influência do Sal. O nome de Alcácer, vem como todos os outros começados por Al, dos árabes, que também aqui se fixaram por causa do sal. Aqui na 1ª foto, temos o altar principal. Foi a primeira vez que vi numa igreja o altar principal sem sacrário. Lindo este púlpito.
Em cima, a capela do sacrário e em baixo a capela lateral que se adivinha na foto anterior por trás do púlpito.

Mas a cidade não oferece apenas o Castelo. Passeando pelas suas ruas encontramos outros motivos de interesse, como a Igreja de Santo António, a Igreja de Santiago, a Ermida do Senhor dos Mártires, ou o Museu de Arqueologia. No outro lado do rio, existe um belo parque para passear, do qual destaco um passeio de calçada portuguesa, com desenho das antigas embarcações do rio.



  Em Alcácer, não existem praias, mas a poucos kms temos as da Comporta, da Torre, do Carvalhal, da Raposa ou da Galé.

A esta hora, já devem estar cheios de fome. Vamos ver do que se compõe a gastronomia por aqui? Então temos como pratos típicos da região, ensopado de enguias, migas de pão, ou de batata, borrego assado no forno, coelho frito à S. Cristóvão, sopa e massa de peixe, arroz de choco e açorda.
Na doçaria as pinhoadas são rainhas, mas os rebuçados de ovos, a tarte de pinhão, as queijadas de requeijão, e o bolo real são também muito apreciados.
E depois, Alcácer do Sal, pertence às terras do Sado, de onde provêm vinhos de excelência.

E então? Vamos a Alcácer do Sal?



O DIREITO À VERDADE - XVIII






Entraram no carro em silêncio submersos em pensamentos e sensações diferentes.
Antes de pôr o carro em marcha ele perguntou:
-Gostarias de ver alguma coisa em especial?
-Gostaria de ver tanta coisa. A universidade a sua biblioteca, o Portugal dos Pequenitos, de que oiço falar desde menina, tanta coisa que gostava de ver que precisaria de mais três ou quatro dias.
-E porque não podes ficar esses dias? Tens alguém à espera?
A tentação era grande e por isso hesitou antes de responder.
-Não.
-Então porque não ficas?
- Não posso. Vamos embora?
Ele rodou a chave e o carro deslisou devagar.
- Vou levar-te ao Portugal dos Pequenitos. Um desejo de menina deve ser satisfeito para que não haja frustração.
-Mas não tens que estar no hospital às cinco, para veres a tua mãe?
-A minha mãe está melhor, o médico vai dar-lhe alta amanhã. O meu pai está com ela e já lhe terá dito que eu vou um pouco mais tarde, não te preocupes. Apesar de te conhecer apenas há umas horas, sinto que és especial e que podes vir a ser alguém muito importante na minha vida. Por isso quero conhecer-te melhor. Chegámos.
Estacionou o carro e dirigiram-se ao recinto, não sem antes passar pela bilheteira onde Cláudio adquiriu os bilhetes.
O facto de terem chegado evitou que Helena tivesse de responder, e na verdade ela não sabia que dizer. A educação que a mãe lhe dera, as constantes dissertações sobre a maldade e hipocrisia masculina, foram fazendo o seu papel, evitando a convivência com o sexo oposto, e os namoricos tão naturais em determinada época do crescimento de qualquer mulher. E o pensar que a mãe tinha sido vítima de uma saída imprudente que pagara a vida toda tendo que a criar sozinha, também influenciou em muito o seu comportamento. Agora pela primeira vez na vida sentia-se dividida entre a atração que Cláudio despertava nela, e o medo de descobrir até onde essa atração a podia levar. Decididamente, iria embora no dia seguinte logo pela manhã. Não iria voltar a vê-lo nunca mais. E a paz regressaria ao seu espírito, agora tão inquieto.
Mal entraram no espaço, a criança que havia nela, despertou e deixou-se encantar pela magia do local. Espantou-se com a perfeição da reprodução de casas e monumentos, naquela escala miniatural.
Cláudio ia-lhe dando algumas explicações sobre o local que ela quase nem ouvia.  Que a obra não tenha sido inocente, que ela era uma espécie de propaganda política, que fora uma exaltação do Estado Novo e das suas ideias. O que é que isso dizia às crianças? Nada. E naquele momento ela era isso mesmo, uma criança que queria ver tudo, por dentro, pese o facto de em algumas casas, quase entrar de joelhos, dada a sua estatura e o tamanho das portas.
Cláudio estava cada vez mais encantado com a autenticidade da jovem, cujo rosto corado, e olhos brilhantes, mostravam bem o que lhe ia na alma.
Terminaram a visita já bastante depois das cinco da tarde.
Cláudio convidou-a para irem lanchar mas Helena recusou e pediu para a levar ao hotel, alegando estar cansada. E como ele queria estar no hospital às seis, não insistiu.



