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7.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XVIII


Olhou-se ao espelho enquanto escovava os longos cabelos escuros, recém-lavados. Ainda estava indecisa sobre como levá-los ao jantar. Soltos ou presos?
Tinha aceitado o convite para jantar que Salvador lhe fizera no dia anterior. Ele dissera que era um jantar informal, em casa do irmão.
Anete, tinha ficado feliz por conhecer a sua família. Salvador agradava-lhe. Nunca se tinha sentido assim entusiasmada por outro homem. Mas não podia iludir-se. Ele decerto contara à família que tinha encontrado alguém muito parecido com a cunhada, e e eles sentiram a mesma curiosidade que ela sentia. Tinha que ser isso. Se ele tivesse interesse em levá-la a jantar, o faria para qualquer outro lado onde estivessem sós. Depois no dia em que saíram juntos, e ele a acompanhou a casa, nem sequer tentou beijá-la.
Acabou de escovar o cabelo, e olhou-se de novo ao espelho. Não decididamente não ia levar os cabelos soltos. Com mãos experientes, puxou-os para o seu lado direito e começou a entrança-los.
Com a trança pronta repousando sobre o ombro direito, mirou-se de novo no espelho. Gostou do resultado. Olhou o relógio. Sete horas. Salvador dissera que vinha buscá-la às sete e meia. Em cima da cama repousava a roupa que escolhera para aquele jantar.
Passou uma sombra nos olhos para lhes dar mais profundidade, um ligeiro toque de cor nas maçãs do rosto, e um pouco de brilho nos lábios. Nunca gostara de grandes maquilhagens, e nem aquele jantar se prestava a isso.
Terminada a maquilhagem envergou o fato que escolhera. Era composto por umas calças, e um casaco de seda, azul celeste, cujo decote em bico pouco pronunciado realçava o colo sem se tornar indiscreto.
Optou por uns sapatos pretos, de salto em cunha e não muito altos.
O Outono ia adiantado, dentro em pouco chegaria o Inverno, as noites estavam frias, pelo que retirou do armário um casaco comprido castanho-mel.
A campainha tocou nesse momento. A jovem enfiou o casaco, pegou na mala, e saiu abotoando o agasalho enquanto descia as escadas.
Sentiu-se reconfortada com o olhar de admiração masculino, e sorriu enquanto ele pousava ao de leve os lábios na sua face, numa saudação social.
-Boa-noite. Estás muito bonita.
- Obrigado. Tu também estás muito bem.
E estava. Com as calças antracite, a camisola de gola alta branca que ressaltava o rosto moreno, e o casaco desportivo de cor  de camelo, cujo tom se confundia com a cor dos seus olhos. 
A curta viagem até à casa dos seus anfitriões decorreu em silêncio, cada um entregue aos seus próprios pensamentos. Só quando estacionou o carro, Salvador falou:
-Antes de entrar, gostaria de te pedir que não lhes contasses como nos conhecemos. Isto é, não gostaria que eles soubessem das minhas suspeitas sobre a fidelidade da minha cunhada.
- Por quem me tomas? -Perguntou zangada.  - Nunca iria falar sobre uma coisa dessas.                                                                         

