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10.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE X


Ana soltou uma gargalhada cristalina
-Pelo amor de Deus. Não posso acreditar nisso.
- Acredita no que quiseres. – Disse com aspereza, voltando-lhe as costas.
Ela franziu o sobrolho. Que se passava com ele? Parecia zangado. Mas porquê?
- Ouve,- agarrou-lhe a manga do casaco mas ele não se voltou. - Que raio se passa contigo. O que foi que eu disse para ficares assim? 
- Desculpa, - era evidente que estava a fazer um enorme esforço para parecer natural. Não foi nada contigo. Sou eu que não ando bem.
Recomeçou a andar pelo jardim. Ela pendurou-se no se braço como quando ele ia busca-la à escola.
-Sabes o que é isso? É solidão. Precisas arranjar alguém. Nunca pensaste em casar?
- Não, - respondeu com voz rouca
- Não entendo. Um homem bonito como tu. Simão… tu és gay?- Perguntou de repente.
- Não. Que disparate é esse, Ana?
- Desculpa. Ocorreu-me que o facto de não pensares em casar e o tempo que levas em Paris sem nos visitar,  podia ser por isso, ou não ?
- Podia. Mas não é. O meu interesse sexual sempre se manifestou pelo vosso sexo.
-Desculpa, mano. Mas insisto. Devias pensar em arranjar alguém. Já passaste dos trinta.
-  Queres fazer o favor de mudares de assunto? Porque é que não me falas antes de ti. Porque é que ainda estás solteira? A mãe disse-me que estavas noiva. Mas vejo-te sozinha
- Acabou.
Havia uma nota triste na voz dela, ou era impressão sua?
- E porque acabou?
- Não interessa.
- A mim, sim.
-Tu és meu irmão, e há coisas que uma mulher não conta a um irmão.
Sentiu uma dor aguda no peito. Era como se lhe tivesse cravado um punhal invisível no coração.

9.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE IX






Chegara finalmente o dia do aniversário de casamento de Francisca e Afonso.
Segundo a vontade dos dois, era uma festa intima, que contava com a presença dos filhos, e netos, dos pais da nora e do genro, e dos dois advogados, do escritório do Afonso com as respetivas esposas.
Simão chegara perto do meio-dia, e os pais estavam muito contentes por tê-lo enfim de volta, após aqueles longos cinco anos.
As prendas que os filhos trouxeram, deixaram-nos encantados, pelo significado de cada uma delas. Uma em especial, tinha-os emocionado. Tratava-se de um quadro, que reproduzia uma foto tirada há muitos anos atrás por Afonso. Francisca, bem mais jovem, estava sentada no sofá, com Ana ao colo, tendo Simão de pé, a seu lado, enquanto João e Marta brincavam no chão à sua frente.
Era um quadro muito enternecedor, e Simão reproduzira fielmente as expressões de cada um, deixando não só os pais mas os próprios irmãos muito emocionados.
Ele próprio, sentia o mesmo. Estava feliz por estar com os irmãos e sentia-se encantado com os sobrinhos. Dos irmãos, Matilde era a que se mostrava mais feliz com a sua presença. Pendurou-se no seu braço e disse que não mais o largaria, se ele não prometesse que voltava para assistir ao seu casamento.
- Claro que virei ao teu casamento, maninha. Mas esperava mais da minha irmã mais nova.
- E que esperavas?- Perguntou sorrindo
-No mínimo que me convidasses para padrinho.
- E como ia fazê-lo se tu nem apareces nem notícias dás? És um mau irmão. – Respondeu como quem amua
- Tens razão, -disse com seriedade. Ultimamente não me tenho portado muito bem convosco. Um pouco pelo trabalho, tenho uma importante exposição dentro de dez dias, mas também um bocado por preguiça. E depois, todas as semanas falo com a mãe, e ela sempre diz que estão todos bem.
- E é sério o que disseste? Queres mesmo ser o padrinho?- Perguntou esperançada. E acrescentou. - Eu ficaria muito feliz.
- Pois então, deixa de me enrolar e faz o convite.
Feliz, ela abraçou-o e disse:
- Obrigado mano. És um anjo. Vou contar à mãe.
Ele deu uma volta pelo salão e depois saiu para o jardim.
Apesar de tudo estava contente por ter vindo. Era sempre um balsamo para o seu coração observar como os pais se amavam e eram felizes.
Um amor assim era o seu sonho de felicidade.
Olhou o baloiço, o escorrega novo, e pensou que os pais deviam ter comprado aqueles para os netos. Mas ele gostaria de ter encontrado os da sua infância.
- Um cêntimo pelos teus pensamentos.
Voltou-se devagar.- Ana sorria-lhe.
- É muito pouco. Merecem mais – disse fixando-a.
Ela riu.
- Estava a observar-te. Estás muito sério. Pensando em alguém que ficou em Paris?
- Não tenho ninguém em Paris.



UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE VIII






Ana, dava voltas e voltas na cama, presa de insónia. E não encontrava explicação para isso. Tinha jantado com a irmã e o futuro cunhado. O jantar estava delicioso, a conversa amena. Depois passaram lá por casa, para verem o álbum. Tinham-se entretido com as recordações que cada foto representava. Matilde acabara levando-o como tinham combinado. Na segunda-feira ela iria à ourivesaria.
Ultimamente quase não se tinha encontrado com os irmãos, cada um preso às suas rotinas, os empregos, as casas, os filhos. A única exceção eram os domingos. Sim porque nesse dia almoçavam todos juntos na casa paterna. 
 Todos exceto Simão. Tinha ido para Paris há anos e por lá ficara. Tinha saudades dele. De todos os irmãos, era Simão aquele de quem mais sentia saudades quando lembrava a sua infância. Ela e Matilde eram as mais novas. E ele estava sempre perto delas. Quando caíam e esfolavam um joelho, quando foram para a escola, quando começaram a sair à noite. Ele era o anjo da guarda delas, sempre pronto a aliviar os seus pequenos desgostos. E quando ele partiu para Paris elas choraram abraçadas, sentindo já a dor da saudade. Depois foram-se habituando à sua ausência.
Durante um tempo, Simão vinha a casa, sempre que algum dos irmãos, ou os pais faziam anos. Mas depois do casamento dos irmãos, nunca mais tinha voltado. Decerto viria para a festa de aniversário do casamento dos pais.
Sabia que era uma data muito importante para eles. Como estaria ele?  Viria sozinho? Traria mulher? Quem sabe, se teria casado, sem a família saber.
Deu mais uma volta na cama, recordando o recente rompimento do seu quase noivado.
Pensava ter encontrado por fim o amor. Mas foi mais uma desilusão. Tudo ia bem, enquanto a intimidade não entrou em jogo. Quando isso aconteceu…
Ela não era uma adolescente romântica. Não sonhava com um amor platónico.  Não acreditava no amor sem sexo,  como não não acreditava  no sexo, apenas como uma necessidade física. Para ela um era o complemento do outro.
E ela não seria capaz de repetir a experiência com Paulo.  
Talvez fosse demasiado exigente. Mas, ou encontrava o que queria, ou ficava solteira o resto da vida.



                                           