2 Avisos :

1º  Lá em cima está um vídeo de Portugal dos Pequenitos, para aqueles que nunca lá foram.

2 Amanhã e depois não haverá esta história.  Segunda se verá se Helena se vai  embora, ou se fica com Cláudio.  

6.7.18

O DIREITO À VERDADE - XVII


                                  Fonte das lágrimas




Chegaram ao restaurante e a jovem admirou-se ao descobrir que ele já tinha feito marcação, afinal ela pensava que tinham ido ali como poderiam ter ido a qualquer outro lugar.
O almoço foi muito agradável, tanto pelo serviço, como pela conversa animada entre eles. Cláudio estava encantado não só com a cultura e clareza de ideias da jovem, como com a simplicidade com que expunha os seus pontos de vista. Porém notou que ela se retraía e contornava a situação, cada vez que ele tentava saber mais sobre ela, onde vivia o que fazia etc.
No fim da refeição, foram passear pela Quinta das lágrimas, com Cláudio fazendo de guia e explicando à jovem as maravilhas com que se ia deparando naquele lugar tão belo. Passearam pelo jardim medieval, único no país, admiraram as frondosas e bicentenárias sequóias, viram o canal que em 1326 a Rainha Santa Isabel mandara construir para levar a água das duas nascentes para o Convento de Santa Clara. Por esse canal reza a lenda, que Dom Pedro mandava barquinhos com mensagens a Dona Inês, a sua amada que fora obrigada  a entrar para esse convento, por causa desse mesmo amor. Sempre que Pedro podia libertar-se das suas obrigações de futuro rei, refugiava-se nessa quinta e por  esse meio, mandava-lhe mensagens,  pedindo-lhe para se encontrar com ele. 
No local existem duas fontes. Uma chamada Fonte dos Amores, por, diz a lenda, ter presenciado os encontros amorosos de Pedro e Inês. A outra a Fonte das Lágrimas, porque segundo a mesma lenda nasceu das lágrimas de Inês quando do seu assassinato pelos homens de Dom Afonso IV pai de Dom Pedro e rei de Portugal à altura.
O passeio, a envolvência romântica do local, a história trágica de um tão grande amor, a sua recente orfandade, a descoberta do mistério do seu nascimento, a presença marcante do homem que seguia a seu lado e lhe iam mostrando aquele local, tudo isso contribuiu por uma enorme emoção que foi tomando conta de Helena, de tal modo que em determinado momento não conseguiu mais suster um soluço. Cláudio parou, colocou-lhe as mãos nos ombros, e vendo as lágrimas que lhe molhavam as faces, abraçou-a e quase de forma inconsciente, baixou a cabeça e procurou a boca feminina. Não foi um beijo apaixonado, invasivo, foi antes um beijo suave cheio de ternura, mas que incendiou o coração da jovem, virgem de carícias masculinas. Assustada com as reações que o seu corpo experimentava, colocou as duas mãos sobre o peito masculino e empurrou-o.
- Por favor, Cláudio, leva-me ao hotel.
- Não fiques assim. Foi apenas um gesto de carinho, uma reação à tua emoção.
-Reages à emoção das pessoas beijando-as? Eu não. E não me agrada, que um quase desconhecido me beije.
- Estás a ser criança, Lena. Primeiro porque como deves saber muito bem, um beijo entre um homem e uma mulher é muito mais que o toque carinhoso que  te dei. Segundo, prometi que te ia mostrar alguns pontos interessantes de Coimbra e ainda não vimos quase nada. Vamos para o carro.
Ela não respondeu. Limitou-se a encaminhar-se para a saída da quinta. Claro que ela sabia que aquilo não era um beijo de amor. Não por experiência própria mas sabia-o. Porém se a reação do seu corpo foi tão poderosa que ainda sentia as pernas a tremer, se tivesse sido mais intenso morreria queimada na fogueira que o seu corpo ateara.
Enquanto isso, o homem interrogava-se. Em que mundo teria ela vivido até então, para ficar tão perturbada com um simples toque de carinho. Afinal o calendário marcava o mês de Agosto do ano da graça de dois mil e quinze, e ela tinha vinte e três anos que ele reparara na data de nascimento, quando fora fazer a inscrição no hospital. Devia ter sido beijada dezenas de vezes. Que raio de reação fora aquela?