6.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XVII


- Salvador?
-Bom dia, Raul. Tudo bem?
- Tudo. Quando vais lá a casa? Os teus sobrinhos não se cansam de perguntar por ti.
- Um dia destes. Também já tenho saudades daqueles diabretes. E então? Tens novidades?
- Não. Falei com os meus sogros. Eles só sabem que a Ana Clara foi entregue à instituição pela própria mãe, que se encontrava gravemente doente. A menina tinha dez meses, e a mãe morreu pouco tempo depois. Ninguém lhes falou de qualquer irmã, gémea ou não. Queres um conselho? Esquece essa história.
- Não consigo. Não é possível, duas pessoas assim tão iguais sem qualquer relacionamento entre si.
- Tu nunca ouviste falar de sósias? Não têm vínculos familiares e às vezes nascem separadas por um continente.
-Sei. Sósias são pessoas muito parecidas, e não são iguais, como estas duas. Tu não viste Anete, senão em foto. Até no andar, e nos gestos, é igual. E não nasceu no outro lado do mundo. Nasceu na mesma cidade e no mesmo dia.
- Estive a pensar, porque é que não levas a tua amiga, a jantar lá a casa amanhã?
- É sábado. Vocês não prefeririam um programa a dois?
- Esqueces que temos dois filhos?
-Não. Mas não seria a primeira vez que os deixavam com os avós.
- Tens razão. Mas fizemos uma "escapadinha" a semana passada, não pudemos abusar que a vida não está para grandes folias. Bom, o que é que resolves? Posso avisar a Ana Clara?
- Telefono-te à tarde. Falei à Anete da tua mulher, e ela ficou muito curiosa, mas conheço-a há pouco tempo, e não sei se ela já tem compromisso, tanto mais que tem um irmão a viver perto, que às vezes a visita. Podem ter combinado algo. E outra coisa, se formos jantar, deves prevenir a tua mulher, da semelhança da minha amiga. Não quero que entre em choque quando a veja.
- Está bem. Então telefona-me logo. Sabes que eu também estou muito curioso? Até logo.
- Até logo, Raul.
Pousou o telefone e ficou pensativo. A história complicava-se. A confiar no que a instituição contara aos pais de Ana Clara, quando esta entrou na instituição já tinha dez meses. E entrou sozinha. Isso afastava a hipótese de as jovens terem sido adotadas por famílias diferentes, e lá se ia a teoria de que os pais de Anete, tivessem escondido da filha, o facto de ser adotada.  Mas então como era possível? E porque é que a jovem, era tão diferente do resto da família? De cenho franzido, procurou no bolso do casaco o seu telemóvel, e ligou para a jovem.




A RODA DO DESTINO - PARTE XVI


- Que se passa contigo, Salvador? Não tens aceitado novos casos,
o cliente da Madeira, está farto de telefonar, e tu não te decides a ir até lá. Estás doente?- Perguntou Raquel, naquela manhã de Sexta- feira. 
- Não se passa nada. A verdade é que há dois anos que não tenho férias e começo a estar cansado.
- É? Que alegria. Pelo menos agora sei que afinal o incansável Salvador Rodrigues é afinal um ser humano, capaz de sentimentos tão comuns aos restantes mortais. Confesso que até agora tinha as minhas dúvidas.
- Deixa-me em paz, - resmungou mal-humorado. Não tens nada para fazer?
- Pronto, já vou. Só preciso de saber, se devo informar os clientes de que não estás.
- Até ordem em contrário sim.
-Mesmo para o cliente da Madeira?
-Sim. Diz-lhe que só volto segunda-feira.
Com a confiança que lhe dava o facto de conhecer o chefe desde criança, Raquel disse:
-Sabes uma coisa? Isso não é cansaço. É mau humor mesmo. Deve haver moira na costa, - e apressou-se a sair fechando a porta atrás de si. Salvador dirigiu-se à janela e ficou observando a rua. Era algo que fazia sempre que alguma coisa o incomodava.
 A imagem de Anete, não lhe saía da cabeça, fazendo com que não conseguisse concentrar-se no trabalho. Interrogava-se a si mesmo sobre o motivo. Pela primeira vez desse há anos sentia vontade de estar com uma mulher, de sair com ela, conversar, dançar. Não que ele não estivesse habituado a sair com mulheres. Saíra com muitas. Tinha trinta e três anos, uma carreira de sucesso, e se não se considerava um Adónis, tinha consciência de que possuía um bom físico e um rosto agradável. Isso aliado à carteira recheada, eram atributos que a maioria das mulheres apreciava. E ele sabia como utilizá-los, para tirar disso o maior prazer. Sem promessas nem compromissos. Porém há muito tempo que não se sentia tão atraído por uma mulher como o estava por  Anete. Era como se com ela revivesse a antiga paixão que sentira por Ana Clara. E isso não era correto para com a jovem, mas também não era bom para ele. Não tinha vontade de voltar a sentir aquele sentimento que tanto lhe fizera sofrer Dizia a si mesmo, que a razão daquela inquietação, era derivado do facto de acreditar que a jovem e a sua cunhada, eram gémeas. E que o seu único interesse era conseguir provar isso. Mas seria possível descobrir a história do nascimento das duas, vinte e oito nos depois? E se o descobrisse, isso iria fazer bem, ou mal às duas jovens, uma vez que ia destruir tudo  aquilo em que acreditaram a vida inteira.
O telefone tocou. Atendeu irritado.
-Eu disse que não estava, Raquel…
-Nem mesmo para o teu irmão?
-Está bem, passa a chamada

