- Boas tardes Raquel.
- Boas tardes. Foi rápida essa ausência.
- Não me passes chamadas, continuo fora.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não me passes chamadas, continuo fora.
- Aconteceu alguma coisa?
- Nada que se relacione com o trabalho. Preciso analisar
uns dados. Por favor não me interrompas.
- Certo, chefe. Não te vi, não sei onde estás, nem quando
voltas. Avisa-me quando regressares.
Não respondeu. Entrou no seu gabinete e fechou a porta. Despiu o casaco, que pendurou no cabide junto
à porta e sentou-se. O que tinha
acontecido nessa manhã era incrível. Era como se ele estivesse num filme de ficção científica.Se acreditasse em teorias esquisitas, diria
que tinha encontrado o clone de Ana Clara.
Como era possível, duas pessoas tão iguais? Não era só no
físico que eram iguais. Eram-no também no tom ligeiramente rouco e na doçura da
voz, na expressividade do rosto, nos movimentos das mãos, quando falavam.
Mais assombroso ainda, terem exatamente a mesma idade. E quase que tinha a certeza de ouvir a cunhada dizer que tinha nascido em Leiria.
Mais assombroso ainda, terem exatamente a mesma idade. E quase que tinha a certeza de ouvir a cunhada dizer que tinha nascido em Leiria.
Coitada da Ana Clara. Nunca saberia quão perto ele estivera, de lhe arruinar a vida. Ainda bem que não tomara nenhuma atitude
irreparável, como dizer ao irmão, que a mulher o traía.
E Anete? Quem seria ela na realidade? Ela tinha dito que tinha chegado à cidade à pouco tempo. Tinha vindo sozinha, uma vez que o irmão viera ver se estava bem. Mas o que leva uma mulher linda a deixar tudo para trás e mudar de cidade? Normalmente uma destas três coisas. Uma promoção de carreira, uma desilusão de amor, ou o querer estar perto de um grande amor.
Ela não seria comprometida, uma vez que aceitara o seu convite para jantar. Logo o terceiro item estava fora de questão. Em qual dos outros dois se enquadraria?
E, que juízos faria ela da sua atitude?
Ela não seria comprometida, uma vez que aceitara o seu convite para jantar. Logo o terceiro item estava fora de questão. Em qual dos outros dois se enquadraria?
E, que juízos faria ela da sua atitude?
Ele gostara dela. Mas gostara mesmo, ou gostara da ideia
de ter encontrado uma versão de Ana Clara, que gostaria de ter para si? Para ser sincero consigo
mesmo, receava, que à vista da jovem, o antigo amor que sentira pela cunhada, e que sepultara no
peito quando ela escolhera o seu irmão para companheiro de vida, encontrasse o caminho de volta para a superfície.
Não tinha nenhuma fotografia de Ana Clara. Nunca quisera trazer nenhuma consigo. Se a tivesse, ia sentir
que estava a atraiçoar o irmão sempre que a olhasse e sonhasse com aquilo que
poderia ser a sua vida, se Raul não se tivesse cruzado no seu caminho. Agora
tinha pena de não a ter. Gostaria de a mostrar a Anete. Mas talvez aquele
jantar não fosse o último. Se voltassem a encontrar-se, se ficassem amigos,
talvez a levasse a casa do irmão. Ia gostar de ver a cara das duas se um dia se
encontrassem.
