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23.7.21

COMEÇAR DE NOVO- PARTE XXXV

 




Infelizmente para as suas pretensões, Helena recusou energicamente o casamento, rebatendo todas as suas ideias. Ela não se negava a que ele desse o seu nome à filha, nem a que fosse vê-la, ou sair com ela, sempre que disso tivesse vontade, exceção feita para as noites de segunda a sexta em tempo de aulas. 

Também não recusava fazer um programa com eles de vez em quando, mas por norma não os acompanharia, pois pensava que eles deviam aprender a conhecer-se e a amar-se como pai e filha. 

"E nós?" perguntara ele.

"Neste momento não há nós, Gonçalo. Conhecemo-nos há quase catorze anos. Ambos eramos muito jovens. Os anos não passam em vão, nós vivemos, sofremos, não somos mais aqueles jovens. Esses ficaram lá no passado. Que sabemos nós, hoje, um do outro? Nada. Até há meia dúzia de dias, nem sabias da nossa existência.

 Então tem  alguma lógica casarmo-nos apenas porque acabaste de descobrir que tens uma filha e tens uma noção exagerada do dever. Como amigos, e pais da Matilde, poderemos  conviver e quem sabe no futuro, voltaremos a ter um pelo outro o mesmo sentimento que nos uniu outrora? Quem sabe salta ainda alguma fagulha, das cinzas do passado?"

E foi mais ou menos isso que ela repetiu na sala, depois do almoço para toda a família, quando Sérgio perguntou se já tinham marcado a data para o casamento. 

Com a sua resposta, gerou-se uma certa confusão, toda a família pressionando, especialmente Matilde que acabou por sair da sala gritando que a mãe era egoísta que não pensava nela, indo a seguir fechar-se no quarto amuada. Helena não se alterou, nem mudou de ideia, e no fundo ele admirou-a.  

Gonçalo sabia que ela aceitaria a sua proposta de casamento, se ele jurasse que a amava Todavia ele não poderia fingir que tinha recuperado a memória, e muito menos jurar um falso amor. Uma relação assente numa mentira, não duraria muito e ele queria a estabilidade e uma família de verdade.

Como já perdera a esperança de recuperar a memória,  só lhe restava acreditar que com o tempo e a convivência, ele poderia voltar a amá-la como ela desejava. De momento sentia um grande respeito pela mulher que era e  pela maneira como educara Matilde. E uma enorme atração sexual. 

Pouco depois do almoço, despedira-se de todos, agradecendo aos donos da casa o acolhimento e depois de um apertado abraço à filha e da promessa de que se veriam em breve, regressou a Lisboa.

Pouco antes do jantar, o telemóvel fez-se ouvir, e ao atender a chamada da irmã, esta informou-o que os pais ficaram espantados com o que ela lhes contara e encantados com as fotos da neta desconhecida. Viajariam para Lisboa no dia seguinte, ao fim da tarde quando ela regressaria. Queriam conhecer Helena e a filha e ajudar na preparação do casamento.

Ele aproveitou para afirmar que não iria haver casamento, e contara-lhe o que Helena lhe respondera nessa mesma tarde, quando lhe propusera casamento.

"Sei que a mãe vai fazer pressão para que esse casamento aconteça o mais rápido possível,- respondera a irmã. Afinal há mais de dez anos que anda a tentar casar-te. E eu mesma gostaria de te ver casado, mas se queres saber, penso que a Helena tem razão. No seu lugar eu também não aceitaria um casamento pelas razões que te levaram a fazê-lo."