Gente, estou sem internet, o tecnico so vem sábado entre  as 9 e as11. Estou com o Smartphone. Espero conseguir publicar isto.

5.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XV



Pouco passava das onze horas, quando Salvador entrou na loja do irmão.  Celeste, a empregada mais antiga, e que o conhecia bem, largou a arrumação da prateleira, e dirigiu-lhe um sorriso cheio de simpatia
- Bom dia Celeste. O meu irmão está?
- Bom dia. No escritório.
- Obrigado. Conheço o caminho, - disse dirigindo-se para as traseiras onde o irmão tinha o escritório.
Bateu na porta com os nós dos dedos e entrou. O irmão levantou os olhos do computador, e ao vê-lo levantou-se.
- Ora viva, quem se digna visitar os pobres. É o teu dia de caridade hoje? - Perguntou com um sorriso alegre ao mesmo tempo que recebia o abraço de Salvador, a quem não via há quase um mês. Senta-te. E conta-me o que te traz por cá.
-Tens algum tempo livre? Preciso falar contigo, sobre um assunto sério que me tem trazido ocupado desde o início do mês.
- Assustas-me. É alguma coisa com o pai? Está doente?
- Não. Não tem nada a ver com o pai, mas com uma amiga minha.
- E o que tem essa tua amiga? Estás apaixonado por ela?
- Não. Ou pelo menos julgo que não. É outra coisa. Vou mostrar-te uma foto dela.
Estendeu-lhe o telemóvel, e esperou a reação do irmão.
A curiosidade com que Raul, olhou para a foto, logo foi substituída pela surpresa para acabar se tornando em fúria. Largou o telemóvel e cerrou os punhos enquanto semicerrava os olhos e o seu rosto empalidecia. Salvador que o observava, não pode deixar de pensar: “ O meu irmão é demasiado expressivo. Na minha profissão seria um desastre”. 
- Que raio de brincadeira é esta, Salvador? Quando é que estiveste com a minha mulher?
- Não é a tua mulher, - a sua voz calma contrastava com a ira de Raul. Por favor acalma-te. Essa é a minha amiga, e a fotografia foi tirada ontem à noite quando fomos jantar. Trata-se de Anete Sampaio, nascida em Leiria, a 16 de Maio, há vinte e oito anos atrás. Confesso que quando a encontrei e falei com ela a primeira vez, pensei que se tratava de Ana Clara, e fiquei furioso, quando ela me perguntou se era uma tática de engate, e me disse que não me conhecia de lado nenhum. Pensei que estava a brincar comigo, e tive que ver os seus documentos para acreditar que não era a tua mulher. 
Raúl deixou-se cair na cadeira, pegou no telemóvel e voltou a observar a foto, incrédulo.
Salvador continuou:
-Esse é o assunto que me trouxe aqui. Estou convencido, de que a minha amiga e a tua mulher, são gémeas. Além da semelhança física, vi um dos irmãos da Anete e não são nada parecidos. Quando lhe chamei a atenção para o facto, disse que ela é a única morena na família. Queria que me ajudasses a desvendar este mistério. Sabemos que a tua mulher foi adotada. Anete não, ou se o foi desconhece o facto. Ela sabe que tenho uma cunhada muito parecida com ela, devido à forma que nos conhecemos. Mas a tua mulher, não sabe que existe uma cópia dela na cidade.
- E o que é que eu posso fazer? Contar-lhe?
- Não. Na verdade o que eu pretendia, era que sondasses os teus sogros. Vocês dão-se bem. Podias saber se no orfanato lhes falaram de que Ana Clara tivesse tido uma irmã gémea. Só devemos dizer alguma coisa às duas, quando tivermos uma certeza absoluta. O ideal seria um exame de ADN, mas se tu podias com facilidade conseguir, alguns fios de cabelo na escova da Ana Clara, eu não poderia fazer o mesmo com Anete.
-Vou falar com eles o mais breve possível. Depois telefono-te.
Salvador despediu-se e abandonou o escritório, deixando o irmão ainda incrédulo.