5.7.18

O DIREITO À VERDADE - XVI





Helena levantou-se cedo na manhã seguinte. Sentia-se bem melhor mais repousada, e quase sem dores. Tomou banho, prendeu a sua farta cabeleira num rabo-de-cavalo, vestiu umas calças de ganga, um top branco, calçou uns ténis e desceu ao restaurante, onde tomou o pequeno-almoço, saindo de seguida disposta a ver o máximo possível da cidade até às onze horas. Depois regressaria ao hotel com tempo para se refrescar, mudar de roupa e esperar por Cláudio para o almoço.
Verificou pelo mapa, que a Igreja de Santa Cruz que pensava visitar na véspera ficava longe do hotel. Resolveu dar um passeio pelo parque que tinha na frente do hotel, e ir até à margem do Mondego. Pelo caminho deparou-se com o Museu da Água e aproveitou para o visitar.
Tirou umas fotografias no parque e ao rio e voltou para o hotel, onde chegou às onze horas e vinte minutos. Subiu ao quarto, trocou as calças de ganga e o top por um macacão de alças, estampado em tons de rosa e azul, que acentuava a sua silhueta e a fazia parecer mais alta. Completou o conjunto com uns sapatos de salto e um colar de várias voltas. Queria estar bem bonita, já que tinha decidido que era a primeira e a última vez que iria sair com Cláudio. No dia seguinte logo pela manhã, apanharia a camioneta para Viseu, e nunca mais o veria. No seu íntimo, sentia-se triste. Tinha vinte e três anos, e as únicas companhias masculinas com quem lidara, além do tio e do falecido primo, foram os seus colegas da Universidade, jovens como ela, ainda em formação e à procura de um rumo na vida. Cláudio era diferente. Era um homem feito, seguro de si. E com uns olhos capazes de derreterem até um icebergue. Um homem ao lado de quem, qualquer mulher se sentiria segura. Qualquer mulher menos ela. Tinha que se concentrar na missão que se propusera. Conhecer o seu pai, saber que tipo de homem era, talvez até contar-lhe quem ela era. Não era uma tarefa fácil. Afinal de contas só sabia o seu nome e que tinha uma quinta nos arredores de Viseu. Quantas quintas haveria nesses arredores? Olhou o relógio. Onze e cinquenta e cinco, Pegou na mala, deitou uma olhadela rápida ao espelho, e saiu do quanto, em direção à receção. Se Cláudio fosse pontual deveria estar a chegar. Saiu do elevador, e ele veio ao seu encontro sorrindo.
- Boa tarde, vejo que encontrei uma raridade. Uma mulher pontual, - disse estendendo-lhe a mão.
Ela olhou o relógio. Meio-dia em ponto. Sorriu.
- O Cláudio também foi pontual.
- Os homens são sempre pontuais. As senhoras é que se atrasam. Vamos?
Começaram a andar lado a lado. Ela perguntou:
-Como está a sua mãe?
-Muito bem. Deve ter alta amanhã.
- Que bom, - disse sincera. Sabia o que estava a sofrer com a partida da mãe. Não desejava o mesmo para ele.
Entraram no carro, que ele pôs em movimento, enquanto perguntava.
-Conhece a Quinta das lágrimas?
-Só de nome. É a primeira vez que estou em Coimbra.
Vamos almoçar ao restaurante Arcadas, no Hotel Quinta das Lágrimas. É um local muito bonito. Tenho a certeza de que vai gostar.







