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22.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXX


 Epilogo

E tinha chegado a noite de Natal.
Agora ali estavam na acolhedora sala dos amigos, depois de partilharem, de uma ceia de Natal, plena de alegria e amor.
As crianças brincavam juntas, encantadas com os presentes que o Pai Natal deixara debaixo da árvore, enquanto jantavam
Os adultos conversavam dos mais diversos temas. Rui continha, a vontade de chorar, mas os olhos brilhantes denunciavam a sua emoção. Nunca tivera uma noite de Natal assim. Às noites de sofrimento em criança, sucederam-se as noites de lobo solitário. E  aquelas pessoas aceitaram-no sem reservas e tratavam-no como se tivessem sido amigos, toda a vida. Nunca ninguém tinha sido tão generoso com ele.
A certa altura, André foi junto do pai e perguntou:
- Pai, o Martim pode ficar cá a dormir esta noite?
Os quatro olharam-se perplexos. Rui procurou o olhar de Teresa e o que viu encheu o seu coração de alegria.
- Por mim pode - respondeu Tiago. - Mas não sou eu quem decide, filho. São os pais do Martim, que têm que autorizar.
O garoto voltou-se para Rui.
- Claro que sim, - disse, ante o olhar suplicante do menino.
Já passava da meia-noite quando os dois se despediram, prometendo voltar no dia seguinte, para o almoço.
Já no carro, Rui perguntou:
- E agora?
- Agora, vamos para a nossa casa.
Emocionado, pôs o carro a trabalhar.
E aquela noite de Natal, foi de facto uma noite mágica.
 Uma noite de reencontro de dois corpos que se conheciam, se desejavam e saboreavam numa entrega total, só possível em duas almas gémeas. Reconheciam-se em cada toque, em cada olhar em cada gemido. E quando assim é, o sexo perde identidade, atravessa a alma e explode numa benção divina, a que se  chama amor.


………………………………………………………………………………
Casaram numa manhã fria de final de Janeiro. Faz hoje precisamente cinco anos. Agora, a “Tudilar” é a maior empresa do género em toda a Península Ibérica. Exporta mais de oitenta por cento da sua produção. Nestes cinco anos, Rui vendeu todos os seus negócios em Inglaterra, e decidiu investir no seu país. Fez sociedade com Tiago, e os dois fizeram parceria com uma conhecida marca de automóveis. E hoje, além da oficina de reparações e de um stand de vendas, têm uma fábrica de componentes para automóveis. É um homem feliz, e de bem com a vida. O filho Martim é já um garoto espigado  na pré adolescência. A filha, Sara, uma linda bonequita de cabelos encaracolados e cara de anjo, que com os seus três anos traz todos enfeitiçados. Naquele momento,  Rui pensava na longa travessia que foi a sua vida, até encontrar enfim, a porta de acesso à felicidade presente, quando Teresa se aproximou pela retaguarda, segurou-lhe o rosto entre as mãos e aproximando a boca do ouvido do marido perguntou:
- Gostas do número cinco?
- Porquê? – Perguntou pensando que se referia ao aniversário de casamento
- Porque dentro de alguns meses seremos cinco, - disse sorrindo.
Voltando-se Rui enlaçou-a e beijou-a apaixonadamente, demonstrando-lhe assim o quanto gostava do número... e dela!



Fim


Elvira Carvalho


16.5.19

ESCRITO NAS ESTRELAS - PARTE II

Reedição.
.







Decidido, foi até Santar, no distrito de Viseu e procurou a jovem que o acompanhara e lhe dera apoio moral nos últimos vinte meses.  
Simpatizaram, namoraram e casaram. Depois emigraram para França, lá trabalharam, tiveram filhos e netos. Fernanda foi uma grande companheira. Era boa esposa e boa mãe, e apesar de reconhecê-lo sabia que não se tinha dado por inteiro e por vezes o remorso assaltava-o. Mas não estava na sua mão, ele não conseguia amar sem reservas, com todo o seu coração. Porque uma parte dele não lhe pertencia. Ficara lá atrás, no passado, preso a uma garota que jurou ama-lo até à morte. Apesar disso, procurou sepultar essa parte de si mesmo, e dar à esposa, a felicidade que ela merecia. E ela foi uma mulher feliz até que o maldito cancro a levou.
Viúvo e prestes a ser reformado, Abílio sonhava voltar ao seu amado Portugal, rever as ruas onde crescera e vivera, sentir o cálido e luminoso sol de Lisboa, passear pela baixa, espraiar o olhar pelo Tejo. Porém os filhos e os netos eram franceses. Lá nasceram, cresceram se fizeram adultos, amaram, casaram. Abílio entendia que os filhos não quisessem alterar toda a sua vida, para irem para um país que nada lhes dizia, e que, não tinha condições, de lhes oferecer empregos, compatíveis com a vida que tinham no seu país natal. Mas como diziam na sua terra, amigo não empata amigo e por isso despediu-se dos filhos e netos, prometendo que passariam as datas mais importantes juntos, quer fosse em Lisboa, ou em Paris, e rumou a Lisboa, onde alugou uma pequena casa na Graça.
Nos primeiros tempos deambulou pela cidade, admirando-se com as enormes mudanças efetuadas desde a última vez que ali estivera para assistir ao funeral da mãe,vinte anos atrás.( O pai havia falecido, anos antes, enquanto ele estava em Moçambique). Depois disso, sempre que vinha de férias a Portugal, ficava-se pela casa dos sogros em Santar. Viveu feliz durante uns meses, até ao dia em que a solidão se apresentou na sua casa, sentou à sua mesa e deitou na sua cama. E não há pior amante que a solidão.
  A rua onde nascera estava irreconhecível, os amigos de infância tinham desaparecido, e nesta nova Lisboa, ele não conhecia ninguém.
O olhar tonou-se nostálgico, o sorriso foi perdendo naturalidade. Até os filhos e netos, notaram a diferença, nas longas conversas via Skipe.  Para o animar, Alexandre o neto mais velho, aconselhou-o a criar um perfil numa rede social muito em voga, e a procurar os seus antigos amigos pelo nome nessa rede.
“Hoje em dia, avô, só não está nessa rede, quem já morreu, ou não sabe ler. Vais ver que vais encontrar amigos, até talvez os teus antigos companheiros  de Moçambique”
Animado, Abílio assim fez. E começou uma busca, pelos seus amigos na Internet. Conseguiu encontrar alguns amigos de infância, mas apenas três residiam na cidade, os outros estavam espalhados pela Europa, para onde tinham emigrado em busca de melhores condições, tal como ele fizera. E então, antes de procurar os companheiros da tropa, ganhou coragem e procurou Ema. 
Encontrou-a a viver em Braga, e enviou-lhe uma mensagem a que ela respondeu no mesmo dia, com o seu número de telemóvel.
Nervoso e ansioso, sem saber se ela estaria empregada, esperou a noite para lhe telefonar. Emocionou-se ao ouvir a sua voz, que lhe contava que vivia ali com a irmã, e a sobrinha. Que voltara a viver em Lisboa, depois que os pais, morreram, mas que se mudara para Braga, quando a irmã ficara viúva a fim de a apoiar. Não, não tinha casado, nunca tinha encontrado alguém que a levasse a desejar fazê-lo.  Por sua vez, ele falou-lhe do tempo de guerra em Moçambique, das inúmeras cartas que lhe enviara e recebera de volta. Falou-lhe de Fernanda, do seu casamento, dos filhos e netos, luso-franceses, e da sua atual vida em Lisboa. 

Continua