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7.7.18

O DIREITO À VERDADE - XVIII






Entraram no carro em silêncio submersos em pensamentos e sensações diferentes.
Antes de pôr o carro em marcha ele perguntou:
-Gostarias de ver alguma coisa em especial?
-Gostaria de ver tanta coisa. A universidade a sua biblioteca, o Portugal dos Pequenitos, de que oiço falar desde menina, tanta coisa que gostava de ver que precisaria de mais três ou quatro dias.
-E porque não podes ficar esses dias? Tens alguém à espera?
A tentação era grande e por isso hesitou antes de responder.
-Não.
-Então porque não ficas?
- Não posso. Vamos embora?
Ele rodou a chave e o carro deslisou devagar.
- Vou levar-te ao Portugal dos Pequenitos. Um desejo de menina deve ser satisfeito para que não haja frustração.
-Mas não tens que estar no hospital às cinco, para veres a tua mãe?
-A minha mãe está melhor, o médico vai dar-lhe alta amanhã. O meu pai está com ela e já lhe terá dito que eu vou um pouco mais tarde, não te preocupes. Apesar de te conhecer apenas há umas horas, sinto que és especial e que podes vir a ser alguém muito importante na minha vida. Por isso quero conhecer-te melhor. Chegámos.
Estacionou o carro e dirigiram-se ao recinto, não sem antes passar pela bilheteira onde Cláudio adquiriu os bilhetes.
O facto de terem chegado evitou que Helena tivesse de responder, e na verdade ela não sabia que dizer. A educação que a mãe lhe dera, as constantes dissertações sobre a maldade e hipocrisia masculina, foram fazendo o seu papel, evitando a convivência com o sexo oposto, e os namoricos tão naturais em determinada época do crescimento de qualquer mulher. E o pensar que a mãe tinha sido vítima de uma saída imprudente que pagara a vida toda tendo que a criar sozinha, também influenciou em muito o seu comportamento. Agora pela primeira vez na vida sentia-se dividida entre a atração que Cláudio despertava nela, e o medo de descobrir até onde essa atração a podia levar. Decididamente, iria embora no dia seguinte logo pela manhã. Não iria voltar a vê-lo nunca mais. E a paz regressaria ao seu espírito, agora tão inquieto.
Mal entraram no espaço, a criança que havia nela, despertou e deixou-se encantar pela magia do local. Espantou-se com a perfeição da reprodução de casas e monumentos, naquela escala miniatural.
Cláudio ia-lhe dando algumas explicações sobre o local que ela quase nem ouvia.  Que a obra não tenha sido inocente, que ela era uma espécie de propaganda política, que fora uma exaltação do Estado Novo e das suas ideias. O que é que isso dizia às crianças? Nada. E naquele momento ela era isso mesmo, uma criança que queria ver tudo, por dentro, pese o facto de em algumas casas, quase entrar de joelhos, dada a sua estatura e o tamanho das portas.
Cláudio estava cada vez mais encantado com a autenticidade da jovem, cujo rosto corado, e olhos brilhantes, mostravam bem o que lhe ia na alma.
Terminaram a visita já bastante depois das cinco da tarde.
Cláudio convidou-a para irem lanchar mas Helena recusou e pediu para a levar ao hotel, alegando estar cansada. E como ele queria estar no hospital às seis, não insistiu.



2 Avisos :

1º  Lá em cima está um vídeo de Portugal dos Pequenitos, para aqueles que nunca lá foram.

2 Amanhã e depois não haverá esta história.  Segunda se verá se Helena se vai  embora, ou se fica com Cláudio.