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30.11.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE VI





Chorosa, ela abanava a cabeça incrédula. Ele afirmava convicto:
- É verdade, eu já vi isso num filme.
Antes da partida, Esperança quis dar-lhe, duas coisas. Era tudo o que tinha de valor. Uma medalhinha em ouro que a mãe lhe dera dias antes de morrer, dizendo que era para lhe dar sorte, e a sua virgindade.
Ele aceitou emocionado, e partiu chamando-lhe “a minha mulherzinha”. Ela ficou no cais sonhando com o dia em que fosse ela a embarcar, para ir viver com o seu homem.
No Brasil, o Chico foi bafejado pela sorte. Conheceu um conterrâneo, antigo amigo de seu pai,  que já tinha “feito a vida” e que queria regressar. Simpatizou com ele e deixou-lhe um pequeno restaurante, para que o Chico começasse a vida. Ele nem queria acreditar, mas o homem dissera que, como não tinha filhos, podia ajudar o filho do homem, que muitos anos atrás fora seu companheiro de brincadeiras. Ele tinha mais do que precisaria para regressar e viver bem até ao fim dos seus dias.
Quando a vida começa a ser muito fácil, um homem perde-se. O Chico tinha condições agora para chamar a mulher que lá longe, só sonhava com esse dia. Mas não o fez. Quis mais. “Quando eu for rico, a chamarei e lhe darei uma vida de rainha” pensava.
Trabalhou dia e noite, rodeou-se de alguns bons colaboradores, e em pouco tempo o restaurante, era ampliado. Mais tarde comprou outro e depois outro.
Então decidiu aventurar-se noutros negócios, e fez sociedade com um fazendeiro, que possuía também uma fábrica de queijos.
O sócio, um viúvo idoso, só tinha uma filha. Demasiado mimada, e com muito dinheiro. Laura, a filha do sócio, engraçou com o Chico e tentou seduzi-lo. Se ele se deixou seduzir pela beleza da jovem, ou pela riqueza que ela herdaria como filha única, não sabemos. Mas que o Chico esqueceu a promessa feita a Esperança e casou com Laura, foi um facto.


A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE V




O paquete Vera Cruz estava a chegar a Alcântara. Na amurada do navio, um homem destacava-se do mar de gente que se preparava para o desembarque. Não teria ainda cinquenta anos, alto, bem vestido, mas com um ar cansado, observava a cidade.
Lisboa, a bela cidade, que deixara há quase três décadas quando partira para o Brasil em busca de fortuna. Quantas asneiras se fazem na juventude, quando a ambição nos domina. O Chico era muito jovem quando perdera os pais. Os primeiros anos, vivera com um tio sapateiro, com quem aprendera o ofício. Quando o tio morrera, o Chico ficara com a pequena oficina, onde confeccionava ou arranjava o calçado. Foi nessa altura que conheceu a Esperança. Era a moça mais bonita do bairro. Tinha uns grandes olhos castanhos, docemente amendoados. Conheceram-se e amaram-se no mesmo instante. Ele era nessa época, um belo rapaz, com um ar altaneiro que fascinava as moças casadoiras, e as deixava suspirando pelos cantos. Mas ele só tinha olhos para a sua Esperança.
Durante dois anos trocaram juras de amor, e sonharam com um futuro a dois, muito feliz.
Mas o negócio não corria bem ao Chico, cada vez mais os fregueses optavam por comprar sapatos feitos em vez de os mandarem fazer, e ele ouvira falar do Brasil, e das muitas oportunidades de conseguir fortuna lá. E um dia decidiu-se. Vendeu a oficina, e comprou a passagem. Com tudo decidido, procurou a namorada e falou-lhe da viagem, dos seus sonhos de riqueza, e da separação que teriam de viver em prol de um futuro melhor.
Ela chorou. Com intensidade, como fazem as mulheres que amam de verdade. Tentando consolá-la ele dizia que seria por pouco tempo. Logo que estivesse a trabalhar, arranjava casa, e casavam por procuração. Depois ela embarcava e ia ter com ele ao Brasil.