Então é assim. Já fui ao médico já tenho os tratamentos marcados, inicio segunda feira. 
E agradeço a todos a atenção e carinho que têm tido comigo.
 Bem Hajam 

O DIREITO À VERDADE - XV





Helena que acabara de jantar, no hotel, regressou ao quarto, pensando no que lhe acontecera nessa tarde e em Cláudio. Interrogava-se se teria feito bem em aceitar o convite para almoçar com ele no dia seguinte. Afinal ela tinha feito aquela viagem com o firme propósito de conhecer o seu pai. Mesmo que por alguma razão não lhe dissesse quem era, queria saber como era o homem que lhe dera o ser. E nada nem ninguém deviam desviá-la desse objetivo. Nem mesmo aquele homem, interessante e másculo, com os olhos mais bonitos que ela já vira na vida. Retirou da mala um curto pijama de algodão e com ele na mão foi para a casa de banho. Despiu – se e meteu-se debaixo do chuveiro. Depois do banho secou cuidadosamente o corpo dolorido, e olhou-se ao espelho. Tinha uma grande mancha negra que ia na anca, até meio da coxa, e uma outra mais pequena junto ao joelho do lado esquerdo. E outra no ombro e no braço do mesmo lado. Enrolou o corpo na toalha e foi buscar o gel à mala que tinha deixado no quarto. Ao retirar o pacote da farmácia trouxe também o envelope que o tio lhe dera e de que nunca mais se lembrara, Deixou o envelope em cima da cama, e voltou à casa de banho, a fim de massajar a zona dorida com o gel.
Vestiu o pijama, secou e escovou os seus bonitos cabelos negros, escovou os dentes e regressou ao quarto. Em cima da cama, continuava o envelope. Decidida abriu-o. Dentro tinha um cartão multibanco, a nota de abertura de uma conta com cinco mil euros, em seu nome, e uma carta do tio. Desdobrou-a e leu.

Querida sobrinha:
Peço-te que aceites esta quantia como um presente, não meu, mas da tua tia, que tenho a certeza o faria, na presente situação, se estivesse entre nós. Não sei o tempo que levarás até encontrares o Jorge e o que acontecerá depois.  Que essa quantia sirva para te ajudar enquanto não decides a tua vida. Não te passe pela cabeça devolvê-lo sob pena de me ofenderes. Como sabes a minha irmã não teve filhos, e o meu… bom tu sabes. Hoje és a minha única família e amo-te muito
Teu tio
Alberto.

Acabou de ler a carta com as lágrimas rolando silenciosas pelo rosto. Pegou no telemóvel e ligou ao tio.
- Tio, desculpa ligar só agora. Acabo de abrir o envelope, e nem sei que te dizer a não ser que também te amo muito e que não precisavas fazer isto, Eu disse-te que tinha algumas economias.
-Sim querida. Mas assim estou mais descansado e podes dispor de mais tempo para procurares o teu pai. E de Coimbra, estás a gostar?
-Ainda não vi muita coisa, mas sim estou a gostar. Estou no hotel, e vou deitar-me em seguida. Estou cansada.
-Fazes bem, os últimos tempos foram muito desgastantes. Vai dando notícias. 
-Fica descansado. Até amanhã. E mais uma vez muito obrigado.
-Até amanhã querida.


Informando os amigos.

Acabei de chegar do médico.
Segundo ele a minha coluna não está para brincadeiras. O problema não são as hérnias, mas o aperto que umas vértebras estão a fazer sobre os terminais nervosos. Proibição absoluta de esforços, tomar relaxantes, e fazer fisioterapia. Se isto não resultar ou se piorar tenho que equacionar a possibilidade de ter que ser operada. Exercícios só caminhadas, o sol na praia faz bem mas a água só se estiver com temperatura  "tipo caldo" 

