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26.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE XIII


A avó viu-a entrar. Leu-lhe o desespero no olhar. Uma sombra de tristeza, perpassou-lhe pelos olhos cansados. Conhecia aquele filme. Tinha-o visto dez anos antes. E dessa vez ficou cinco anos sem ver a neta. Se a história se repetia, tinha a certeza de que nunca mais a veria. Esperou um pouco e seguiu-a. Ouviu o choro da jovem. Abriu a porta, e sentando-se na cama, perguntou:

11.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXV


foto google



Tanto o cabeleireiro, como o edifício dos correios, e o seu apartamento,   ficavam no mesmo quarteirão, e por isso Isabel não tinha levado carro. Recordou a conversa recente no escritório. 
Era Sexta-feira,  e ela sabia que este era o dia, que normalmente os jovens escolhem para sair à noite. Isabel, raramente saía à noite.
Não lhe apetecia ver os casalinhos a divertirem-se. Não que sentisse inveja deles. O que sentia era pena dela, e esse era um sentimento de que não gostava. Sabia que era uma mulher bonita. Estava habituada a ver a admiração nos olhares masculinos. Mas aproximava-se dos quarenta e começava a pesar-lhe a solidão. Onde estava a vida com que sonhara na juventude? Onde os filhos que desejara? Todas as suas amigas da faculdade tinham casado, tinham filhos.  Só ela continuava sozinha, presa às suas dolorosas recordações. Bom, para ser sincera consigo mesma, a verdade é que desde aquele dia na praia, as recordações, já não eram tão dolorosas assim. Quem seria aquele homem que lhe roubara o sossego? Seria que algum dia ia voltar a encontra-lo?
Absorta virou a esquina e esbarrou em alguém, deixando cair os envelopes. Murmurou uma desculpa e baixou-se para os apanhar. O homem fez o mesmo e ao fazê-lo as suas mãos tocaram-se. Apressou-se a levantar-se e nesse momento a voz rouca soou trocista.
- Você? Vejo que é seu hábito, andar sempre distraída.
Os olhos cinzentos do homem fixaram-na com tal intensidade, que ela teve a nítida sensação de que ele lia nela, como num livro aberto. Corou. O homem franziu as sobrancelhas e semicerrou os olhos.
- Desculpe - disse ela voltando-lhe as costas, e tentando afastar-se rapidamente do local.
- Espere. A sua mão forte agarrou o braço de Isabel, obrigando-a a parar. Não acha que nos devíamos apresentar? Afinal de contas para quem anda por aí a esbarrar um no outro, não podemos continuar desconhecidos. Chamo-me Luís. Luís Teixeira.
Estendia-lhe a mão. Morena, forte e cuidada. Isabel não teve outro remédio que fazer o mesmo. A voz saiu-lhe quase inaudível.
- Isabel Mendes
- Hum! Nome de rainha, - disse ele apertando-lhe a mão.
Foi um aperto intenso que fez Isabel tremer da cabeça aos pés como se fora atingida por uma descarga eléctrica. Inutilmente tentava acalmar-se. Tinha a sensação de que o homem ouvia as loucas palpitações do seu coração E ali continuava ele na sua frente a olhá-la fixamente como se quisesse ler, alguma coisa nos seus olhos, felizmente protegidos pelos óculos escuros.
Bruscamente desprendeu-se e quase correu para o edifício dos correios.

3.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE III


                                                     foto do google



O telemóvel tocou e Isabel estremeceu. Nunca podia estar sem comunicação, pois apesar das férias, várias vezes lhe ligavam do escritório. Isabel era  empresária, a sua firma, era uma das melhores da especialidade, e o seu trabalho  absorvia-lhe todo o tempo e energia de que dispunha. Mas ela não se importava.  O trabalho fora para ela o remédio sagrado, que evitara a perda da sua sanidade mental. Atendeu a chamada e durante alguns minutos esqueceu tudo o resto e dedicou-se apenas a dar instruções à sua assistente.
Desligada a chamada, verificou que o ar começava a aquecer e o céu embora nublado estava agora muito mais aberto. Afinal parecia que sempre vinha bom tempo para a praia. Colocou os óculos escuros e olhou para trás. A bolsa com a toalha ficara já muito distante. Tanto longe, que já nem a via. Encolheu os ombros e continuou a caminhada solitária pela praia. Reparou num homem alto que fazia a caminhada em sentido contrário e se aproximava dela. Notava-se que já não era um rapazinho mas apresentava um aspecto atlético e cuidado.
- Mais um solitário, - pensou e continuou a sua marcha.
Enquanto caminhava, deixou que as recordações aflorassem à sua mente. Mentalmente recuou um quarto de século, e viu-se de novo uma jovem de 18 anos, esfuziante de alegria e entusiasmo. Linda, apaixonada e prestes a casar com o homem amado. Lembrou a busca de casa para alugar, a escolha dos móveis, dos cortinados, os sonhos, a preparação da data do matrimónio, tudo partilhado com o namorado. Fernando era o homem amado, o homem que parecia adivinhar os seus pensamentos antes mesmo que ela os expressasse em voz alta.
O homem, avistado antes, cruzava-se agora com ela, e por breves segundos os seus olhares encontraram-se e logo se afastaram seguindo cada um o seu caminho.