4.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XIV


Ainda o sol não tinha nascido, quando Anete acordou. Levantou-se, e ao encaminhar-se para a casa de banho, reparou no vestido, que largara de forma negligente em cima de uma cadeira. Olhá-lo, recordou-lhe o jantar do dia anterior, e o homem que a levara a jantar.
Não havia dúvida de que Salvador era um homem muito interessante. Havia um não sei quê de mistério nele que a atraía e a repelia ao mesmo tempo. Aquela história sobre a cunhada e a confusão gerada, tão depressa lhe parecia autêntica como completamente inverossímil. E se na véspera a possibilidade de saber mais sobre ele no jantar a tinha entusiasmado, a verdade é que o jantar fora nesse aspeto uma desilusão. Ele levara-a a falar da sua vida, quase sem ela se aperceber, enquanto ele não dissera mais do que o que lhe tinha dito de manhã. Tinha sido educado, gentil mesmo, mas ela não conseguira decifrar a expressão dos enigmáticos olhos cor de âmbar, que por vezes escureciam e se assemelhavam ao doce chocolate.
Trocaram números de telefone, passaram a tratar-se por tu, e despediram-se com a promessa verbal de voltarem a sair juntos outro dia. Mas será que isso iria acontecer? Os sentimentos de Anete eram muito confusos. Ela gostaria de voltar a sair com ele. O seu toque quando lhe segurou no braço, pôs-lhe o corpo a tremer e fez-lhe sonhar com coisas nunca experimentadas. Mas ao mesmo tempo, temia o aprofundar daquela amizade. Para desastre já lhe bastava o anterior casamento. Tinha vinte e oito anos, gostaria de formar uma família, ter filhos. O seu ideal de vida sempre fora, ter três filhos como a sua mãe. Mas os anos passaram rapidamente, e dentro de poucos anos o seu relógio biológico deixaria de funcionar. A natureza não fora benéfica para as mulheres. Era uma injustiça, que os homens pudessem ser pais em qualquer idade, e as mulheres estivessem limitadas a tão poucos anos. Enquanto tomava duche, pensou que se estava a afastar daquilo que naquele momento era a sua prioridade. Conseguir um emprego. Tinha amealhado algum dinheiro, mas uma boa parte já se fora, na compra da mobília,  loiças e eletrodomésticos. Montar uma casa, ainda que simples e pequena como a dela, sai caro, e não queria ter que recorrer aos pais, para a sua subsistência. 
Anete não tinha um curso superior. Dera os estudos por terminados no fim do secundário. Gostava muito de artesanato, e antes do casamento trabalhara nisso com algum sucesso. Agora gostaria de algo diferente. Gostava do contacto com pessoas, pelo que uma loja talvez fosse o ideal. Mas a agência tinha-lhe proposto outra coisa.
Acabou de se arranjar e olhou-se no espelho. A imagem devolvida agradou-lhe. Procurou a carta que lhe tinham dado na agência de emprego, meteu-a na mala, e saiu, dirigindo-se ao metro. Uma conhecida clínica esperava-a.




