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4.7.18

O DIREITO À VERDADE - XIII






Depois de ter deixado, Helena no hotel, Cláudio voltou ao hospital. Não estava preocupado, sabia que a cirurgia da mãe, tinha corrido bem, ela estava cada dia melhor, e embora nesse dia ainda não a tivesse visto, sabia que o pai estava com ela desde o meio-dia, e se houvesse alguma alteração, ele tinha-lhe telefonado. Desde que a mãe fora internada, que o pai não saía da cabeceira da sua cama, durante todo o tempo que as normas do hospital permitiam que a pessoa significativa do doente estivesse com ele. Assim, eles vinham logo de manhã para a cidade, ( o pai nunca mais conduzira desde que há seis anos tivera um grave acidente), e só voltavam a casa já de noite.
Entrou no quarto e viu o pai sentado ao lado da cama com a mão da mãe entre as suas. Enterneceu-se. Era tão bonito o amor daqueles dois. Beijou a mãe, e ela levantou a mão para lhe acariciar o rosto. Sempre foi assim. Cada vez que a beijava, ela nunca retribuía só com um beijo. A sua mão sempre lhe proporcionava uma carícia.
-Como te sentes hoje, mãe?
- Se não tivesse dores, no céu. Nunca me senti tão apaparicada. E tu? Aconteceu alguma coisa? Vieste atrasado.
- Atropelei uma jovem, e passei uma parte da tarde com ela nas urgências. Mas não foi nada demais. Ela só ficou pisada da pancada, não partiu nada. E não comeces já a dizer que devo ter cuidado, porque foi ela que se atirou para a frente do carro. Não podia fazer nada.
Deu a volta à cama e juntou-se ao pai. Pôs-lhe a mão no seu ombro e apertou suavemente, num gesto carinhoso. O pai levantou uma mão, e pousou-a sobre a sua, retribuindo o carinho.
- Conhecia-la?- Perguntou a mãe.
 Os dois homens trocaram um olhar e riram.
- A tua mãe já está fazer um filme. Aposto que já está a pensar nalguma Julieta desprezada, a tentar acabar com a vida, para deixar-te cheio de remorsos.
-É bem capaz disso, -disse sorrindo. Foi uma distração que podia ter sido fatal mas acabou não passando do susto.Uma jovem, atravessou a passadeira sem reparar que o sinal dos peões estava vermelho. Eu travei a fundo, mas não consegui evitar o embate, estava demasiado perto. Foi uma distração que podia ter sido fatal mas acabou não passando do susto.
- Era bonita? – Perguntou a doente
- Toma cuidado filho. Com a vontade que a tua mãe tem de te ver casado, daqui a pouco está a pôr-te no altar com essa mulher.
- Não há esse perigo, pai. Segundo me disse, está de passagem, chegou hoje e parte depois de amanhã.
-Hum. Porque será que tenho a impressão de que isso te aborreceu?
- Mau, não vais começar tu também. Já me basta a mãe. É verdade que a jovem é bonita, que me pareceu diferente das raparigas da sua idade, e de que gostaria mais que ela vivesse na cidade. Sempre podia ser uma companhia enquanto a mãe está no hospital. Mas não é, depois de amanhã vai-se embora e provavelmente, nunca mais a vejo. E é tudo.
A auxiliar entrou com o carrinho do jantar, e sorrindo disse.
-Ora aqui está o jantar da nossa doentinha. E que é que vai dar-lhe o jantar hoje, – perguntou levantando a cama.
- Eu, - disse o marido desdobrando o resguardo para colocar em cima da cama e no peito da doente.
-E eu dou-te apoio moral, - disse Cláudio sorrindo.
A auxiliar riu.
-A sua vida  ao lado destes dois deve ser uma diversão,- comentou. 
A doente limitou-se a sorrir.