29.11.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE IV






- Diga, diga, - pedi eu com mal disfarçada ansiedade.
A mulher hesitou, mas por fim decidiu-se:
- Sabe, - disse baixando a voz como quem vai revelar um segredo. É que a Esperança, quando para aqui veio, tinha uns olhos castanhos, amendoados, que depois ficaram verdes. Ora eu penso que uma coisa assim só por bruxedo.
- Muito obrigada. Se a vir dou-lhe o recado senão…
Deixei a frase incompleta e afastei-me. Tinha ficado pensativa. Eu não acreditava em bruxedos, mas convenhamos que isto de uma pessoa ter olhos castanhos que viram verdes, não era de todo normal. As lentes de contacto em Portugal eram raras e caras, decerto não estavam ao nível do bolso de uma vendedora ambulante, pelo que o mais certo era a mulher se ter enganado.Com certeza que já não se lembrava bem dos olhos da outra. A idade faz muitas confusões. O melhor era não pensar mais nisso.
Mas a verdade é que aquela mulher me intrigou, desde a primeira vez que a vi.
E como sempre me apaixonaram os mistérios, e os detetives eram no meu imaginário, uma figura muito romântica, resolvi transformar-me num, e lá fui até à Prior do Crato.
Perguntei a várias pessoas se a conheciam. Ninguém sabia quem era. Comecei a pensar que a velha mulher dos amendoins, sabia do que falava quando disse que ninguém sabia onde morava. Quase a desistir, um garotito que jogava à bola, disse-me que  a conhecia, e indicou-me a casa.
Respirei fundo e sem pensar dirigi-me para lá. Bati. Uma mulher dos seus quarenta anos, veio abrir. Pensei que o garoto me tinha enganado. E como o melhor remédio para o saber era perguntar-lhe, assim o fiz.
-Desculpe, disseram-me que morava aqui uma senhora que vende cartas, - foi a primeira coisa que me veio à cabeça e confesso que não era uma ideia famosa, já que podia comprar cartas em qualquer papelaria.
– Decerto me enganaram, - acrescentei ao ver que a mulher não parecia nem um pouco desconfiada.
- Ah! É aqui mesmo. É a Ti’Esperança. Mas ela está tão doente, coitadinha... Entre, entre, - convidou
Entrei. A casa era muito pobre. Tanto que me meteu dó. Sobre uma velha cama de ferro desconjuntada, com um puído lençol de linho, que já devia ter servido várias gerações, estava a enferma. Morta? Não fora os seus olhos, e eu diria que estava morta. Senti um arrepio….