3.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XIII






 Algumas horas mais tarde, Salvador, preparava-se para alinhar todos os passos a seguir. Aquele jantar, tinha sido muito proveitoso. Anete era uma jovem encantadora, mas demasiado inocente, para um advogado tão experiente como ele, habituado a descobrir até o que lhe queriam esconder.  Ele não acreditava em coincidências, e a jovem dera-lhe a pista, quando lhe dissera, que era a única pessoa morena na família.  A sua intuição dizia-lhe que a história de vida, da jovem, estava ligada à da sua cunhada. Como a data de nascimento era a mesma, e o local também, só havia duas hipóteses. Prima, o que tinha ficado descartado, quando a jovem lhe contou que seus pais eram filhos únicos, ou irmã gémea. E nesse caso, como é a jovem não sabia que era adotada? Ele sabia que certos pais, escondiam dos filhos esse facto, para que não se sentissem inferiores aos filhos biológicos. Seria esse o caso? E como é que a instituição tinha separado duas gémeas idênticas?
Durante o jantar ele ficara a saber quase tudo sobre a jovem. O que ela não lhe contou, ele adivinhou nas entrelinhas. Tinha tido uma infância feliz, mimada e protegida por pais e irmãos. Casara com um vizinho, mas o casamento não dera certo, segundo ela por excesso de amizade e falta de amor. Sobre esse ponto não conseguira arrancar-lhe mais nada, mas ficou claro que não aparentava estar a sofrer por causa disso.
Usando discretamente o telemóvel, como se fora atender uma chamada, conseguira fotografá-la, quando no fim de jantar, se levantou para ir à casa de banho.
Sentado na cama, observava a fotografia pensativo. Com exceção de quando pensou que a cunhada tinha um amante, nunca na sua vida se tinha sentido tão indeciso. Teria ele, direito a mexer naquela história, correndo o risco de desestruturar duas famílias?  Decerto que não. Mas por outro lado teria o direito de deixar que as irmãs, continuassem na ignorância da sua própria história? 
E se tudo não passasse de uma incrível coincidência?  Passou a mão pela testa, como se com isso afastasse aquele pensamento. Não. Ainda se as jovens tivessem nascido em cidades diferentes, poderia pensar em coincidência. Mas no mesmo dia, e na mesma cidade? Impossível.
O passo a seguir, era mostrar a fotografia ao irmão, e juntos decidirem o que fazer.  Talvez Raul conseguisse alguma informação junto dos sogros.  E pedir uma cópia do registo e nascimento da jovem. As adoções costumam ser averbados ao registo de nascimento. Olhou o relógio. Quase duas da manhã. Pousou o telemóvel na mesa-de-cabeceira, levantou-se e dirigiu-se à casa de banho. Precisava tomar um duche a fim de relaxar, e enfim dormir.                                                                                          