4.7.18

O DIREITO À VERDADE - XIV




Os dois homens, tinham acabado de sair do hospital, e dirigiam-se para o carro.
-Falaste com o cardiologista da mãe?
- Falei. Disse que está tudo a correr bem, e que se tudo continuar assim, dentro de dois dias, lhe vai dar alta. Não vejo a hora de a ter em casa. Além desta canseira todos os dias de viagem, as horas que passo sem estar a seu lado, estou sempre preocupado a pensar no pior.
- O que importa é que está tudo bem e em breve ela vai para casa. Vamos jantar? Não comi nada desde o almoço e estou cheio de fome, -disse pondo o carro em marcha e dirigindo-se para a saída do hospital.
-Eu fui ao bar do hospital a meio da tarde para lanchar. Estar muitas horas sem comer faz mal, e não tinha piada, a tua mãe ficar boa e eu adoecer.
- Fizeste bem, mas eu estive grande parte da tarde com a Helena no hospital, e depois fui levá-la ao hotel e fui ver a mãe. Não tive tempo de comer. Vamos jantar ao Nacional, desde que a mãe veio para o hospital, só temos comido carne, e eles são famosos com os pratos de bacalhau.
Estacionou o carro junto ao restaurante e entraram. Cláudio escolheu um bacalhau no forno, o pai optou por um bacalhau à Gomes de Sá, acompanhado por um tinto Dão Campolargo.
- Parece que essa Helena te impressionou, filho.
-Talvez. Consegui convencê-la a almoçar comigo amanhã. Depois se verá. Pode ser que me desiluda e tudo acabe amanhã mesmo, ou que pelo contrário me interesse e tente saber onde posso encontrá-la depois.
- Eu e a tua mãe estamos desejosos que te interesses a sério por alguém. Já vai sendo tempo de sermos avós.
- O que vocês querem é verem-se livres de mim, - disse a rir.
Acabaram a refeição em silêncio. Cláudio pensava que o casamento era algo muito sério. Admirava a relação de amor que ligava os seus pais. Era difícil na atualidade encontrar casais assim. Os seus amigos que tinham casado, ou estavam divorciados ou iam a caminho disso. Alguns já iam no segundo divórcio. Ele não queria correr esse risco. Para casar teria que encontrar alguém especial.
Apesar de os dias serem ainda grandes no final de Agosto, já se notava a diferença, em relação ao mês anterior e quando saíram do restaurante já tinha anoitecido. E até chegarem a casa ainda tinham mais de uma hora de estrada.
Pouco depois entravam na EN 31 de regresso a casa. No dia seguinte pela manhã, fariam a viagem em sentido inverso. Era assim todos os dias desde que há uma semana, Carmo, tinha entrado no hospital em Coimbra para uma Cirurgia de Revascularização Miocárdica.