8.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE VII





 Dirigiu-se ao sofá. Pegou na camisa anteriormente atirada para ali, sacudiu-a e pendurou-a no bengaleiro, Despiu as calças e fez o mesmo. Depois, encaminhou-se para a casa de banho.
Enquanto escovava os dentes lançou uma mirada rápida ao espelho. Tinha trinta e um anos e sentia-se velho. Nada na vida lhe interessava, a não ser a pintura. Ela era de momento o único sentido que encontrava para a sua existência. Desde que descobrira, a força do amor que trazia dentro do peito, sentia-se o maior dos canalhas.
Como é que aquilo tinha acontecido com ele? Desde menino sempre fora muito responsável. Inteligente e com muito gosto pelas artes. Por isso, na hora de escolher o seu futuro, escolhera Belas-Artes. Depois do curso acabado viera para Paris. Inicialmente, não pensava ficar mais de seis meses. Mas aí os seus irmãos João e Marta casaram. Os dois eram muito unidos. Quando eram crianças, estavam sempre juntos nas brincadeiras. Engraçado que começaram a namorar quase ao mesmo tempo e na hora de casar, tinham decidido fazer a cerimonia, juntos. 
Tudo aconteceu na festa desse duplo casamento, há cinco anos atrás. Ela estava linda. E apresentara-lhe o noivo. Depois, graciosamente abraçara-o e perguntara se não queria dançar com ela. Antes tivesse dito que não. Mas nessa altura, ele ainda não tinha descoberto que a amava. Descobriu-o com a reação do seu corpo enquanto ela confiante se deixava levar por ele, embalada pela música. 
Com a dor que sentiu no peito, quando pensou que nunca seria sua.
Depois daquela descoberta, procurou afastar-se dela. E nessa mesma noite decidiu que ia ficar a viver em Paris. Teve que lutar contra os argumentos do pai, e a ternura da mãe. No dia da partida, quando se despediam, e ele se dispunha a depositar no seu rosto um casto beijo de despedida, a mãe disse qualquer coisa, e ao tentar virar-se o beijo que ele  lhe ia depositar no rosto, aflorou a sua boca. Foi qualquer coisa tão leve como um suspiro, e tão suave como o roçar de uma pena. Ela mal o deve ter sentido, e não lhe ligou qualquer importância, mas ele carregava aquela memória, como um estigma.
Estendeu-se no sofá. Queria dormir. Esquecer tudo o que o atormentava. Mas a memória não lhe obedecia.
Tinham passado cinco anos e desde então, não voltara a casa. Agora tinha de ir. Os seus pais faziam vinte e cinco anos de casados. Eram as suas bodas de prata. Ele não podia faltar. Se o fizesse, eles sentir-se-iam rejeitados. A mãe, ficaria muito magoada. E Afonso, também não merecia. Ele fora para ele o mais amoroso, compreensivo e amigo, dos pais. Nunca em qualquer momento da sua vida, sentiu que ele não era o seu pai biológico. Com o seu irmão João fora igual. Era um homem admirável que sempre se preocupou não só com a felicidade da esposa, como com a dos seus filhos. Por tudo isso ele sabia que tinha de ir. Mas não sabia se teria forças para continuar a amordaçar o coração. Extenuado acabou por adormecer.



Aos que por aqui passam, votos de um feliz e luminoso fim de semana

6.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE VI




O homem semicerrou os olhos, analisando o ambiente que o rodeava. Na pista, vários casais dançavam alegremente como se estivessem celebrando a própria vida.
Pela quinta vez, a mulher perguntou:
- Vamos dançar, querido?
Esboçou um gesto de impaciência. Desagradava-lhe a insistência feminina. 
Naquele sábado tinha decidido misturar-se na multidão que se divertia. Entrara ali como podia ter entrado em qualquer outro recinto semelhante. Mas já se cansara.
Pousou o copo e levantou-se. Era um homem alto, bem proporcionado. Vestia umas calças justas, pretas, e uma camisa solta por fora das calças. Era moreno de cabelos e olhos escuros.
-Já vais embora?- perguntou a mulher que antes o interrogara.
- Já. Lamento não corresponder às tuas expectativas. Não me apetece dançar.
- Que pena! Ia gostar de te conhecer melhor.
Não respondeu. No fundo estava desejando sair dali.
Na rua, parou por breves instantes, aspirando profundamente o ar noturno. Depois encetou o caminho de regresso ao seu estúdio, seguindo pela margem do Sena, observando o movimento dos pares de namorados que por ali passeavam, entre silêncios e beijos. Tão diferente do movimento de dia, onde grupos, de amigos ou famílias faziam piqueniques, e conviviam em amena cavaqueira.
Ele também gostaria de passear por ali com a mulher que amava.
Porém sabia que isso não ia acontecer. Com tanta mulher bonita, logo tinha que se apaixonar pela única que nunca poderia ter.
Apertou os punhos ao pensar nela. Que estaria fazendo? Ia casar, ele sabia. Só não sabia quando. Que fosse em breve. Ele havia de sobreviver. E depois quem sabe, sabendo-a casada, deixasse de pensar nela e naquele amor maldito. Entrou no velho prédio e subiu as escadas de madeira, gastas pelo tempo até às águas furtadas, onde tinha o seu estúdio.
O local estava longe de ser luxuoso, mas da janela, ele tinha uma das mais belas panorâmicas do mundo. E uma esplêndida luz para as suas pinturas. Despiu a camisa, que atirou para o velho sofá, e em tronco nu, dirigiu-se à janela.
Enquanto a sua mente se perdia em tortuosas recordações, a seu lado, no cavalete, numa tela por acabar, uma jovem mulher, olhava enlevada o bebé que amamentava.
Era a última tela para a sua próxima exposição.