19.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIX


Acabara de fazer a mala. Pegou no telemóvel e fez uma chamada.
- Mãe vou a caminho do aeroporto. Parto dentro de duas horas, com destino a Barcelona. Sabes que há muito tempo desejava visitar esta cidade.
Escutou por momentos:
-A Paris? Para já não. Ainda não me sinto preparada. Quando o fizer digo-te. Vou dando notícias. Dá um beijo a todos por mim.
Desligou, e chamou um táxi.
No dia seguinte, estava em Barcelona, mas deu-se conta que não conseguia elaborar um programa cultural de visitas, pois não conseguia deixar de pensar em Simão.
É como dizia Horácio. "A negra preocupação monta sempre à garupa do cavaleiro".
Percebeu que não lhe adiantava fugir. Precisava descobrir o que se passava com ela. Que sentimentos albergava no seu peito.
 A visita a Barcelona seria de novo adiada. E nessa mesma tarde viajou para Paris. Mas contrariamente ao que tinha dito à mãe, não a avisou.
Tinha a morada de Simão, há dois anos. Tinha-lha dado o seu irmão João, numa altura em que pensava ir a Paris. Depois acabara por desistir da viagem. Não sabia se ainda morava no mesmo sítio, mas não tinha ouvido qualquer comentário sobre mudança. De qualquer modo, havia de encontrá-lo. Em último caso iria à galeria de arte, onde costumava expor as suas obras, e pediria a morada. Decidida, apanhou um táxi no aeroporto, para a morada que tinha.
A porta do prédio, estava aberta, e subiu as escadas até às águas furtadas. Uma tarefa complicada com os saltos altos e a mala de viagem. Sentia-se muito cansada, não sabia se pela longa escadaria, se pelo seu sistema nervoso. O coração batia-lhe tão forte que parecia querer saltar-lhe do peito. Por fim tocou a campainha. Pouco depois a porta abriu-se. Surpresa, alegria, emoção. O rosto dele, era um poema feito de emoções.
Descalço, envergando umas calças de ganga, o tronco nu, Simão passou a mão pelo cabelo murmurando:
- Vieste!
E ela tremente, sem deixar de o olhar:
-Vim.
Então ele baixou-se para apanhar a mala e disse:
- Entra. Desculpa receber-te assim. Não sabia que vinhas, estava a embalar as últimas telas para a exposição. Vêm buscá-las logo de manhã.
Pousou a mala junto à porta, pegou o polo abandonado sobre o sofá e vestiu-o. Depois calçou os ténis.
Reparou que continuava de pé.
- Senta-te. Deves estar cansada.
Pegou-lhe na mão e esse contacto fez com que tremesse da cabeça aos pés. Sentaram-se no sofá. Perguntou suavemente:
- Porque vieste, Ana?
- Porque não conseguia esquecer o teu beijo.
Assim, simples e direta, fizera a confissão. Abraçou-a emocionado. Sem deixar de a fitar disse:
- Sabes que te amo. Amo-te tanto que me dói o peito. O maior sonho da minha vida, é viver a teu lado. Deitar-me contigo, e acordar a teu lado todos os dias da minha vida, é a minha noção de felicidade.
Falava devagar, calmamente como quem fala com uma criança. Não queria assustá-la.


8.5.16

MANEL DA LENHA PARTE LXV


                A foto da filha e do genro do Manuel com a afilhada

                                                 foto minha


A 25 de Fevereiro de 1974, explode uma granada num café em Bissau. Resultado, um morto e 63 feridos. No dia seguinte Marcelo Caetano recolhe-se no Buçaco. Regressa no fim do mês, é recebido por Américo Tomás e pede-lhe a exoneração, que não é aceite.
O país está sentado sobre uma bomba relógio. Por um lado os militares cansados da guerra querem acabar com ela o mais rápido possível. Por outro a poderosa máquina montada por Salazar e  mantida por Américo Tomás, que quer manter tudo como está a sacrifício da vida do povo que sofre cada vez mais com a repressão, e com a perda dos seus filhos, mortos numa guerra inglória, e por fim com os Movimentos de Libertação, cada vez mais apoiados internacionalmente.
No meio de tudo isto temos um povo, maioritariamente  a caminho da velhice, que viu sair os seus filhos ou para a guerra, ou fugidos de salto para a França, e que nem podia desabafar a sua revolta, sob pena de acabar vendo o sol através das grades do presídio. Manuel era parte integrante deste povo. Com 56 anos, tivera a sorte de ter visto o filho cumprir o serviço militar sem ir à guerra, mas vira alguns amigos perderem os seus filhos, vira  o sobrinho ficar estropiado, e tinha a filha, o genro e um sobrinho por lá que não sabia quando voltariam e se voltariam.
A 5 de Março o Movimento dos Capitães reúne-se em Cascais no estúdio do arquitecto Braula Reis. Melo Antunes apresenta o que seria um esboço do programa.  Elegem como chefes do Movimento, Costa Gomes e Spínola. A comissão militar, fica a cargo de Casanova, Monge e Otelo. Na comissão política, Melo Antunes Victor Alves e Vasco Lourenço.
Poucos dias depois, na intenção de acabar com o movimento, vários dos seus membros são transferidos para outra unidades militares.
E o Manuel recebe carta da filha com as fotos do baptizado da filha da ex-vizinha.


Nota 1 A quem me pediu os nomes das filhas do Manuel, apesar deles serem referenciados nos capítulos a seguir ao seu nascimento, aqui vão de novo.
A mais velha chama-se Elvira, aí está nessa foto 42 anos mais nova.
A segunda filha chama-se Lourdes.




Nota 2
A maioria dos factos que decorrem na época e que achei por bem incluir nesta história de família, são históricos, e para os conseguir servi-me das pesquisas por jornais da época, pelo google, e pelos factos registados no anuário. Porque na época, o Manuel, como a maioria do povo,  não sabia o que se passava para mo relatar depois.