28.11.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE III


                               Foto retirada da net




Pouco passava das dez da manhã, naquele soalheiro e luminoso dia, da primeira semana de Agosto, quando desci do autocarro no Terreiro do Paço.
Confesso que fiquei surpreendida com o que vi, pois naquele momento, havia um movimento pouco usual entre os vendedores, que corriam de um lado para o outro, carregando  as enormes alcofas, as mulheres com cestos à cabeça, procuravam ocultar-se atrás das grossas colunas da estação ou dentro das cabines telefónicas. Algumas metiam-se mesmo na gare dos cacilheiros ali ao lado.
- Que será que aconteceu?- Interroguei-me.
Mas logo os vi. Os fiscais que de vez em quando rondavam aquela zona, pregando multam nos mais descuidados, pois o comércio ali,era proibido. Nunca entendi porque não montavam uma ronda permanente e acabavam de vez com aquilo. Mas não. Apareciam e desapareciam como por artes mágicas. Fui até ao quiosque, que servia de bar e pedi um café, enquanto esperava que os fiscais se fossem. Porque quando eles chegavam não havia ninguém, mas assim que desapareciam de todos os cantos apareciam os vendedores e era um ai enquanto abriam de novo as suas cestas e espalhavam o produto em panos no chão. Ou em pequenas mesas de campismo que alguns traziam. Era assim uma espécie de jogo do gato e do rato.
Quando tudo serenou, procurei com o olhar a mulher dos olhos verdes, mas não a vi.
- Não veio hoje a mulher que vende cartas? – Perguntei à velhota dos amendoins.
- Não. Já ontem também não veio. Mas ali o meu “home” também vende cartas.
E apontava um velhote que vendia variadas coisas um pouco mais à frente.
- Obrigada, mas eu queria, era falar com ela, -menti. – Acaso sabe onde mora?
-Não. Ninguém sabe ao certo, embora digam que mora ali para os lados de Alcântara, na rua Prior do Crato. A menina é parente? – Perguntou a medo.
-Não. Apenas me pediram para lhe dar um recado, e queria fazê-lo.
-Bem – a mulher pareceu ficar mais à vontade, ao saber que eu não era da família, da tal mulher. A Esperança apareceu aí um dia a vender cartas, e aí ficou. Já lá vão muitos anos. Olhe, ainda eu nem tinha cabelos brancos.
Olhei a sua cabeça completamente branca, e pensei que na verdade já devia haver uns bons anos.
- Esperança, dos olhos verdes, - murmurei
A mulher continuou:
Olhe menina, eu se fosse a si esquecia-me desse recado. Eu não sei porquê, mas não gosto dela. Às vezes até chego a pensar que tem pacto com o demo. Passa horas e horas a olhar o mar, e depois sabe, há uma coisa que nem sei se lhe conte…


À margem:  Este conto tem como cenário, a Lisboa dos anos sessenta e procurei ser o mais rigorosa possível às minhas memórias. O facto de falar na Ponte Salazar, e não 25 de Abril, deve-se ao facto de que era esse o nome dela na altura, não significa nenhuma simpatia pelo nome do ditador, nem tão pouco esquecimento, do seu nome atual.

26.11.16

A TI ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE II




Quem conheceu o Terreiro do Paço naquela época, sabe que  em frente à estação fluvial que ligava Lisboa ao Barreiro, havia ali havia um verdadeiro mercado ambulante.
Mulheres e homens vendiam bananas, amendoins, bolos, lenços, roupas de bebé, bonecas, brincos, pentes, braceletes, rádios, óculos e muito mais. Os táxis, chegavam à porta da estação por uma rua, depois havia um passeio largo, outra rua por onde os carros saíam outro passeio e só depois a estrada principal junto aos edifícios ministeriais.  Por esses passeios se amontavam vendedores ambulantes.
E então por entre o burburinho, ouvi de novo:
- Cinco cartas dez tostões!
Olhei e vi-a. Era uma mulherzinha que talvez não tivesse mais de quarenta anos, embora aparentasse muitos mais. Mas é sempre difícil, saber ao certo a idade das pessoas, para quem a vida foi madrasta. Envelhecem mais depressa, dos trabalhos e provações, do que com o passar dos anos.
Franzina, de pele morena. Poderia ter sido muito bonita na juventude, mas já não lhe restava nada dessa beleza. Seria até considerada uma mulher vulgar, não foram os seus maravilhosos olhos verdes, de brilho intenso, como se neles se concentrasse toda a juventude, que o seu corpo deixara para trás há muito.
Fiquei fascinada com aqueles olhos. Reparei como olhava repetidas vezes para o mar, porém não podia ficar ali mais tempo, pois estava na hora de ir para o trabalho.
 Desde que a vi a primeira vez, não mais pude deixar de a procurar com o olhar, sempre que ouvia o seu pregão.
E então imaginava bonitas histórias, em que ela era a protagonista. Foi assim que um dia me apercebi que os olhos verdes da mulher ficavam às vezes de um tom azulado, tal como o mar em dias de calmaria.
Chegou o mês de Agosto, e como em todos os anos, o laboratório encerrou para férias. Decidi passá-las em Lisboa em casa dos meus tios, já que não dispunha de verba, nem autorização dos pais para ir para qualquer lugar sozinha. Com os meus tios, gozava de ampla liberdade, desde que não tivesse namorado. Eu tinha-o, mas ele estava em África numa comissão, por isso eles me deixaram ficar lá em casa. Era a oportunidade de eu conhecer a cidade que me encantava desde menina. Como tinha passe, não parava em casa, sempre desejosa de novas descobertas. E foi nessa altura que me ocorreu descobrir, se as minhas fantasias a respeito da vendedora de cartas tinham algum fundamento. Tomada a decisão, logo a pus em prática.


