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7.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE X





O sol brilhava radiante no azul do céu, no dia em que Luísa teve alta hospitalar. Porém nem a beleza do dia, animava a jovem, que só de pensar em ter de entrar novamente na casa onde vivera os últimos catorze meses, se sentia doente e sem forças.
Marta, a sua boa amiga Marta, fora buscá-la ao hospital, e convenceu-a a ir para sua casa uns dias até estar melhor.

Iriam as duas a casa de Luísa, e trariam o que ela precisasse para aqueles primeiros tempos. Luísa agradeceu. Na verdade ela já tinha pensado ir viver para a casa paterna, que pela morte do progenitor era agora sua, e pôr à venda a quinta e a casa de Álvaro. Mas precisava de ir buscar roupas e objetos pessoais,  à casa que partilhara  com o marido. Esteve  a viver na casa da amiga, até retirar o gesso do braço, e iniciar a fisioterapia. 

Depois regressou à casa onde vivera toda a sua vida até ao casamento.
 Pôs à venda os bens do falecido marido. Inicialmente tinha pensado doar todo o dinheiro com a venda, para instituições de caridade. Marta acabou por convencê-la a não fazê-lo. O dinheiro era dela, sofrera muito às mãos daquele  canalha, merecia cada tostão. Iria precisar de tratamento psicológico, durante sabe-se lá quanto tempo. Podia entrar para a Universidade, ou quem sabe montar um pequeno negócio. Era uma asneira desfazer-se do dinheiro, a vida estava cada dia mais difícil, ninguém sabia o dia de amanhã.

Como sempre, Luísa deixou-se levar pela lógica da amiga. Assim, matriculou-se na faculdade de letras, e entregou-se de corpo e alma aos estudos, apesar de não descurar o acompanhamento com a psicóloga, Fátima Candeia, com quem criou uma relação de grande amizade, que se estendeu ao longo dos anos, mesmo depois de Luísa ter terminado o tratamento, após mais de  cinco anos de consultas, mais ou menos regulares.

De resto Marta e Fátima, eram as duas únicas amigas de Luísa, que se fechou para todas as amizades e divertimentos próprios da idade. Ela só tinha um desejo. Acabar o curso e dedicar-se ao ensino, já que adorava crianças e com tudo o que passara, pensar em casamento, e em ter filhos seus, estava fora de questão.
 Fátima, explicara-lhe, que ela fora vítima de sadismo sexual, uma forma de parafilia, que consiste em que um dos parceiros, não obtém prazer da cópula, mas do sofrimento físico ou psicológico, que infringe ao outro. Também lhe disse, que quando a vítima não consegue fazer a denúncia que o leva à prisão, quase sempre a prática reiterada, leva a um descontrolo do sádico que acaba muitas vezes por matar a companheira.

 Apesar das muitas sessões de psicoterapia, ela sentia que nunca mais seria capaz de partilhar a cama com um homem. Então dedicar-se-ia com todo o seu coração, aos seus alunos. Eles seriam os filhos que nunca teria.
Os anos foram passando, ela terminou o curso, tirou a carta de condução e comprou um pequeno carro utilitário. Candidatou-se a uma vaga no ensino oficial e conseguiu entrar.
 Durante alguns anos andou de escola em escola, primeiro dois anos em Albufeira, depois em Beja, e em Viseu, até que no ano anterior, conseguira enfim um lugar numa escola perto de casa.

Por vezes, na solidão da sua casa, pensava em Nuno. Por onde andaria ele, como estaria? Por certo era feliz, já que trabalhar no meio dos desprotegidos da sorte, sempre fora o seu sonho. Mas teria casado? Teria filhos?
Tinham-se passado dezasseis anos desde que obrigada pelo pai terminou o namoro. Recordava o dia em que lhe dissera que pensara melhor, e decidira que era muito nova para enfrentar um casamento, queria desfrutar da juventude e divertir-se.
Ele levantou-lhe o queixo e obrigara-a a olhar para ele, pedindo que repetisse o que acabara de dizer, olhando-o. Sentindo-se a morrer de tanta dor, ela repetiu cada palavra sem desviar o olhar.