23.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE I


A noite estava muito fria. Era inverno. Lá fora a temperatura devia rondar os zero graus. A um canto junto à janela, a braseira aquecia a sala. As janelas de vidro, estavam abertas, contrariamente às persianas corridas que apenas deixavam passar uma nesga de ar gelado. Contudo necessário por causa da braseira. Na sala um casal via televisão. A mulher de cabelos grisalhos, e olhar parado, brincava com os dedos como se neles tivesse um qualquer objeto, que mexia e remexia.  Devia ter uns setenta anos,   era de baixa estatura, e figura roliça. O rosto ostentava ainda restos do que teria sido um rosto senão belo, pelo menos muito gracioso. Os olhos que teriam sido brilhantes e vivos, eram verdes, como dois lagos de águas paradas.
Junto dela, o homem ligeiramente mais velho, alto e magro, calvo, de olhos escuros e barba grisalha. A televisão transmitia um programa de variedades, mas o casal parecia nem dar por isso. O homem olhava a mulher com um misto de amor e piedade. Parecia estar pendente dela, enquanto ela se mostrava totalmente ausente.
Tinha-a conhecido nos bancos da escola. Foi a sua primeira namorada, e a última. Porque fora a única mulher que ele amara na vida, além da sua mãe. Casaram-se muito jovens. Ele estava na tropa em Leiria, quando soube que tinha sido destacado para a guerra nas colonias. Foi um choque, e resolveram casar à pressa, porque ele tinha medo de morrer, sem viver o amor que sentia por ela. Tinha vinte e um anos, ela ainda nem fizera dezoito.
Dois dias depois de casados, ele voltou ao quartel donde só saiu na hora do embarque com destino a Angola.
Chegou a Luanda num longínquo dia de Março de mil novecentos e sessenta e sete. Depois de dois dias na cidade, que mal deram para umas cervejas no Rialto e um passeio pela ilha, lá foi com o destacamento para as margens do Lungué-Bungo, no leste de Angola, e por lá ficou vinte e seis meses.  Perdão vinte e cinco, já que teve direito a um mês de férias.
Como ele gostaria de vir à metrópole nesse mês, rever a terra, os amigos, e principalmente a sua amada Alzira. Infelizmente o dinheiro não abundava e teve que se contentar com uma ida até ao Luso, (a cidade mais próxima, do acampamento,  embora ficasse a 200 Kms ), duas ou três idas ao cinemas e uns copos com outros camaradas também de férias.
Às vezes sentia a tentação de se deitar com alguma das belas mulatas que viviam perto do acampamento.
Afogar nuns momentos de prazer as saudades de casa, os medos das emboscadas, a dor da perda de algum companheiro menos afortunado.
Porém, lembrava-se da esposa, e embora não tivesse pretensões de santidade, pensava que umas horas de prazer com uma desconhecida, não substituiriam o amor, nem mitigariam a saudade que tinha da mulher que amava.
E o desejo não era mais forte do que ele, que moldara a sua força na anterior vida de pescador, em bravas lutas com mares encapelados.


26 comentários:

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar as história e desejar uma ótima semana!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

✿ chica disse...

A nova história promete.Tentarei acompanhar! bjs praianos,chica

Tintinaine disse...

Tem aqui um cliente garantido para acompanhar a par e passo esta nova história, ainda mais começando como começou.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Tem tudo para ser mais uma bela história.
Um abraço e boa semana.
Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

Luiza Maciel Nogueira disse...

Uma bela história Elvira!
Tenha um lindo dia!

Socorro Melo disse...


A história já nos instiga e desperta nossa curiosidade.


Uma feliz semana pra todos nós!

António Querido disse...

Vim em passo de corrida, cheguei, li e gostei muito, há aqui neste começo de história, algumas coisas que têm a ver comigo e com muitos camaradas da minha idade, vou acompanhar as coincidências inteligentemente pensadas no imaginário do autor/a!
Com o meu abraço.

