28.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - FINAL



Luís sente-se muito cansado.
Não tem irmãos, os seus pais já morreram, não tem filhos. A mulher que foi tudo para ele na vida, companheira, mulher, amiga, amante, está presa algures, numa qualquer masmorra do seu cérebro doente. Sem esperança de se conseguir libertar.  E ele interroga-se: -" E se de súbito me acontece alguma coisa? Afinal estou com setenta e quatro anos. O que vai ser de Alzira? Quem cuidará dela?"
 Ultimamente, passava-lhe muita vez pela cabeça, a ideia de acabar com todo aquele sofrimento. Cada vez mais insistente, mais insidiosa. Afinal, quando a dor se torna insuportável, a ideia da morte afigura-se-nos uma alternativa agradável. E se todos temos que morrer, mais cedo ou mais tarde, porque não abreviar a data?
O programa televisivo chegou ao fim. Alzira estava cheia de sono. Os olhos cerravam-se-lhe, a cabeça pendia-lhe. Mas era incapaz de se levantar. Ou sequer de expressar a vontade de dormir, que a invadia. Na verdade ela era incapaz de fazer qualquer coisa, de expressar qualquer sentimento. Ela nem sequer dá sinal, de saber quem é o marido.
Decidido, levantou-se e  foi à cozinha. Aqueceu um copo de leite e trouxe-o à esposa com o habitual comprimido. Depois levou-a à casa de banho, cuidou dos preparativos de todas as noites antes de a levar para o quarto. 
Aí despiu-a, vestiu-lhe a cueca fralda, enfiou-lhe o pijama e ajudou-a a deitar-se. Ajeitou-lhe a almofada e dirigiu-se à casa de banho. Pôs a roupa da esposa na tulha para lavar, lavou os dentes  passou a esponja no lavatório para tirar algum resquício de pasta de dentes, seguindo o ritual de todas as noites. Vagarosamente, como se tivesse à sua frente toda uma eternidade. Então foi à sala, desligou a televisão, mas em vez de apagar a braseira, como fazia todas as noites antes de encerrar as janelas de vidro, pôs na braseira mais brasas, e levou-a para a entrada do quarto. A noite estava fria, ninguém ia estranhar, quando dessem por falta deles e os encontrassem. Sorriu com tristeza, mas aparentando grande serenidade. Despiu-se, dobrou meticulosamente as calças pelo vinco, e colocou-as na cadeira que estava aos pés da cama. Vestiu as calças do pijama, e desapertou os botões da camisa, tirando-a. Tinha no rosto uma expressão serena, e um novo brilho no olhar. Despia-se devagar, como se sentisse um certo prazer em cada movimento. Vestiu o casaco do pijama. 
Depois, cerrou as janelas de vidro e finalmente deitou-se.
 Puxou para si o corpo da mulher adormecida, e abraçou-a com carinho. Depositou um beijo nos seus cabelos, murmurou um “amo-te” seguido de um “perdoa-me”, dirigiu uma breve oração ao Altíssimo e  fechou os olhos, sentindo-se finalmente em paz.


FIM



Elvira Carvalho

E cá está o episódio final. Como sempre gostaria da vossa opinião sobre o conto.
Amanhã não haverá nova história. Tenho duas novas na calha. 
Vou deixar ao vosso critério, a escolha de qual vou começar na segunda-feira
1 Longa travessia
2 Casamento por procuração. 
Qual será a que querem ler primeiro?


29 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

A morte não é solução para nada
excepto quando a vida se degrada

aí, nem Deus deve ser chamado

Prata da casa disse...

Juntos na vida e na morte. Triste, mas provável.
Bjn
Márcia

Janita disse...

Muito, muito triste, na verdade. Mas quem somos nós para reprovar ou aprovar esse tipo de eutanásia?
Por causa dessas braseiras a carvão, têm morrido muitas pessoas já este ano. Esta semana, alguém me disse ter ouvido na televisão, algo sobre a morte de sete pessoas. É uma morte silenciosa e indolor...É preciso muito cuidado!

Quanto à escolha do novo conto, como não conheço nem um nem outro, deixo ao critério da Elvira.
Um abraço e bom fim de semana.

✿ chica disse...

Trite decisão tomada por amor aos dois, pois ele também não mais aguentava! Escolhei por ele e por ela, que capacidade não mais tinha de fazê-lo.... Gostei de te ler! bjs, chica e gostei do primeiro título pro conto... bjs, chica

Edumanes disse...