5.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE V


No passeio, em frente à casa, a irmã e o noivo esperavam-na.
As duas irmãs abraçaram-se e beijaram-se com carinho, perante o olhar sorridente de Pedro. Depois, Ana beijou o futuro cunhado, e ele apressou-se a abrir-lhe a porta traseira do automóvel para ela entrar. Tendo feito o mesmo com a porta da frente, para que Matilde entrasse, deu a volta ao automóvel e arrancou. Matilde iniciou a conversa, olhando a irmã pelo espelho do carro.
- Há quase um mês que não te via, Ana. Por causa dos preparativos para o casamento, estou pouco tempo em casa, e nunca te vejo quando lá vais. Sabes, queria a tua ajuda para comprar a prenda para o aniversário de casamento dos pais. Não sei que comprar. E estamos quase em cima da festa. Que me aconselhas?
- Não sei. Talvez algo que simbolize o amor deles, mas também a união da família. Eu fiz um álbum com uma seleção de fotos de vários momentos da nossa e da vida deles.
- Caramba que ideia gira. Tenho a certeza de que vão adorar. Mas dentro desse espírito o que eu podia fazer? Podia dar uma coisa diferente a cada um, mas queria qualquer coisa igualmente simbólica para os dois, por se tratar de aniversário de casamento. O problema é que não me ocorre nada A Marta diz que lhes vai oferecer um quadro da filha. Eles adoram a neta, vão gostar de certeza, e o João vai-lhes oferecer uma viagem aos Açores, tipo segunda lua-de-mel.
- Porque não compras uma joia? – Interrompeu Pedro. Podias oferecer à tua mãe uma pequena medalha, para usar no fio, por exemplo um coração, e ao teu pai, sei lá uns botões de punho com um coração igual. Ou ele não usa?
- Que ideia genial. Bom, ele não usa botões de punho no dia-a-dia, mas em cerimonias sim.
- E eu posso ajudar-te com a despesa, - disse a irmã. Vocês têm muitos gastos com o casamento, as joias não são baratas, e eu até nem gastei dinheiro com a minha prenda.
-E não te importas?
- Não, claro que não. Olha, podemos fazer o seguinte. Trocamos as prendas. Tu dás o álbum e eu vou comprar as joias.
- Mas foi trabalho teu…
-E quem sabe disso?
-És um amor!
O carro acabara de estacionar junto ao restaurante. Já à mesa, enquanto esperavam ser atendidos, Ana perguntou:
- E Simão? Sabes se ele vem à festa? Tem dado notícias?


