30.11.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE V




O paquete Vera Cruz estava a chegar a Alcântara. Na amurada do navio, um homem destacava-se do mar de gente que se preparava para o desembarque. Não teria ainda cinquenta anos, alto, bem vestido, mas com um ar cansado, observava a cidade.
Lisboa, a bela cidade, que deixara há quase três décadas quando partira para o Brasil em busca de fortuna. Quantas asneiras se fazem na juventude, quando a ambição nos domina. O Chico era muito jovem quando perdera os pais. Os primeiros anos, vivera com um tio sapateiro, com quem aprendera o ofício. Quando o tio morrera, o Chico ficara com a pequena oficina, onde confeccionava ou arranjava o calçado. Foi nessa altura que conheceu a Esperança. Era a moça mais bonita do bairro. Tinha uns grandes olhos castanhos, docemente amendoados. Conheceram-se e amaram-se no mesmo instante. Ele era nessa época, um belo rapaz, com um ar altaneiro que fascinava as moças casadoiras, e as deixava suspirando pelos cantos. Mas ele só tinha olhos para a sua Esperança.
Durante dois anos trocaram juras de amor, e sonharam com um futuro a dois, muito feliz.
Mas o negócio não corria bem ao Chico, cada vez mais os fregueses optavam por comprar sapatos feitos em vez de os mandarem fazer, e ele ouvira falar do Brasil, e das muitas oportunidades de conseguir fortuna lá. E um dia decidiu-se. Vendeu a oficina, e comprou a passagem. Com tudo decidido, procurou a namorada e falou-lhe da viagem, dos seus sonhos de riqueza, e da separação que teriam de viver em prol de um futuro melhor.
Ela chorou. Com intensidade, como fazem as mulheres que amam de verdade. Tentando consolá-la ele dizia que seria por pouco tempo. Logo que estivesse a trabalhar, arranjava casa, e casavam por procuração. Depois ela embarcava e ia ter com ele ao Brasil.

12 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Desculpa, perdi-me

Janita disse...

Num episódio, o último, deixamos a Ti Esmeralda moribunda onde apenas os seus olhos, tristes e lindos, respiravam vida.
A transição, de volta ao passado, foi muito rápida, mas consegui acertar o passo com a ida do Chico para uma viagem em busca de um futuro promissor...
Veremos, mas o Chico deve ter ficado por lá...
Ah, o Amor, esse sentimento mágico, que tanto pode redimir como destruir.

Um abraço, Elvira.
Vou tentar envolver-me nos braços de Morfeu...

Pedro Coimbra disse...

Uma história contada em forma de analepse?

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Estou a acompanhar e a gostar da história e a fotografia é fantástica nós antigamente tínhamos uns belos paquetes.
Um abraço e continuação de boa semana.
Andarilhar

Isa Sá disse...

A passar para acompanhar a história.


Isabel Sá
Brilhos da Moda

António Querido disse...

Olha o Vera Cruz, que me levou até Luanda ("Ninho de Ratos"), como alguém lhe chamou! Eu senti-me bem, com uma piscina de 1ªclasse à minha disposição e com alimentação de cruzeiro.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Será que o Chico acertou quando pensou em fazer riqueza aqui no Brasil? Será que valeu a pena, o sacrifício da viagem e da separação do grande amor? Aguardemos!

Abraços,

Furtado

Edumanes disse...

Esse Chico, foi um falso. Deixou a Esperança, foi atrás da ilusão na esperança de enriquecer. Se ele nasceu para ser sapateiro. Nunca na sua vida poderia ser banqueiro!

Boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Silenciosamente ouvindo... disse...

A seguir mais uma.
Veremos o que vai sucedendo.
Tudo bem? Desejo que sim.
Bjs.
Irene Alves

maria disse...

Brasil, casamento por procuração, é certo que na época era frequente, mas será que vai resultar ou melhor será que o Chico vai mesmo cumprir com o que promete?

lua singular disse...

Oi Elvira
O Brasil para quem tem uma profissão ainda diferente, há muitos anos os homens e mulheres mandavam fazer seus sapatos e bolsas. Mas ele teria que guarda muito dinheiro, pois o progresso chega rápido.
Beijos
Lua Singular

aluap Al disse...

Artes e ofícios em extinção são uma realidade: sapateiros, alfaiates e outros tantos, pouco ou nada já se fala.. compra-se tudo feito e há para todos os gostos!