E ali estava ela num impasse. Até agora não tinha visto nada de suspeito no seu chefe. Percebera que era um mulherengo incorrigível, que ela não lhe agradara nada, quando a vira pela primeira vez, contudo não pedira para a substituíram e ela tinha a certeza de que neste momento, ele estava satisfeito com a sua prestação laboral, ainda que continuasse a olhá-la como quem olha para um saco de batatas. Mas isso pouco lhe importava. Não estava ali para o conquistar, muito embora não deixasse de reconhecer que era um homem muito atraente. Mas ela não estava interessada em nenhum homem por muito interessante que fosse´
O único homem que lhe interessava, era o pai, e
encontrava-se preso por um crime que não cometera.
Suavizou-se o rosto com a recordação do pai por quem
sentia um carinho a roçar a adoração. Não se lembrava da mãe. Morrera quando
ela era ainda bebé. Uma gripe, uma pneumonia, agravada por problemas
respiratórios de que já padecia. O pai fora pai e mãe para ela. Sacrificara a
sua vida à solidão para não lhe dar uma madrasta. Criara-a com todo o amor,
dera-lhe a melhor educação, muitas vezes à custa de se privar até das coisas
mais básicas. Trabalhava no escritório, e em casa fazia ainda contabilidade de
micro empresas. Para que ela pudesse estudar. Quando soube de como gostava de
dançar, e de como gostaria de saber fazê-lo, não hesitou em escrevê-la numa
academia de dança, embora isso comportasse mais uma despesa para o orçamento.
Era o homem mais nobre e recto do mundo. Mas amargava os dias na cadeia. E o
pior, Sandra acreditava, seria quando fosse libertado. Ela conhecia o pai.
Temia que ele não aguentasse ser apontado por todos como um ladrão. Tinha muito
medo, que ele procurasse no suicídio, a solução para a sua vergonha. Sandra procurara um advogado. A julgar pelo que pagou por uma única consulta, decerto
um dos melhores do país. Mas ele fora peremptório. Sem um dado novo, não havia
como reabrir o processo.