Para os que me perguntam pela saúde.
Eis o resultado da TAC






O DIREITO À VERDADE - XIII






Depois de ter deixado, Helena no hotel, Cláudio voltou ao hospital. Não estava preocupado, sabia que a cirurgia da mãe, tinha corrido bem, ela estava cada dia melhor, e embora nesse dia ainda não a tivesse visto, sabia que o pai estava com ela desde o meio-dia, e se houvesse alguma alteração, ele tinha-lhe telefonado. Desde que a mãe fora internada, que o pai não saía da cabeceira da sua cama, durante todo o tempo que as normas do hospital permitiam que a pessoa significativa do doente estivesse com ele. Assim, eles vinham logo de manhã para a cidade, ( o pai nunca mais conduzira desde que há seis anos tivera um grave acidente), e só voltavam a casa já de noite.
Entrou no quarto e viu o pai sentado ao lado da cama com a mão da mãe entre as suas. Enterneceu-se. Era tão bonito o amor daqueles dois. Beijou a mãe, e ela levantou a mão para lhe acariciar o rosto. Sempre foi assim. Cada vez que a beijava, ela nunca retribuía só com um beijo. A sua mão sempre lhe proporcionava uma carícia.
-Como te sentes hoje, mãe?
- Se não tivesse dores, no céu. Nunca me senti tão apaparicada. E tu? Aconteceu alguma coisa? Vieste atrasado.
- Atropelei uma jovem, e passei uma parte da tarde com ela nas urgências. Mas não foi nada demais. Ela só ficou pisada da pancada, não partiu nada. E não comeces já a dizer que devo ter cuidado, porque foi ela que se atirou para a frente do carro. Não podia fazer nada.
Deu a volta à cama e juntou-se ao pai. Pôs-lhe a mão no seu ombro e apertou suavemente, num gesto carinhoso. O pai levantou uma mão, e pousou-a sobre a sua, retribuindo o carinho.
- Conhecia-la?- Perguntou a mãe.
 Os dois homens trocaram um olhar e riram.
- A tua mãe já está fazer um filme. Aposto que já está a pensar nalguma Julieta desprezada, a tentar acabar com a vida, para deixar-te cheio de remorsos.
-É bem capaz disso, -disse sorrindo. Foi uma distração que podia ter sido fatal mas acabou não passando do susto.Uma jovem, atravessou a passadeira sem reparar que o sinal dos peões estava vermelho. Eu travei a fundo, mas não consegui evitar o embate, estava demasiado perto. Foi uma distração que podia ter sido fatal mas acabou não passando do susto.
- Era bonita? – Perguntou a doente
- Toma cuidado filho. Com a vontade que a tua mãe tem de te ver casado, daqui a pouco está a pôr-te no altar com essa mulher.
- Não há esse perigo, pai. Segundo me disse, está de passagem, chegou hoje e parte depois de amanhã.
-Hum. Porque será que tenho a impressão de que isso te aborreceu?
- Mau, não vais começar tu também. Já me basta a mãe. É verdade que a jovem é bonita, que me pareceu diferente das raparigas da sua idade, e de que gostaria mais que ela vivesse na cidade. Sempre podia ser uma companhia enquanto a mãe está no hospital. Mas não é, depois de amanhã vai-se embora e provavelmente, nunca mais a vejo. E é tudo.
A auxiliar entrou com o carrinho do jantar, e sorrindo disse.
-Ora aqui está o jantar da nossa doentinha. E que é que vai dar-lhe o jantar hoje, – perguntou levantando a cama.
- Eu, - disse o marido desdobrando o resguardo para colocar em cima da cama e no peito da doente.
-E eu dou-te apoio moral, - disse Cláudio sorrindo.
A auxiliar riu.
-A sua vida  ao lado destes dois deve ser uma diversão,- comentou. 
A doente limitou-se a sorrir.


3.7.18

O DIREITO À VERDADE - XII



Uma hora mais tarde, estavam de novo no gabinete do médico.
- Tal como eu suspeitava, não há fraturas, as dores são provocadas pela pancada. Vou receitar Paracetamol para as dores e Thrombocid Gel para aplicar nas equimoses. E deve ficar uns dois dias de repouso.
 E voltando-se para o amigo disse:
- E tu vê se tens mais cuidado, e não andas por aí a atropelar pessoas. Um dia ainda te metes num sarilho.
Helena teve vontade de dizer ao médico que ela fora a culpada, mas um olhar de Cláudio fez com que se mantivesse calada. Uns minutos mais tarde abandonavam o hospital. Os exames só confirmaram o que ela pensava. O pior é que tinha ficado com a tarde perdida, tinha que regressar ao hotel e lá ficava adiada a visita ao monumento que pretendera visitar nessa tarde.
 À saída do hospital, Cláudio, pegou-lhe no braço e disse:
-Venha, levo-a a casa.
- Não precisa, já perdeu imenso tempo comigo, eu apanho um táxi.
-Não posso permitir que faça isso. Diga-me onde mora e levo-a a casa, ou não quer que eu saiba onde vive? Prometo que não digo a ninguém, - disse ele, com um sorriso que lhe deixou as pernas bambas
- Na verdade estou de passagem. Cheguei há poucas horas. Estou no Hotel Ibis, mas devo partir amanhã mesmo.
- Tão depressa? Nem terá tempo para conhecer a cidade. Mas então levo-a ao hotel. Não me ofereço para lhe mostrar nada agora, primeiro porque precisa descansar, e depois porque está quase na hora da visita à minha mãe.
Ajudou-a a entrar no carro e dando a volta sentou-se ao volante e pôs o veículo em marcha.
- Se puder ficar mais uns dias, podíamos almoçar juntos amanhã e depois mostrar-lhe-ia alguns dos locais mais bonitos da cidade.
Helena sentiu-se tentada. Reconhecia o perigo de se relacionar com aquele desconhecido, ela que não tinha quaisquer experiências com o sexo oposto. Por outro lado que mal podia fazer? Era só um dia, Depois ia-se embora e nunca mais se veriam.
- Então que me diz? Fica uns dias?  
- Não. Parto depois de amanhã às dez.
- Mais uma razão para aceitar almoçar comigo, amanhã. Prometo que lhe mostrarei os pontos mais bonitos da cidade.
- É sempre assim tão insistente? – Perguntou a jovem
- E você, é sempre tão desconfiada?- Retorquiu ele.
Estavam já perto do hotel. Cláudio parou o carro e voltou-se para ela. Mirou-a da cabeça aos pés. Era muito bonita. Não uma daquelas belezas exuberantes que fazem os homens sonhar e as mulheres suspirarem de inveja. Era uma beleza suave, serena que lhe agradava. Havia no fundo dos seus olhos um laivo de tristeza, que o intrigou. Estendeu a mão e agarrou a mão feminina. 
- Até amanhã. Venho buscá-la ao meio dia. Até lá descanse.
Ela teve vontade de recusar o convite, mas resistiu. Que mal podia fazer? Puxou suavemente a mão dizendo.
- Não está na hora da visita à sua mãe? Não se atrase.
Abriu a porta do carro, e acrescentou:
- Até amanhã. E obrigado.
Entrou no hotel sem olhar para trás. Já se encaminhava para o elevador, quando se lembrou que não tinha aviado a receita. Voltou à receção e perguntou se havia alguma farmácia perto. Havia. Mesmo ao virar da esquina. Voltou a sair  e foi buscar os medicamentos,