A RODA DO DESTINO - PARTE XII






Desceu às oito em ponto. Envergava um vestido azul escuro, de corpo bordado, e ampla saia rodada. O comprimento ligeiramente acima dos joelhos, dava destaque às compridas e bem torneadas pernas, que os sapatos de salto alto, tornavam mais elegantes. Sobre os ombros uma jaqueta curta em tom pérola. Prendera o cabelo num coque, o que deixava a descoberto a linha longa e fina do seu gracioso pescoço. O belo rosto apresentava uma maquilhagem muito ligeira. Era uma mulher muito bonita e tinha consciência disso.
Salvador que se encontrava no passeio junto ao carro, aproximou-se de mão estendida.
-Boa noite. Está linda!
- Obrigada. Não tinha a certeza se já tinha chegado. Porque não tocou?
- Porque não me disse, qual era o seu apartamento.
- Que distração a minha! Segundo direito.
- Não esquecerei. Vamos?
Colocou-lhe a mão no ombro e encaminharam-se para o carro.
Salvador, abriu-lhe a porta, esperou que se acomodasse, e só depois a fechou, deu a volta ao carro e sentou-se ao volante.
Arrancou suavemente e durante um longo minuto manteve-se em silêncio, apenas observando a sua companheira, pelo canto do olho. Quanto mais a observava, mais se convencia que aquela jovem e a sua cunhada, estavam de algum modo ligadas. Não podia ser só coincidência. As duas juntas e vestidas de igual, nem a mãe seria capaz de as distinguir.
- Em que pensa? Não me diga que continuo parecida com a sua cunhada.
-Como duas gotas de água.
- Que pena não ter uma fotografia dela. Despertou-me a curiosidade.                
- Prometo que em breve lhe trago uma fotografia de Ana Clara.
Salvador, dirigiu-se para Belém. Considerava a zona, uma das mais bonitas da cidade, com o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, e todo o enorme jardim que separa os dois monumentos. Uma zona ideal para caminhar um pouco depois do bom jantar que os esperava no "Ânfora", onde tinha reservado mesa.
 Estacionou o carro e apressou-se a rodeá-lo para lhe abrir a porta, mas Anete simplesmente abriu a porta e saiu, antes que ele tivesse tempo de a ajudar.
Estava uma noite linda, embora um pouco fria, pois o outono já se fazia sentir. Anete aconchegou a jaqueta ao corpo e poisou a sua mão no braço que Salvador lhe oferecia, encaminhando-se ambos para o restaurante.




Atenção
Têm-me pedido capítulos mais longos. Percebo a vossa curiosidade, mas capítulos longos cansam, e eu tenho estado a publicar dois por dia, o que acaba sendo  como um grande.  

2.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XI




Já em casa, depois de lhe terem trazido e instalado, as duas máquinas de lavar roupa e loiça, Anete preparou-se para almoçar. Preocupada com o que lhe tinha acontecido nessa manhã, e sem muita fome, retirou do frigorífico uma sopa de legumes que aqueceu no micro-ondas. Enquanto a saboreava,  não deixou de pensar em Salvador e em tudo o que ele lhe disse. A princípio, não acreditou naquela confusão. Pensou que se trataria de um velho truque para meter conversa. Mas depois, a raiva que viu nos olhos dele, toda aquela conversa de traição, era uma história demasiado maluca para ser inventada. E depois a data do suposto encontro, coincidia com a data da visita do seu irmão. Suspirou.
Salvador era um homem muito atraente, e o seu toque mexeu com ela. Que faria ele na vida? Pelas suas roupas, devia viver bem. E como seria a sua vida pessoal? Não usava aliança, ela reparara, mas na atualidade, isso não queria dizer nada. Podia perfeitamente ser casado, ou estar numa qualquer relação.  
Acabou de arrumar a cozinha. Foi buscar a roupa suja para colocar na máquina. Não era muita, na semana anterior tinha-a mandado à lavandaria. Sabia que deveria pôr a carga máxima, para evitar desperdícios de água e energia, mas aquele modelo, tinha programa para meia carga e ela estava desejando experimentá-la.
"Toma juízo, Anete. Estás tão nervosa, como uma adolescente antes do primeiro encontro. Tens vinte e oito anos, e um casamento falhado. Não tens razão para esse nervosismo todo," - recriminou-se enquanto punha o detergente na máquina e a ligava.  
Não adiantava. Pensou sair, mas desistiu. E se ligasse à mãe e lhe contasse o que se passava? Aquela hora, a mãe costumava estar na saleta com o seu croché. O pai estava no trabalho. Conversar com a mãe, era a melhor maneira, de passar um bom pedaço de tempo. Impulsiva, pegou no telemóvel e discou o número.
- Olá mãe.- Saudou.
- Filha, que alegria. Não estava à espera de que ligasses a esta hora. Ligas sempre à noite. Aconteceu alguma coisa?- Perguntou inquieta.
- Não te preocupes. Queria só contar-te algo muito estranho que me aconteceu hoje. Acreditas que exista em Lisboa, uma mulher igualzinha a mim?
A mãe não respondeu. Será que a ligação caíra?
- Está? Mãe?
- Sim filha, estou aqui. O vizinho anda em obras, está a partir a cozinha, está um barulho infernal, porque não ligas logo à noite? Tenho dificuldade em te ouvir.  Dizias…
-Que existe na cidade uma mulher tão parecida comigo que as pessoas nos confundem. Ia contar-te uma coisa, que me aconteceu esta manhã, mas esquece, fica para outro dia. Beijos mãe