4.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE IV




Acabara de pintar os lábios, quando o telemóvel tocou:
-Ana, estás em casa?
- Ia sair agora, Matilde. Está tudo bem contigo? Estive em casa esta manhã, mas tinhas saído.
- A mãe disse-me. E eu queria tanto estar contigo. Por isso estou a ligar. Não nos podíamos encontrar?
- Claro que sim. Mas é sábado. Pensei que preferisses sair com o Pedro.
- Sim. Olha, se não te importares vamos os dois ter contigo. Depois se tiveres outros planos para a noite separamo-nos. Não temos que andar juntos toda a noite, mas preciso mesmo de falar contigo. É por causa do aniversário dos pais. Queres jantar connosco? Vamos jantar a um restaurante novo de comida indiana. Dizem que é muito bom.
Pensou rapidamente. Não lhe agradava fazer de pau-de-cabeleira para a irmã e o noivo. Não há nada pior para uma mulher que acabou de ter uma desilusão amorosa, do que acompanhar um par apaixonado. Por outro lado, ela gostava de comida indiana, e uma refeição no ambiente frio de um restaurante, é sempre mais agradável acompanhada
- Então Ana? Vá lá, diz que sim. Temo-nos visto tão pouco ultimamente.
- Está bem. Espero-vos aqui, ou queres que vá ter convosco a algum lado?
-Apanhamos-te aí dentro de meia hora. Está bem para ti?
-Está.
- Então até já.
Desligou o telemóvel e ficou pensativa.
Matilde era a sua irmã mais nova. Aquela com quem se sentia mais intimamente ligada. Mas desde que há cinco anos, decidira viver sozinha, viam-se muito menos. Às vezes, sentia uma saudade atroz da vida que tinha na casa paterna. Do quarto partilhado com as irmãs, das primeiras conversas sobre rapazes, sussurradas com Marta, a irmã mais velha, para que Matilde, ainda uma menina não se apercebesse. Dos irmãos, tão diferentes entre si, João, alegre, divertido, sempre pronto para a brincadeira, e Simão. Este, era a antítese do irmão. Sério, responsável e protetor. Especialmente com ela e com Matilde.
Sentia saudade das longas conversas com a mãe, do pai, do calor que emanava da casa paterna.
Lembrou, do dia em que decidiu ir morar sozinha. Tinha vinte e dois anos e estava prestes a casar com um jovem advogado, que trabalhava com o pai, quando rompeu o noivado. O pai ficara muito zangado. E o pior foi quando Miguel, inconformado pediu a demissão. Afonso perdia assim, não só o homem em quem confiava para entregar a vida da filha, mas também o melhor advogado da sua equipa. Ela não suportara, as recriminações paternas e decidira que era tempo de ir viver sozinha.
O toque do telemóvel interrompeu-lhe os pensamentos. Atendeu.
- Ana, chegamos. Desces, ou ainda estás atrasada?
-Desço já, - e pegando na mala, apressou-se a sair.



Não há dúvida de que vós sois uns leitores atentos. Pois é, esta História de Amor é a continuação de Estranho Contrato. Vinte e cinco anos depois. espero que gostem tanto, quanto gostaram da outra.



3.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE III





Francisca ficou uns momentos indecisa, olhando a porta fechada. Naquela manhã de Sábado, tomavam o pequeno-almoço, quando Ana chegou. Era sempre assim. Trabalhavam juntos no mesmo escritório, mas quando a filha queria falar das suas coisas, procurava o pai em casa. Tinham-se encerrado no escritório, e Afonso continuava lá após a saída da filha. Sabia que ele não gostava de ser interrompido quando lá estava. Tinha-lho dito há quase vinte e cinco anos, logo após o casamento, e ela sempre respeitara essa regra. Mas também sabia que naquele momento, se estaria a debater com sentimentos contraditórios, e a precisar dela. Pousou o livro e levantou-se. Alisou a saia justa que lhe moldava o corpo, ainda esbelto, passou a mão pelos cabelos e dirigiu-se ao escritório.
Deu uma pancada com os nós dos dedos na porta e girou o puxador.
Afonso, levantou a cabeça quando a porta se abriu e viu Francisca, na ombreira esperando um convite para entrar. Esboçou um sorriso.
- Entra. Que milagre te traz aqui?
- Pensei que precisavas de conversar, -disse ela sorrindo.
Ele levantou-se, colocou-lhe um braço à roda da cintura e conduziu-a até ao sofá.
-Já sabes, a última da Ana?
Assentiu com um movimento de cabeça.
-Desorienta-me. Não sei o que se passa com ela. Profissionalmente é uma excelente advogada, capaz de competir com os melhores do país. Mas na vida pessoal é um desastre. Gostava de vê-la casada. Três vezes anunciou que ia casar, para desistir pouco tempo depois. Não é como os irmãos. Não sei a quem sai. Tu não és assim.
- Não tem de ser como eu, - disse com suavidade, ao mesmo tempo que a sua mão tocou o rosto do marido numa terna carícia. Não sou a sua mãe biológica.
- Mas és a única que ela conhece. E depois, Olga também não era assim.
- Não te preocupes. Ela ainda não conheceu o amor. Quando o conhecer casará e será muito feliz, vais ver. Não podes pressioná-la. Um casamento sem amor é um inferno em vida.
-Mas se estava entusiasmada com o Paulo, algum encanto lhe achou. E o amor também pode nascer depois do casamento. Connosco foi assim.
- É demasiado arriscado. É como voar num trapézio sem rede. Nós arriscamos por causa das crianças. Pensa, ter-te-ias casado com uma desconhecida, se não precisasses dela para criar as miúdas? Claro que não. Eu também não o teria feito, se não fosse por igual motivo. O destino foi bom connosco. Apaixonamo-nos e somos felizes. Mas imagina que isso não tinha acontecido? Ou pior, que um de nós se tinha apaixonado por outra pessoa? O que teria sido a nossa vida? Ana é jovem, não tem filhos nem necessidades materiais. Não tem porque correr esse risco. É melhor ter acabado agora, do que daqui a meio ano, com um divórcio que acarreta sempre sofrimento.
Afonso segurou-lhe o rosto, entre as mãos, mergulhou os seus olhos no olhar cálido da mulher.
- És sempre tão doce, tão sensata. Não sei o que faria sem ti.
Sem desviar o olhar inclinou-se para ela e os seus lábios buscaram a boca feminina.


