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4.10.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXVII

 



- Faço qualquer coisa, para descobrir o que se passou.
- A minha ideia é a seguinte. O senhor vai apresentar-se na sua terra. Vai dizer que foi atropelado, esteve hospitalizado, apaixonou-se pela enfermeira que cuidava de si, e deseja casar o mais rápido possível. Esperamos que ao sentir que com o casamento, a herança lhe fugirá de vez, o Joaquim perca a cabeça e  faça alguma coisa que o incrimine. E aí temos a prova que precisamos para o apanhar. É um risco, mas é um risco relativo. 

A enfermeira que estará sempre consigo, é uma das nossas melhores agentes, e para além dela, temos já na Póvoa, dois agentes à paisana, atentos a todos os movimentos do suspeito. Claro que terá que obedecer rigorosamente ao que a sua “noiva” lhe disser. Tem que ter presente, que qualquer atitude irrefletida da sua parte, pode por em risco não só o nosso plano, como a sua vida.

- Cumprirei à risca o que me for indicado. E quando devo começar?
- Faltam dois dias para o Ano Novo. Que tal no próximo dia dois. Pode ser?
- Por mim até podia ser já. Não vejo a hora de ver isto resolvido. E a polícia americana, já foi avisada?

- Já os pusemos ao corrente do que se passa, e pedimos para não divulgarem a notícia do seu aparecimento até acabarmos a investigação. Sabemos que as televisões estão a seguir o caso, e não queremos que a notícia seja divulgada antes de tempo.

- Mamã, tenho fome! – reclamou o pequeno Diogo, irrompendo na sala.
- Vamos já lanchar, filho. Desculpem-me – disse levantando-se e dirigindo-se ao menino.
O Inspetor levantou-se.
- Também já acabei. Desejo-vos uma boa passagem de ano, - disse estendendo-lhe a mão. 
- Obrigado. Desejo-lhe o mesmo, - disse ela retribuindo o cumprimento e seguindo com a criança para a cozinha.
Fernando acompanhou o inspetor à porta e aí se despediram:
-Feliz Ano Novo, inspetor
- Feliz Ano Novo, Fernando. E os meus parabéns. O senhor é um homem muito rico.






8.9.17

À MÉDIA LUZ PARTE III


E ali estava ela num impasse. Até agora não tinha visto nada de suspeito no seu chefe. Percebera que era um mulherengo incorrigível, que ela não lhe agradara nada, quando a vira pela primeira vez, contudo não pedira para a substituíram e ela tinha a certeza de que neste momento, ele estava satisfeito com a sua prestação laboral, ainda que continuasse a olhá-la como quem olha para um saco de batatas. Mas isso pouco lhe importava. Não estava ali para o conquistar, muito embora não deixasse de reconhecer que era um homem muito atraente. Mas ela não estava interessada em nenhum homem por muito interessante que fosse´
O único homem que lhe interessava, era o pai, e encontrava-se preso por um crime que não cometera.
Suavizou-se o rosto com a recordação do pai por quem sentia um carinho a roçar a adoração. Não se lembrava da mãe. Morrera quando ela era ainda bebé. Uma gripe, uma pneumonia, agravada por problemas respiratórios de que já padecia. O pai fora pai e mãe para ela. Sacrificara a sua vida à solidão para não lhe dar uma madrasta. Criara-a com todo o amor, dera-lhe a melhor educação, muitas vezes à custa de se privar até das coisas mais básicas. Trabalhava no escritório, e em casa fazia ainda contabilidade de micro empresas. Para que ela pudesse estudar. Quando soube de como gostava de dançar, e de como gostaria de saber fazê-lo, não hesitou em escrevê-la numa academia de dança, embora isso comportasse mais uma despesa para o orçamento. Era o homem mais nobre e recto do mundo. Mas amargava os dias na cadeia. E o pior, Sandra acreditava, seria quando fosse libertado. Ela conhecia o pai. Temia que ele não aguentasse ser apontado por todos como um ladrão. Tinha muito medo, que ele procurasse no suicídio, a solução para a sua vergonha. Sandra procurara um advogado. A julgar pelo que pagou por uma única consulta, decerto um dos melhores do país. Mas ele fora peremptório. Sem um dado novo, não havia como reabrir o processo.