-Bom dia, Raul. Tudo bem?
- Tudo. Quando vais lá a casa? Os
teus sobrinhos não se cansam de perguntar por ti.
- Um dia destes. Também já tenho
saudades daqueles diabretes. E então? Tens novidades?
- Não. Falei com os meus sogros. Eles
só sabem que a Ana Clara foi entregue à instituição pela própria mãe, que se encontrava
gravemente doente. A menina tinha dez meses, e a mãe morreu pouco tempo depois.
Ninguém lhes falou de qualquer irmã, gémea ou não. Queres um conselho? Esquece
essa história.
- Não consigo. Não é possível,
duas pessoas assim tão iguais sem qualquer relacionamento entre si.
- Tu nunca ouviste falar de
sósias? Não têm vínculos familiares e às vezes nascem separadas por um
continente.
-Sei. Sósias são pessoas muito
parecidas, e não são iguais, como estas duas. Tu não viste Anete, senão em
foto. Até no andar, e nos gestos, é igual. E não nasceu no outro lado do mundo.
Nasceu na mesma cidade e no mesmo dia.
- Estive a pensar, porque é que
não levas a tua amiga, a jantar lá a casa amanhã?
- É sábado. Vocês não prefeririam
um programa a dois?
- Esqueces que temos dois filhos?
-Não. Mas não seria a primeira
vez que os deixavam com os avós.
- Tens razão. Mas fizemos uma "escapadinha" a semana passada, não pudemos abusar que a vida não está para
grandes folias. Bom, o que é que resolves? Posso avisar a Ana Clara?
- Telefono-te à tarde. Falei à
Anete da tua mulher, e ela ficou muito curiosa, mas conheço-a há pouco tempo, e
não sei se ela já tem compromisso, tanto mais que tem um irmão a viver perto, que às vezes a visita. Podem ter combinado algo. E outra coisa, se formos jantar, deves prevenir a tua mulher, da semelhança da minha amiga. Não quero que entre em choque
quando a veja.
- Está bem. Então telefona-me
logo. Sabes que eu também estou muito curioso? Até logo.
- Até logo, Raul.
Pousou o telefone e ficou pensativo.
A história complicava-se. A confiar no que a instituição contara aos pais de
Ana Clara, quando esta entrou na instituição já tinha dez meses. E entrou
sozinha. Isso afastava a hipótese de as jovens terem sido adotadas por famílias
diferentes, e lá se ia a teoria de que os pais de Anete, tivessem escondido da
filha, o facto de ser adotada. Mas então como era possível? E
porque é que a jovem, era tão diferente do resto da família? De cenho franzido,
procurou no bolso do casaco o seu telemóvel, e ligou para a jovem.