E então amigos, já descobriram qual a particularidade desta história?




2.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE II







Foi direta à sala, onde sabia que encontraria a mãe a ler. Era o seu lugar favorito. Sentou-se a seu lado. Francisca fechou o livro e olhou para ela na expectativa. Não fez perguntas, e Ana teve a certeza de que a mãe sabia o que lhe ia dizer. A mãe sempre sabia o que se passava com ela:
- Mãe, já não vai haver noivado, muito menos casamento. Acabei tudo com o Paulo.
Se esperava que a mãe dissesse alguma coisa, enganou-se. Francisca levantou a mão, acariciou o rosto da filha, e esperou.
-Eu queria, mãe. Começo a desejar estabilizar a minha vida emocional. Ter a minha casa, marido, filhos. Pensei que com o Paulo, isso ia acontecer. Mas não é assim. Na intimidade, a chama não se acendeu, senti-me estranha nos seus braços. E não quero um casamento assim. Não me basta ter um homem apaixonado ao meu lado. Eu quero alguém a quem eu ame com intensidade.
A mãe abraçou-a como fazia quando ela era criança. Ana deitou  a cabeça no seu regaço, e deu largas à sua desilusão, deixando correr as lágrimas. Francisca sentiu um nó na garganta. Apesar dos anos, tinha bem presente o que fora o seu casamento com Jorge. Sabia bem o que era rolar na cama, depois de ter feito amor, pensando que devia estar feliz, mas sentindo apenas que cumprira uma obrigação, que a envergonhava e lhe deixava um aperto no peito que não a deixava adormecer. De forma nenhuma queria isso para a sua menina. Dos seus filhos, Ana era aquela que mais se identificava com ela. A mais sensível. Sentindo que se acalmara, afastou-a um pouco e olhou-a com ternura.
- Se assim é, fizeste bem, Ana. Um casamento é uma coisa muito séria. Bem sei que na atualidade, o divórcio está na ordem do dia. Mas acarreta sofrimento. Deixa cicatrizes. Já contaste ao pai?
- Eu sabia que me ias entender. No fundo, o que eu queria, era um casamento como o vosso. Essa felicidade que transportam no olhar, esse amor visível em cada gesto. Foi sempre assim, ou isso aprende-se com o tempo?
Francisca sorriu: Continuava a ser uma linda mulher apesar de já ter ultrapassado os cinquenta anos.
-No amor, nada se aprende Ana. Ele é espontâneo e avassalador. O tempo não lhe acrescenta, nem tira nada. Somos nós, com as nossas atitudes que o engrandecemos ou o matamos. Compara-o a uma fogueira. Quando começa, as labaredas são altas, o calor intenso. Mas se não fazes nada, à medida que a lenha vai ardendo, as labaredas vão diminuindo de tamanho, o calor vai enfraquecendo até que da fogueira inicial só restam cinzas.
- E é impossível uma fogueira arder só de um lado, - murmurou a jovem desalentada. Para depois acrescentar.
-Contei ao pai, e ficou furioso. Tenho a sensação de que sentia vontade de me bater.
- Está preocupado contigo. É natural. Não te preocupes. No fundo o que nós queremos é que sejas feliz. Estás com muito trabalho? Devias pedir-lhe que te desse umas férias. Precisas espairecer. Porque não fazes uma viagem?
- Agora? E a vossa festa de aniversário?
- Faltam cinco dias. Podias, aproveitar para pôr em ordem algum assunto que tenhas pendente e partir depois da festa.
-Não tinha pensado nisso, Obrigado mãe, fazes com que os meus grandes problemas se tornem menores e menos dolorosos.
Francisca sorriu quando a jovem se inclinou para a beijar murmurando:
-És um anjo.