                                         

A RODA DO DESTINO - PARTE X




Salvador chegou ao escritório pouco passava das três.
- Boas tardes Raquel. 
- Boas tardes. Foi rápida essa ausência. 
-  Não me passes chamadas, continuo fora.
-  Aconteceu alguma coisa?
- Nada que se relacione com o trabalho. Preciso analisar uns dados. Por favor não me interrompas.
- Certo, chefe. Não te vi, não sei onde estás, nem quando voltas. Avisa-me quando regressares. 
Não respondeu. Entrou no seu gabinete e fechou a porta.  Despiu o casaco, que pendurou no cabide junto à porta e sentou-se.  O que tinha acontecido nessa manhã era incrível.  Era como se ele estivesse num filme de ficção científica.Se acreditasse em teorias esquisitas, diria que tinha encontrado o clone de Ana Clara.
Como era possível, duas pessoas tão iguais? Não era só no físico que eram iguais. Eram-no também no tom ligeiramente rouco e na doçura da voz, na expressividade do rosto, nos movimentos das mãos, quando falavam. 
Mais assombroso ainda, terem exatamente a mesma idade. E quase que tinha a certeza de ouvir a cunhada dizer que tinha nascido em Leiria. 
Coitada da Ana Clara. Nunca saberia quão perto ele estivera, de lhe arruinar a vida. Ainda bem que não tomara nenhuma atitude irreparável, como dizer ao irmão, que a mulher o traía.
E Anete? Quem seria ela na realidade? Ela tinha dito que tinha chegado à cidade à pouco tempo. Tinha vindo sozinha, uma vez que o irmão viera ver se estava bem. Mas o que leva uma mulher linda a deixar tudo para trás e mudar de cidade? Normalmente uma destas três coisas. Uma promoção de carreira, uma desilusão de amor, ou o querer estar perto de um grande amor.
Ela não seria comprometida, uma vez que aceitara o seu convite para jantar. Logo o terceiro item estava fora de questão. Em qual dos outros dois se enquadraria?
E, que juízos faria ela da sua atitude?
Ele gostara dela. Mas gostara mesmo, ou gostara da ideia de ter encontrado uma versão de Ana Clara, que gostaria de ter para si? Para ser sincero consigo mesmo, receava, que à vista da jovem, o antigo amor que sentira pela cunhada, e que sepultara no peito quando ela escolhera o seu irmão para companheiro de vida, encontrasse o caminho de volta para a superfície.
Não tinha nenhuma fotografia de Ana Clara. Nunca quisera trazer nenhuma consigo.  Se a tivesse, ia sentir que estava a atraiçoar o irmão sempre que a olhasse e sonhasse com aquilo que poderia ser a sua vida, se Raul não se tivesse cruzado no seu caminho. Agora tinha pena de não a ter. Gostaria de a mostrar a Anete. Mas talvez aquele jantar não fosse o último. Se voltassem a encontrar-se, se ficassem amigos, talvez a levasse a casa do irmão. Ia gostar de ver a cara das duas se um dia se encontrassem.
  