Em vez de um fim feliz,
foi um fim muito triste
o destino assim o quis
quando esperança não existe!

O conto foi bom,
continue amiga Elvira,
porque você tem dom
e inteligência para e escrita!

Um abraço e boa noite!

Rui disse...

Uma decisão muito difícil ! Não sei se a tomaria.(?)... mas só quem está perante aquelas dificuldades, problemas e situação, poderá avaliar e ter a capacidade de decidir sobre essa possibilidade !

Quanto à escolha, nada mais certo do que deixar ao seu critério, Elvira !

Parabéns pela sua escrita e poder criativo !

Abraço

Graça Sampaio disse...

Um final tão real e decerto tão desejado por tantos dos "nossos" idosos! Muito atual e muito bem descrito, Elvira.

(Em Algés tínhamos uma braseira igual à da foto que se punha na mesa redonda com a camilha. Tão bonito e tão perigosos! Mas tão confortável...)

Beijinho

lourdes disse...

Um final triste, mas a vida que eles levavam tambem era muito triste.
Eu acho que não teria coragem mas acredito que as pessoas muito desesperadas são capazes de atitudes que julgariam impensáveis.
Bjs

Tintinaine disse...

Eu só peço que o próximo conto não seja triste. Como diz o ditado, tristezas não pagam dívidas e eu não tenho dívidas para pagar.

Os olhares da Gracinha! disse...

Um final não desejado nunca!
Deveria ter feito outra escolha mas a sua escrita foi do meu agrado!
Opto pelo primeiro... Bj

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
com franqueza não esperava este fim mas quem somos nós para decidir o fim de cada um .
embora não passe de um conto , é sem duvida alguma uma das melhores possibilidades de fazer uma grande reflexão sobre a solidão e a velhice .
em relação ao próximo escolha você pois qualquer um será com certeza lindo como sempre !!!!!
JAFR

Berço do Mundo disse...

Ao contrário de muitos outros leitores, não achei o final infeliz. Terminou de uma forma consciente, carinhosa e digna.
Muitos gostariam de ter um fim misericordioso como este.
Abraço
Ruthia d'O Berço do Mundo

António Querido disse...

Um final de história com todos estes pormenores ao milímetro, só dum bom/a contador de histórias, triste mas feliz para um casal que tanto se amou!

Quanto ao próximo, na minha opinião era: (A Longa Travessia),
Porque tem mais a ver com todos nós! Eu não casei por procuração-:))

O meu pensamento viaja disse...

Para viver um grande amor, como dizia Vinicius, o ideal seria ser um só defunto. ..
Parece-me que sim.
Bom domingo
Beijo

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Muito triste.
Eu não teria coragem de fazer isso, mas cada um sabe de si, não é mesmo?
E ele já tinha perdido toda esperança, sucumbiu.
Prefiro o segundo título querida Elvira.
Um abraço amiga querida.

Anete disse...

Ui! Forte e fiquei pensativa c o término do conto! Realista e um tanto impactante!!
A vida c os seus mistérios e lado duro...

Um abraço...

Anete disse...

Ainda... O 1o tema, Longa Travessia... Tomara que seja uma travessia alegre e feliz!...
C carinho

Socorro Melo disse...


Olá, Elvira!

O final foi surpreendente. Penso que só em situações de grande desespero se acolhe a morte como saída para a vida.
Luis se fechou no seu mundo também. Não tinha familiares, mas, sempre podemos contar com amigos e benfeitores. Talvez se tivesse buscado essa ajuda, não tivesse desertado da vida. É o que penso.

A história foi bastante interessante. Parabéns!

Eu opto por LONGA TRAVESSIA, o título é estimulante.


rendadebilros disse...

Quando uma pessoa se encontra sozinha, na companhia de quem está presente apenas num corpo físico já sem alma nem voz nem lembranças, talvez só encontre consolo numa solução drástica. Tema para reflexão. Beijinhos.

aluap Al disse...

Opte pelo 1º, Longa Travessia que acho poder ser mais alegre que este, que teve um final triste, mas é mais uma realidade. Na minha terra aconteceu algo semelhante, só que ela salvou-se. Esteve muito tempo no Hospital, mas está viva.

Bom resto de domingo.

maria disse...

