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4.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XVIII







 Os noivos, tinham decidido de comum acordo não fazerem viagem de lua-de-mel, uma vez que naquela fase de tratamento da mãe, Joana não se queria ausentar, apesar da ajuda da vizinha e da ama que Pedro contratara para o menino.
Assim, o noivo, reservara a suite de um hotel na cidade, onde passariam dois dias antes de iniciarem a vida em comum.
E agora ali estava ela, Joana Teixeira Mesquita, sentada na casa de banho, da suite, depois de ter mudado de roupa, escovado os dentes e os cabelos, as mãos trementes no regaço, sem coragem para ir até ao leito, sabendo que tinha de o partilhar com o marido.
- Posso entrar, - perguntou Pedro depois de bater levemente na porta.
Sem responder, ela abriu a porta e aproveitou para se esgueirar para o quarto, enquanto ele entrava na casa de banho para se trocar.
Quando regressou, verificou que a jovem se encontrava deitada e coberta até ao pescoço. Sentou-se a seu lado na cama, e procurando-lhe a mão, perguntou:
- Que se passa, Joana? Calculo que todas as noivas estejam nervosas na noite do seu casamento, especialmente se nunca fizeram amor antes, como foi o nosso caso. Mas durante toda a festa te senti, tensa, nervosa, e tu mesma confessaste que pensaste desistir. Não me vais dizer que és virgem, ou vais?
- Não.
- Então relaxa e vive o momento, - disse levantando-se e dando a volta à cama, deitou-se a seu lado, abraçando-a.
A sua boca, procurou a boca feminina, e com ternura, brincou com os seus lábios até que ela os abriu. Intensificou o beijo, as mãos acariciando-lhe o corpo. Depois os seus lábios percorreram-lhe o rosto, a língua acariciou o lóbulo da orelha, a suave curva do pescoço, enquanto as mãos experientes iam despindo a delicada camisa de seda. A boca masculina dirigiu-se depois para os seios, que o deslizar da camisa expusera, a língua acariciando a auréola, os dentes mordiscando de leve o mamilo, para depois voltar à boca, e ao rosto e sentir na língua o gosto das  lágrimas silenciosas da jovem. Gelou. Aquelas lágrimas eram uma clara rejeição.
Estava excitadíssimo, a sua ereção era prova disso. Afinal era a sua noite de núpcias, e apesar de aquele ser um casamento diferente, ficara bem claro que o sexo faria parte dele. Naquele momento, o seu corpo reagia como o de qualquer homem jovem e saudável, que tem a seu lado, uma mulher linda. A coisa que mais desejava era fazê-la sua. Porém aquelas lágrimas silenciosas, tiveram mais poder que o mais poderoso desejo que ele pudesse sentir.  Apertou os punhos e tentou acalmar-se. O seu casamento tinha que dar certo, o seu sonho de família não podia morrer ali. Deitou-se de costas e puxou a esposa para junto de si fazendo com que apoiasse a cabeça no seu peito, enquanto pensava: 
“Deveria haver um manual que ensinasse um homem como proceder numa situação destas. “ 
Deixou passar uns minutos, antes de quebrar o silêncio.
- Não chores, não é o fim do mundo, nem a nossa vida se acaba hoje. Decerto compreenderás que te desejo e que estava ansioso, por te ter nos meus braços, mas quero que quando esse momento chegar, estejas bem,para que possas sentir  tudo o que de bom, o sexo te pode proporcionar.
Contrariamente ao que esperava as suas palavras em vez de a acalmarem, pareciam ter piorado a situação.