1.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE IX




Sentaram-se numa mesa junto à janela. O rosto de Anete estava sereno, o de Salvador crispado. Um empregado aproximou-se, e ambos pediram um café e uma garrafa de água. Depois que ele se afastou, Anete abriu a mala e dela extraiu a carteira e o telemóvel, que colocou em cima da mesa. O empregado aproximou-se com os cafés, e ela esperou que se afastasse para retirar da carteira, a sua carta de condução e o cartão de cidadão.  
- Aqui tem os meus documentos. Como lhe disse, sou Anete Sampaio, filha de Francisco Sampaio e Emília Sampaio. Pode confirmar. No telemóvel tenho fotos dos meus pais e dos meus dois irmãos, cunhada e sobrinhos, se ainda tiver dúvidas, posso mostrar-lhas.
Falou sem afastar os olhos do homem que mirava os documentos com um ar de total incredulidade.
- Desculpe a minha crueldade, - disse devolvendo os documentos. Ainda estou espantado. Nunca vi duas pessoas tão iguais
- Desculpas aceites senhor…
- Salvador Rodrigues, - disse estendendo-lhe a mão com um meio sorriso.
Ela apertou-lhe a mão, e sentiu um estranho formigueiro, percorrendo-lhe o corpo. Sorriu tentando disfarçar.
- Posso saber porque desconfiou da sua cunhada?
- Há umas duas semanas, o trânsito estava muito congestionado, quando conduzia por esta rua. Então, vi-a no passeio. Ia com um homem alto, que a enlaçava pelos ombros, e entraram ali no número setenta e sete. Para mim era a minha cunhada e aquilo só podia dizer que tinha um amante. Lutei muito comigo mesmo, indeciso entre contar ou não ao meu irmão o que se passava, mas pensando nos meus sobrinhos, decidi enfrentar Ana Clara e fazê-la reconsiderar. Fica claro agora, que seria a Anete, mas ainda me custa a crer que existam duas pessoas tão iguais.
- Há duas semanas eu recebi a visita do meu irmão Luís. Havia pouco tempo que tinha chegado à cidade, e ele veio ver como eu estava, e se precisava de alguma coisa.
- Não era parecido consigo…
- Realmente não - disse sorrindo. Eu sou a única morena na família. Segundo a mãe, sou parecida com a avó paterna, que também era morena. Infelizmente a avó já morreu. Que idade tem a sua cunhada?
- Fez vinte e oito a dezasseis de Maio.
-Não pode ser. Eu fiz vinte e oito anos, nesse dia. E onde nasceu a sua cunhada?
- Pois creio que em Leiria, mas não tenho a certeza. Ana Clara foi adotada.
- Eu e os meus irmãos, nascemos em Leiria, mas meus pais foram viver para Coimbra pouco tempo depois do meu nascimento. Sabe de uma coisa, gostaria muito de conhecer a sua cunhada. Não tem nenhuma fotografia dela?
- Não - disse com brusquidão. Só do meu irmão e sobrinhos.
Olhou o relógio.
- Quase uma hora. Aceita almoçar comigo? Seria uma boa maneira de me mostrar que não está zangada pela maneira como a tratei.
- Não posso. Tenho que estar em casa, dentro de vinte minutos. Ainda estou a mobilar o apartamento e ficaram de me entregar uns eletrodomésticos à uma.
- E se vier buscá-la para jantar? Também vai arranjar desculpa?
- Aceito o jantar – disse pondo-se de pé. 
-Às oito? - Ele levantara-se, e aprestava-se a segui-la.
- Estarei pronta.
Voltou-lhe as costas e saiu.


LEMBRO AOS MEUS AMIGOS PORTUGUESES QUE HOJE É DIA DE ELEIÇÕES. VOTAR É UM DEVER DE CIDADANIA, E É TAMBÉM UM DIREITO PELO QUAL OS NOSSOS ANTEPASSADOS DERRAMARAM O SEU SANGUE. HONREMOS A SUA MEMÓRIA COM A NOSSA PRESENÇA NAS URNAS.