Desta vez não acompanhei diáriamente, pelo que li, hoje, todos os episódios e confesso, por momentos pensei que estava a ler uma história veridica, porque infelizmente, conheço bem de perto essa doença terrível e os seus terríveis efeitos, porque acompanho, desde há 5 anos um familiar que é Doente de Alzheimer, conheço bem a memantina e a rivastigmina, esta, compro - a mensalmente, por isso, parabéns minha amiga acho que nos dá uma visão bem real dessa doença que é sem dúvida um inimigo a temer... mas confesso, surpreendeu-me o final e esse espero que seja sempre encarado como um cenário de ficção!Um beijinho e mais uma vez Obrigado! Ler primeiro? Talvez, a Longa Travessia!:D

paideleo disse...

É triste pero pode ser real e de feito danse casos así.
Eu mirara unha película de esquimós que cando a xente era vella e non tiña dentes para abrandar a pel das focas saía do iglú para morrer de frío e non estorbar ao resto da familia.
Era unha película e non sei se era certo.

Eu escollo Longa Travessia.

Vera Lúcia disse...


Olá Elvira,

Um conto triste, com um final dramático.
A narrativa foi excelente e bem explicativa sobre esta triste doença. Segundo vi no noticiário, pesquisas já estão a caminho para o tratamento mais eficaz do Mal de Alzheimer, mas com previsão de testes apenas para daqui a cinco anos.
Sei que para os familiares é muito triste lidar com uma pessoa querida portadora desse mal. Meu pai foi diagnosticado com essa doença e doeu muito em todos nós ver o progresso irremediável da doença. Ele faleceu sete anos depois do diagnóstico. Contudo, havia minha mãe e os cinco irmãos para ajudar, além de duas enfermeiras, que se revezavam. Para uma pessoa só, como no conto, a situação torna-se desesperadora. Não me cabe julgar a decisão de Luís, mas não a aprovo, por questões religiosas.
Um ótimo conto, que gostei muito de ler.

Aguardarei a próxima história, independente do tema escolhido. Não posso fazer uma leitura diária, mas sempre leio tudo quando chego por aqui.

Feliz semana!

Beijo.

Odete Ferreira disse...

Ainda li o final no sábado, no regresso de mais uma visita ao meu netinho. Ontem já tinha o comentário pronto a dar o enter no PC e foi-se a bateria...
Hoje resumo: tu própria explanas as razões da decisão que o Luís tomou. Não o condeno e até o compreendo. Infelizmente não temos os cuidadores suficientes para a problemática. Nem para os doentes, nem para o apoio à família. Ainda temos um longo caminho a percorrer.
Como sempre, um conto muito bem contado e a trazer para a discussão uma matéria, digamos, fraturante, mas necessária.
Também escolheria este conto.
BJ, Elvira

Emília Pinto disse...

Elvira, gostei muito do conto, com todos os pormenores sobre esta terrivel doença. A Alzira tinha muito amor à sua volta, mesmo que dele não se apercebesse, mas há idosos que sem essa doença se veem tão abandonados que pedem a morte todos os dias. Entendo a atitude do Luis e acho que a medicina prolonga muito a vida de pessoas para quem a morte seria uma bênção. Tenho uma tia de 92 anos que esteve muito bem até novembro passado e agora está no hospital desde meados de Dezembro; hoje vai para um lar pois necessita de cuidados continuados e não há que cuide dela e nem dinheiro para contratarem enfermeira dia e noite. Alimenta-se por sonda e um dia está como um vegetal, outros um pouco melhor. Não estaria na hora da morte a levar assim, sem grande sofrimento? Quanto ao novo conto, claro que o acompanharei com muito gosto. Um beijinho, amiga e obrigada por teres trazido este problema que nos afecta muito, mas no qual devemos reflectir e também pensar um pouco nos idosos que estão sozinhos e que precisam tanto de uma visita. Até...
Emilia

© Piedade Araújo Sol disse...

Elvira
vim hoje ler os capítulos que me faltavam.
neste já imaginava o final, pois há um tempo atrás algo muito parecido aconteceu e deram a notícia na TV.
um conto dramático, e muito duro de ler, no entanto muito bem escrito e com todos os detalhes como já nos habituou.
boa semana.
beijinhos
:)

Mar Arável disse...

Estamos sempre a desnascer,
O seu texto não é triste é de corpo inteiro.
Nem sempre há leitores que vivam realidades
cruas e nuas
mesmo que a ficção assim bem escrita
seja um espelho de cristal
Parabens
Venham mais cinco.
Bj

Elisa Bernardo disse...

Espero conseguir acompanhar melhor...adoro passar por aqui.
beijinho

Roselia Bezerra disse...

Boa noite, querida Elvira!
Vc escreve muito bem e a cada história se supera e nos surpreende...
Vou ver a próxima...
Bjm muito fraterno