3.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XV





Tinham-se passado os dois dias de prazo, e Pedro tinha de novo Joana na sua frente.  
- E então, - perguntou depois da saudação inicial, quando a jovem se sentou na sua frente, procurando não parecer ansioso. Qual é a tua resposta?
-Aceito, com algumas condições.
Ele não manifestou surpresa. Limitou-se a esperar.
-Mandarás redigir o tal documento, em que te comprometes a cumprir aquilo que me prometeste. A minha mãe, precisa de um tratamento urgente, por causa de uma doença grave no rim esquerdo. Esse tratamento é recente e só está disponível num hospital privado. Ela já teve cancro na mama, fez mastectomia parcial e reconstrução mamária. Está muito fragilizada, não só pela doença, como pela morte da minha irmã. A alternativa a este tal tratamento é a quimioterapia, mas o médico acha que ela está demasiado frágil para isso, além de estar com as plaquetas muito baixas em consequência da quimioterapia anterior.  Deverá iniciar o tratamento logo após o nosso casamento, que tratarás de que seja o mais depressa possível. 
-É tudo?
-Não. A minha mãe nunca consentirá neste “negócio”. Por isso temos que inventar uma história, e fazer-lhe acreditar que estamos apaixonados.  O menino será adotado pelos dois, como desejas, poderás sem dúvida dar-lhe uma educação que lhe permita ter um futuro melhor, muito mais facilmente do que eu, independentemente de fazeres ou não dele teu herdeiro. És ainda muito novo, não podes prever se no futuro, vais ou não mudar de ideias.
Que fique claro, que não quero nada além disto, e que não vou viver à tua custa.Tenho uma pequena empresa de doces e salgados para festas de aniversário ou de empresas, estou a começar, mas já tenho alguns clientes e espero vir a ter muitos mais. Por enquanto tenho trabalhado em casa, não tenho meios ainda para alugar um espaço onde possa montar a minha cozinha, por isso terei de passar várias horas lá em casa, não só para executar as encomendas, como para  criar e testar novas receitas, e acompanhar a minha mãe nesta fase critica da sua saúde. Se estiveres de acordo, podemos avançar com o negócio.
Apesar de não ter gostado do facto de ela rejeitar o seu dinheiro, Pedro não se mostrou surpreendido. Desde o primeiro momento, tinha percebido o seu amor pelos seus e a sua grande dignidade.
- Muito bem. Dispões de tempo agora, para começarmos a tratar de tudo, ou marcamos para amanhã?
- Se tu tens tempo, eu pedi a uma vizinha amiga, para ficar com a minha mãe. Ela a ajudará a cuidar do bebé quando ele acordar.
Pedro pegou no telemóvel e marcou um número.
- Ricardo, estás no escritório? Sim? Ótimo, estou a caminho com a Joana. Preciso daquele documento  de que te falei. Podemos ir aí agora para tratar disso? Obrigado, até já.
Desligou o telemóvel, guardou-o no bolso do casaco e pegando nas chaves disse:
-Vamos, Joana. O advogado espera-nos.
Saíram e seguiram para o elevador, depois do empresário ter dado instruções à sua secretária.  
Vinte minutos mais tarde entravam no escritório de Ricardo Araújo. Que já os esperava.
Pedro fez as apresentações, e depois explicou ao amigo o que desejava. 
Ricardo tomou alguns apontamentos, esclareceu alguns pontos jurídicos, pediu os documentos para o registo de identificação.
- Temos muita pressa,- disse Joana. A minha mãe precisa iniciar logo o tratamento.
-Amanhã estará pronto. Mas um casamento leva tempo a preparar.
Talvez seja melhor que a sua mãe inicie o tratamento logo que os dois assinem o documento.
- Falaremos disso, depois. A que horas tens, o documento pronto?
-Amanhã às dez podem vir assiná-lo.
Em seguida despediram-se e saíram


