2.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE II


Igreja de Santa Maria  Foto minha
  
Depois de umas breves orações mais pensadas que murmuradas, saiu e atravessando o largo, passou para o outro lado da Avenida pensando se o barco que costumava atravessar as pessoas para a Meia-Praia, estaria lá com aquele dia que parecia tão pouco propício à praia. Mas logo o avistou mais à frente, junto às escadinhas por onde as pessoas desciam. Apressou o passo e dirigiu-se para lá. A maré estava vazia, notava-se pelas pedras à mostra junto à muralha, ou paredão como diziam as pessoas da terra.   No barco, apenas os dois tripulantes que faziam a travessia se encontravam lá.
- Bom dia. Fazem a travessia com uma só pessoa?
- Claro. Um bom freguês vale por muitos, - respondeu com um sotaque brasileiro, o jovem que cobrava a passagem.
Isabel desceu as escadas, e entrou para o barco recusando com um sorriso, a mão estendida do jovem para a ajudar.
Sentou-se e logo o outro jovem pôs o motor a trabalhar e o barco começou a afastar-se rumo à outra margem.
-"Com este tempo, devem pensar que sou maluca", pensou ela olhando as águas.
Quando chegou ao areal a tal chuvinha tinha desaparecida. A avó chamava-lhe “morrinha” o avô “molha-parvos” lembrou com um sorriso. Quando sorria, surgiam-lhe duas pequenas covas no rosto, que a tornavam ainda mais atraente. Mas apesar disso o sorriso não conseguia apagar a tristeza que habitava no seu olhar.  
Quem conhece a Meia-Praia, sabe que apesar do nome, se trata de uma praia de alguns quilómetros de comprimento, dividida em várias zonas de banho, com salva-vidas, toldos e restaurantes. 
Até onde a vista alcançava a praia estava semi-deserta, já que em algumas zonas se via uma ou outra pessoa. Mais à frente, da parte de cima, um pouco depois das dunas, um bairro de pequenas casas brancas. “Os índios da Meia-Praia”, que o poeta cantor imortalizou, - pensou Isabel. Na água, mesmo à babujem, algumas pessoas numa espécie de dança, logo seguida de agachamento. A maré-vazia propiciava a apanha de conquilhas. Condelipas, como as pessoas da terra chamavam. Isabel, era curiosa, gostava de saber o porquê das coisas, e por isso, dias depois de ter chegado procurara saber porque é que em Lagos as conquilhas, se chamavam condelipas. Disseram-lhe, que em tempos remotos estivera em Lagos, um certo conde de Lippe, que viera  reorganizar a defesa da cidade e se instalara na fortaleza, Pau da Bandeira que ainda hoje se encontra junto à entrada da praia da Batata. Grande apreciador de conquilhas, o conde mandou vir sacos delas e ordenou que os soldados as espalhassem na praia. Daí que o povo lhe tenha começado a chamar Condelipas, nome que perdura até hoje na terra.

                                            

14 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Nesta manhã fria senti um arrepio na pele como a sua personagem.
Depois as condelipas são deliciosas.
Valem o trabalho de uma boa refeição.

Edumanes disse...

Isabel, mulher charmosa,
na meia praia em Lagos
gozando a vida maravilhosa
no seu belo corpo sem trapos!

Ser imaginação minha,
toda nua, não estaria
vestia uma cuequinha
de transparente simpatia!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

esteban lob disse...

El conde de Lippe y todos los otros entrañables personajes de tus historias, me ayudan estimada Elvira a hacer volar mi imaginación... y a aprender un poquitín del idioma portugués, amiga.

Anete disse...

A parte de hoje tá interessante... Tem até um personagem com sotaque brasileiro...
Gostei do significado de condelipas...
Abraços e boa tarde...

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, lindo o que escreveu, os índios da meia praia cantado pelo Zeca Afonso, as conquilhas algarvia, a grande e linda meia praia que muito bem conheço e aprecio, por a conhecer, só faltou falar no comboio.
AG

Linda disse...

Very charming and beautiful, Elvira! :)

Rosemildo Sales Furtado disse...

Lendo, gostando e aguardando os próximos acontecimentos.

Abraços,

Furtado.

aluap Al disse...

Realmente em dias assim são usuais esses ditos: "morrinha" ou "molha-parvos" (na minha terra diz-se "molha-tolos"). Parabéns por divulgar neste conto também estes tipos de literatura pertencentes à tradição oral!
Gosto também de saber o porquê das coisas e o porquê do nome dos sítios dados pelo povo aos locais, às ruas, aos miradouros, às pontes, etc. e tal...e como desconhecia o nome condelipas, achei muito interessante esta parte também.
Boa noite*

Fernando Santos (Chana) disse...

Belo o que escreveu...Espectacular....
Cumprimentos

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Estou gostando cara Elvira, vou para a terceira parte.
Um abraço.

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Estou gostando cara Elvira, vou para a terceira parte.
Um abraço.

Vera Lúcia disse...


Olá Elvira,

Gostei da menção a um tripulante com sotaque brasileiro.
Bela e enriquecedora narrativa.

Beijo.

Laura Santos disse...

Também eu, em Setembro apanhei uma bela chuva "molha parvos" na Meia Praia. :-)
xx

Socorro Melo disse...


Ops! Parece que temos um brasileiro por aí, espalhando sua simpatia, rsrs

É muito gostoso descobrir os costumes de um lugar que não conhecemos.