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15.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XVII




Já escurecera quando saíram do consultório. Passaram pela farmácia, e depois tomaram o caminho de casa.
- Uma moeda pelos seus pensamentos, - disse Miguel dirigindo-se à
jovem, que o seguia, muda como uma sombra.
- Está farto de gastar dinheiro comigo. As roupas, o médico, e esses exames…
-Ora, ora, o dinheiro fez-se para se gastar. E como eu sou mais de ganhar do que de gastar…
-Nunca lhe poderei pagar.
-Talvez sim, talvez não. Quem sabe, não é uma rica herdeira, ou uma princesa dum reino petrolífero, - riu Miguel tentando tirar a jovem daquela preocupação. Passaram pelo restaurante para jantarem, mas a jovem tinha perdido a fome e comeu apenas uma sopa.
Já em casa, Miguel esperou que a jovem guardasse as compras e depois pediu-lhe:
-Venha cá. Sente-se aqui, - disse apontando um lugar no sofá, junto de si. Vamos conversar. Creio que já lhe dei provas suficientes de que quero ajudá-
la, e que pode confiar em mim.  Também já lhe disse,que não  precisa  agradecer. O que quero, é que colabore, a fim de conseguirmos chegar a algum lado. Eu sei que ficou desiludida. De resto eu também fiquei um pouco, não pensei que podia ser tão complicado. Mas não vamos desistir. Amanhã será outro dia. Vai fazer o exame sim, tão depressa quanto possível, às vezes estes exames são difíceis de marcar. Amanhã comprarei o caderno de desenho para que faça o que o médico recomendou. E vamos combinar uma coisa. A partir de agora, sempre que fale consigo, vou chamá-la por um nome diferente. Quem sabe se algum deles lhe diz alguma coisa?
 Pôs-lhe a mão sobre o ombro e puxou-a para si. Um gesto suave, sem desejo, nem maldade, como se faz com uma criança. De súbito a jovem rompeu num choro convulsivo.
- Mau, assim eu zango-me. – Ralhou Miguel. 
-É que é muito doloroso para mim,- disse ela levantando para ele o rosto molhado. Por mais que me esforce, não me ocorre nada de nada. E se ficar sempre assim?
- Já falámos disso esta manhã. Não me vou repetir. Sei que está cansada. Seja uma menina bonita, tome o medicamento e vá dormir. Vai ver que amanhã acorda melhor.
Levantou-se, foi à cozinha, e regressou com um copo de água, e as duas metades do comprimido.
Obediente, ela tomou a metade que ele lhe estendia, e depois dirigiu-se à casa de banho.
Miguel aproveitou para ir ao quarto buscar as suas roupas, para não ter que dormir vestido de novo.
Pouco depois a jovem voltou. Dirigiu-se ao quarto dizendo:
-Boa noite Miguel.
Boa noite Luísa.
Em silêncio a jovem fechou a porta.