2.7.18

O DIREITO À VERDADE - XI




Ajudou-a a sair do carro, e entraram no hospital. Acompanhou-a até uma cadeira e pediu.
-Tem o cartão de cidadão? Vou precisar dele para fazer a inscrição.
Abriu a mala e tirando o cartão estendeu-lho.
O homem afastou-se em direção do guichê. Ouviu-o conversar com a rececionista e só então arriscou olhá-lo
Deveria andar pelos trinta anos, era bastante alto, o cabelo castanho, e os olhos… bom, os olhos eram os olhos mais bonitos que ela já vira. Cinzentos, tão brilhantes que pareciam transparentes. E expressivos. Ela notara-o, na ira que espelhavam, quando ele chegou junto dela depois de a ter atropelado.  
Era um homem muito interessante. Um perigo para a sua alma tão carente de afetos. A sua visita à cidade de Coimbra, teria que ficar para outra altura. Não podia correr o risco de voltar a encontrar-se com aquele homem. O que menos precisava na vida, era uma paixão não correspondida.
Viu o homem sorrir para a rececionista, enquanto pegava de volta o seu cartão. Desviou o olhar, ao ver que ele regressava para junto de si. Estendeu-lhe o cartão, dizendo.
-Estamos com sorte. Está de plantão um amigo meu. Já lhe foram dizer que estamos aqui. Vai ser chamada de seguida.
- Obrigado.
Ela já tinha notado o à-vontade com que ele se movia. Seria médico? Não se conteve.
- É médico?
- Pareço médico, - perguntou por sua vez sorrindo.
-Não sei se um médico tem algum ar especial, mas pareceu-me estar familiarizado com o ambiente.
-Não. Não sou médico, nem é necessário que o seja, para ser amigo de um. Infelizmente nos últimos tempos, tenho vindo aqui várias vezes com a minha mãe, que agora, está internada. Foi submetida a uma cirurgia ao coração.
- Helena Trindade, à sala de triagem, - ouviu-se no altifalante.
A jovem pôs-se de pé, e seguiu acompanhada de Cláudio, para a sala, onde além da enfermeira, já se encontrava o médico amigo dele.
Os dois homens trocaram um forte abraço, que denunciava uma boa amizade, enquanto ela respondia a algumas perguntas da enfermeira.
Helena não ouvia o que os dois falavam em voz baixa e um pouco afastados do sítio onde se encontravam, mas quando a enfermeira acabou de falar com ela, entregou a papeleta ao médico que lhe pediu para os seguir, não sem antes lhe perguntar se andava bem, ou se precisava de uma cadeira de rodas. Depois de ela ter dito que embora com dores caminhava bem, encaminharam-se os três para o gabinete médico, onde ele a mandou deitar, e lhe movimentou os braços e pernas, e lhe apalpou a zona do baço. Depois examinou-lhe os olhos, fez-lhe várias perguntas e por fim disse:
- Não me parece que haja hemorragia interna, nem fraturas ósseas. Mas como em medicina temos que ter certezas, vai fazer uns RX, que eu volto a chamá-la logo que tenha aqui os resultados.
Com as requisições na mão, abandonaram  o gabinete, rumo à zona de radiologia.


