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O telemóvel tocou e Isabel
estremeceu. Nunca podia estar sem comunicação, pois apesar das férias, várias
vezes lhe ligavam do escritório. Isabel era empresária, a sua firma, era uma das melhores da especialidade, e o seu trabalho absorvia-lhe todo o tempo e energia de que dispunha. Mas ela não se importava. O trabalho fora para ela o remédio sagrado, que
evitara a perda da sua sanidade mental. Atendeu a chamada e durante alguns
minutos esqueceu tudo o resto e dedicou-se apenas a dar instruções à sua
assistente.
Desligada a chamada, verificou
que o ar começava a aquecer e o céu embora nublado estava agora muito mais
aberto. Afinal parecia que sempre vinha bom tempo para a praia. Colocou os
óculos escuros e olhou para trás. A bolsa com a toalha ficara já muito
distante. Tanto longe, que já nem a via. Encolheu os ombros e continuou a
caminhada solitária pela praia. Reparou num homem alto que fazia a caminhada em
sentido contrário e se aproximava dela. Notava-se que já não era um rapazinho
mas apresentava um aspecto atlético e cuidado.
- Mais um solitário, - pensou e
continuou a sua marcha.
Enquanto caminhava, deixou que
as recordações aflorassem à sua mente. Mentalmente recuou um quarto de século,
e viu-se de novo uma jovem de 18 anos, esfuziante de alegria e entusiasmo.
Linda, apaixonada e prestes a casar com o homem amado. Lembrou a busca de casa
para alugar, a escolha dos móveis, dos cortinados, os sonhos, a preparação da
data do matrimónio, tudo partilhado com o namorado. Fernando era o homem amado,
o homem que parecia adivinhar os seus pensamentos antes mesmo que ela os
expressasse em voz alta.
O homem, avistado antes,
cruzava-se agora com ela, e por breves segundos os seus olhares encontraram-se
e logo se afastaram seguindo cada um o seu caminho.