1.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE I




 - Outra vez não, Ana. Não vou admiti-lo.
- Não podes impedir-me. É a minha vida, sou eu quem decido.
A calma da jovem contrastava com a irritação do rosto masculino. Levantou-se, tentando sair do escritório. Irritado Afonso esticou o braço e segurou-a.
- Senta-te! – Ordenou com aspereza. Ainda não acabei.
Contrariada, a jovem deixou-se cair na cadeira. Loira, de olhos claros, quase do tom do mel. Nariz pequeno, boca bem desenhada.
Alta, o corpo bem proporcionado. Era muito bonita. 
- Ana é a terceira vez que terminas um noivado. A primeira vez, relevei, não me agradava nada aquele namoro, não queria sequer  pensar na hipótese de algo sério. Tinhas apenas dezoito anos, eras demasiado jovem, tinha medo que sofresses. Na verdade devo confessar que senti um certo alívio quando terminaste com aquele disparate. Depois tinhas vinte e dois anos quando terminaste o segundo. Já eras adulta, tinhas terminado o curso, estagiavas no meu escritório. 
Fez uma pausa e olhou para a jovem. Esta cruzou as suas longas pernas, encobertas com umas justas calças pretas e mostrou um gesto de enfado.
-Lembro-me bem. Passaste-me um sermão, fizeste-me sentir tão culpada que chorei, - a sua voz bem modulada, saía calma e determinada.
- E tu prometeste que não voltaria a acontecer. Há dois meses estavas entusiasmada com o Paulo, e disseste-nos que ias anunciar o noivado na data das nossas bodas de prata. Faltam poucos dias para a festa e vens dizer-me que acabaste tudo? Que já não vai haver noivado nem casamento? A tua mãe já sabe?
- Vou falar com ela, assim que me libertes – respondeu a jovem. E acrescentou.
- Olha, vê as coisas por este prisma. Preferias que me casasse e dois ou três meses depois entrasse com um pedido de divórcio?
- É claro que não. Quero a tua felicidade
- Então? – Perguntou encarando-o
-Quantos anos tens, Ana?
- Que pergunta, pai. Sabes que fiz vinte e sete em Maio.
-Sei. Queria saber se tens noção da tua idade. Repara nos teus irmãos. Estão casados, têm filhos, a sua própria família. Até a Matilde, que é a mais nova já está de casamento marcado. 
- O Simão está solteiro e não te preocupas…
- É diferente.
- Diferente? Diferente porquê? Porque ele é homem? Agora fazes descriminação? Não te conhecia essa faceta. – Disse irritada
- Cala-te. Fazes-me perder a paciência. Sabes que não é assim. Mas tens que admitir que a natureza foi mais pródiga para o homem do que para a mulher, em determinados aspetos. Um homem pode casar-se muito tarde e ainda assim constituir família, ter filhos. A mulher não o poderá fazer.
A jovem levantou-se.
-Desculpa. Penso que me excedi. Mas irrita-me, que sempre que saio com alguém, comeces logo a falar em casamento.
- Mas… foste tu que dissestes que ias anunciar a data do casamento na festa. Palavra que não te entendo,
- Não te preocupes. Às vezes nem eu própria me entendo.
- E dizendo isto a jovem levou a ponta dos dedos à boca, atirou um beijo ao pai, e saiu fechando a porta atrás de si…

                                        
Ora bem, Ano Novo, o Sexta voltou à velha forma. Ou seja às minhas histórias. Esta que inicio hoje tem uma particularidade que espero que os meus atentos leitores descubram rapidamente.