2.1.18

HELENA


A mulher que caminha apressada pelo parque da cidade, há anos, que deixou para trás a juventude, mas é ainda muito bonita. Morena, de estatura média, como a maioria das mulheres portuguesas, tem uns grandes e belos olhos negros, um rosto oval perfeito, emoldurado por uma farta cabeleira negra.
Helena foi noutros tempos uma mulher muito bonita, mas a vida encarniçou-se de tal modo contra ela, que fez desaparecer o sorriso da sua boca bem desenhada, o olhar perdeu o brilho, as rugas apareceram antes de tempos e os cabelos embranqueceram.
E se os cabelos retomavam a cor com a tinta, não houve tratamento que lhe restituísse a alegria perdida.
Curiosamente nasceu no dia em que na Europa terminava a segunda Grande Guerra.
Os seus pais eram muito pobres. Tinham casado muito apaixonados, numa época, em que grande parte da população portuguesa, tinha mais sonhos que comida.
Helena, foi a primeira filha do casal, que iria ter mais sete filhos depois dela. Por companheiros de brinquedos, tinha não só os irmãos, como as outras crianças do pátio, e até os primos que viviam perto. Tudo crianças que não sabiam o que era uma boneca, ou uma bicicleta. Às vezes quando o Bernardino, caseiro da quinta matava o porco, tratava a bexiga do mesmo, e a enchia de ar para dar aos miúdos do pátio. Era uma alegria para os rapazitos. Para as meninas não havia brinquedos. Elas eram instruídas logo de pequeninas para lavarem a loiça, fazerem as camas, varrerem a casa e cuidarem dos irmãos mais novos. Elas podiam nem aprender a ler, mas tinham que saber governar uma casa.
As mães trabalhavam ali perto na Seca do Bacalhau. Um trabalho duro que as fazia andar sempre cansadas para tudo, até para pegar num filho ao colo, ou dar-lhes um beijo.
Quando Helena fez a 4ª classe, foi "servir" para a casa do senhor doutor, que ia uma vez por semana examinar o pessoal à Seca. Ele já tinha uma cozinheira, e uma criada (era assim que se chamavam as empregadas domésticas, naquela época) para a casa, mas precisava de alguém que a ajudasse, já que tinha três filhos e a criada levava o tempo a queixar-se que não conseguia sozinha tratar da casa e das crianças. E a esposa não tinha paciência para os miúdos. Tinha as suas amigas, as visitas à igreja e as suas reuniões de caridade.
Nessa altura, passou a ser a Lena, e nessa casa ficou até aos dezoito anos como "criada de servir" interna. Dormia e comia em casa dos patrões, e o que ganhava ia quase por inteiro para ajudar a criar os irmãos mais novos.
Num domingo de folga encontrou uma antiga amiga, vizinha do mesmo pátio, onde ambas nasceram. Um pouco mais velha, ela tinha casado e o marido encontrava-se numa comissão no Ultramar. No meio da conversa a amiga disse-lhe que um militar que estava em Moçambique, na mesma comissão que o seu marido queria uma madrinha de guerra, e a convidou para isso. Lena aceitou e em breve se correspondia com o rapaz que até já lhe mandara a foto e era um belo moço.
Uns meses mais tarde, o rapaz pediu-lhe namoro, prometendo-lhe que se casariam logo que ele regressasse.
A jovem estava farta da vida que levava. Alguém que lhe prometia uma vida diferente era tudo o que ela pedira a Deus.  Aceitou o namoro, e mentalmente preparou-se para o casamento e para a vida que ela sonhava.
Quando o rapaz chegou, foi falar com os pais dela, obteve autorização para o casamento e começaram a tratar dos papéis. Arranjaram uma casinha, um anexo num prédio perto da casa dos pais.
Não era o que ela tinha sonhado, mas ele estava na tropa, ela deixara a casa do senhor doutor, andava à procura de emprego, e ficava a promessa de mudarem para uma casa melhor logo que fosse possível.
O rapaz não tinha família fora criado com uma tia já idosa,
que já não podia ajudá-los.
Pouco antes do casamento, alguns eis colegas do marido advertiram-na que o jovem com quem ela ia casar não era bem aquilo que ela pensava, e que deveria conhecê-lo melhor, antes de casar, para não fosse sofrer algum desgosto.  Ela porém estava demasiado iludida com a “lábia” do rapaz e não acreditou em nenhum dos avisos.
Casaram-se em Setembro de mil novecentos e sessenta e sete.



AVISO  Esta história acaba amanhã