Bell disse...

Casamento hoje em dia requer perdão e renuncias.
Por isso muitos não dão certo.

bjokas =)

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

E cá estou querida amiga Elvira, a ler seu novo conto, que sei vai ser maravilhoso, mas já deu em mim uma pontinha de tristeza e de curiosidade.
Vamos lá, amanhã tem mais.
Grande beijo no coração e feliz semana.

Janita disse...

Apesar deste novo conto focar um tema que me é muito doloroso, pela perda de um ente querido, não na guerra colonial, mas em virtude dela, cá estou a acompanhá-la, amiga Elvira.
Agora, vou ler os episódios finais, da história de amor.
Um abraço, boa semana.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Mais uma história para seguir.
Desejando que se encontre bem.
Bjs.
Irene Alves

Edumanes disse...

De Leiria para Angola,
marchou no mês de Março
começa bem essa história
referente a um soldado!

Que tenha um fim feliz,
e não um fim desgraçado
que seja com o destino quis
Deus o tenha acompanhado!

Também eu sai de Leiria,
com destino a Moçambique
quando cheguei muito chovia
a Vila Cabral, vi ninguém me disse!

Fui a Metangula, e para Lisboa voltei,
se não tivesse voltado não estava aqui
em Maio de 1968 para Angola embarquei
a linda Baía de Luanda muitas fezes a vi.

Também estive na Cidade do Luso,
um fim de semana lá passei
fui de comboio, nada confuso
a Silva Porto no Comboio Mala voltei!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

O meu pensamento viaja disse...

Apresentados os intervenientes, aguardemod.
Boa semana.
Beijo

Catarina H. disse...

Agora ficava aqui a ler o resto da história... tenho que esperar por mais. Tenho a dizer que o enredo promete, a mim já me agarrou e mal começou.
Fico a aguardar os próximos capítulos :)
Beijinhos

Rui disse...

Já estou "enquadrado" Elvira ! Fiz o serviço militar entre 62 e 65 (40 meses) e casei em 64 ! ... Portanto "estou a ver" a época ! Só não fui para guerra no ultramar ! :)) ... mas tive que aguardar que os meus camaradas regressassem, para passar à disponibilidade !
Vejamos no que vai dar ! :)

Abraço :)

Rogerio G. V. Pereira disse...

Esta história
enquadra-se minha memória

segui-la-ei
tanto quanto
o puder
pode crer

Vieira Calado disse...

Olá, Elvira! Se por um lado há que esquecer esse drama... por outro, nuca deverá ser esquecido! Parece paradoxal, mas não é.
Hoje vai este poema
http://vieiracalado-poesia.blogspot.pt/2017/01/o-coracao-conhece-o-segredo.html Os meus cumprimentos!

Pedro Coimbra disse...

Traição não tem justificação.
Sou radical nessa aspecto.
Um abraço

São disse...

Faço meu , se me é permitido, o comentário de Pedro Coimbra.

Beijinhos

Prata da casa disse...

A história promete.
Bjn
Márcia

Smareis disse...

De volta pra acompanhar suas histórias.
Pelo inicio vai ser muito boa.
A traição deixa marca difícil de ser apagada.
Bjs e ótima semana!

Elisa Bernardo disse...

Ainda ando por aqui;)
Beijinho grande
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

© Piedade Araújo Sol disse...

Começa bem...vamos ler os postes seguintes....
beijo
:)

Ana Freire disse...

E já que não tive oportunidade de apreciar a história anterior... conto seguir esta, bem no seu começo... que gostei imenso!...
E já lendo os capítulos seguintes...
Beijinhos
Ana

Odete Ferreira disse...

A iniciar a leitura deste conto. Promete!
BJ, amiga 😊

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Já comecei atrasada.
Tenho medo e tristeza com contos de guerra.
Beijos
Lua Singular