1.7.18

PENICHE A CAPITAL DA ONDA


Hoje a minha sugestão vai para Peniche. Essa mesma, a cidade mais ocidental da Europa e em cujo forte, estiveram presas várias figuras, opositores ao regime político que vigorou em Portugal até Abril de 74. Entre eles estava Álvaro Cunhal, que com outros nove companheiros protagonizou a mais espectacular fuga de que há memória em Portugal. Claro que a fuga foi preparada ao pormenor no interior e exterior, mas quem visita o forte, sabe que por muito bem preparada que fosse, foi muito arrojada e sobretudo muito arriscada, já que se tratava de uma prisão de alta segurança, que os presos estavam no piso superior, que tinham de descer ao pátio do forte, o que fizeram utilizando o tronco de uma árvore, atravessar o pátio até à muralha exterior, a qual descem por uma corda feita com lençóis, para o fosso exterior do forte. Daí saltaram o muro que os separava da vila, onde os carros os esperavam para os locais anteriormente combinados. Ficou conhecida como "A fuga dos dez"



Diz a história que Peniche já foi uma ilha, mas o assoreamento ao longo dos séculos, transformou a ilha, na península que hoje é.


Cidade que vive essencialmente da pesca, o antigo porto junto ao forte mantém o pitoresco das zonas piscatórias. E se hoje Peniche é o maior porto de pesca tradicional do país, já ostentava esse titulo no 
reinado de D. Dinis.
Para quem se interessa por história, a Gruta da Furninha, tem muito a contar.


Conhecida como a capital da onda , Peniche possui lugares lindíssimos, praias maravilhosas, e óptimas condições para os desportos náuticos.


Em terra além do Forte, cuja construção inicial, data do séc. XVI, e que foi sucessivamente ampliado até ao séc. XIX, podemos visitar a igreja matriz (com azulejos do séc. XVII)a igreja da Misericórdia (com pinturas de Josefa de Óbidos) de S. Pedro, de Nª Srª dos Remédios, (com azulejos do séc. XVIII) e o Forte de S. João Baptista, na Berlenga grande.


A Baía entre o Baleal e Peniche e de rara beleza. Do lado norte a Praia do Lagide local excelente para a prática de surf e bodyboard, durante todo o ano. Do lado sul a Praia do Baleal, com um extenso areal e águas mais tranquilas.




A estrada para o Cabo Carvoeiro (o 2º mais ocidental da Europa) é de extrema beleza, pelo exotismo das suas rochas esculpidas pelo mar. Ao fundo podem ver-se as Berlengas embora não apareçam nas minhas fotos.


Na gastronomia abundante em peixes sempre muito frescos, podem deliciar-se com a maravilhosa caldeirada de Peniche, sardinhas assadas, Lagosta suada à moda de Peniche, e a maravilhosa sopa de peixe. E para sobremesa os Esses de Peniche e os Pastéis de Peniche.  


Aconselho uma visita à Fortaleza, ao seu Museu e aos ateliers de renda de Bilros.


Aconselho igualmente uma visita às Berlengas ilhas de maravilhosas paisagens, Reserva Natural, e ao Forte de S. João Baptista.



E a Praia da Consolação? Dotada de excelentes condições terapêuticas pela sua concentração de iodo é procurada por milhares de pessoas todos os anos. Ah! já me esquecia. A festa em honra da Nª Senhora da Boa Viagem, cuja procissão é feita em terra e no no mar em barcos lindamente engalanados na primeira semana de Agosto.
Então, vamos até Peniche?




Nota: Todas as fotos que utilizo neste post são minhas excepto as duas das Berlengas. A primeira é de Joana Andrade e a segunda, desconheço o autor.