25.11.16

A TI ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE I


- Cinco cartas dez tostões!        
Todas as manhãs ao desembarcar no Terreiro do Paço era sempre aquele, o primeiro pregão que ouvia. Procurei com o olhar a dona do pregão. Não consegui vê-la. Mas sabia que ela lá estava como de costume. A sua voz fazia-se ouvir entre o burburinho dos que todas as manhãs faziam a travessia do Tejo, nos barcos da CP. Gente que morava na progressiva vila do Barreiro, mas que trabalhava em Lisboa, como eu.
Estávamos a meio dos anos sessenta, e eu que nascera no Barreiro, tinha começado a trabalhar em Lisboa, pelo que de Verão ou Inverno fazia aquela travessia, todos os dias excepto aos fins-de-semana. Trinta e cinco minutos em barcos que tinham o nome de alguns distritos de Portugal. Durante a travessia, encantava-me olhar o Cristo-Rei- Lembrava-me da primeira vez que o vimos da nossa casa, à noite iluminado. Era ainda uma miúda, mas de lá, na outra margem do rio, era tão pequenino que mais parecia um brinquedo. E agora, uns anos depois, tinha oportunidade de vê-lo um pouco mais de perto. Até me ter empregado em Lisboa, se vinha à cidade, era para ir a algum hospital, e nada conhecia da sua beleza, mas encantava-me olhar para as grandes montras, onde tudo era novo e maravilhoso para mim. Confesso que nessa altura, não eram o belíssimo arco da Rua Augusta, ou a estátua do D. José, cercado de automóveis por todo o lado que me encantavam. Mas os maravilhosos vestidos e belos sapatos, que enfeitavam as montras que me faziam sonhar.
Às vezes imaginava-me vestida e calçada assim, e sonhava que era uma qualquer princesa de um reino imaginário. Mas logo a minha mãe, me puxava por um braço, trazendo-me de volta à terra.
Porém o tempo é uma máquina inexorável, que não para nunca, e os anos foram passando, o corpo foi-se transformando, e o primeiro trabalho no Armazém da Lenha, seguido do outro na Seca do Bacalhau, acabou com grande parte do meu romantismo, mostrando-me a realidade nua e crua da vida do povo nessa década de sessenta.
Bom, a falar verdade eu sempre vivi dentro dessa realidade, mas a pouca idade, e os sonhos que acalentava, faziam com que quase ignorasse a fome, e os pés tantas vezes descalços.   
E então cresci. Agora, com vinte anos, e depois da passagem pelo trabalho numa fábrica de cortiça, tinha conseguido arranjar trabalho num laboratório de produtos farmacêuticos em Lisboa. Por isso, todas as manhãs fazia aquela travessia, a caminho do trabalho. Outra coisa que me espantava, era a beleza da ponte Oliveira Salazar, inaugurada no Verão anterior. Quando a olhava do meio do rio, parecia-me ver um enorme carreiro cheio de formigas de várias cores que se deslocavam rapidamente no seu tabuleiro.
As duas fotos são da net, não lhes vi nenhum nome de autor.



Amigos, aqui vai mais uma história. Bem mais pequena que a anterior, para não perderem o fio à meada. Esta história só não é bem uma reposição, porque entretanto foi um pouco mais trabalhada do que na primeira vez que a publiquei aqui há uns cinco ou seis anos, não mudou de direção, pelo que espero que no final, não me desanquem.

ESTRANHO CONTRATO _ PARTE XXXII


Epílogo

O inverno acabara, a Primavera fazia-se sentir em todo o seu esplendor de cores e perfumes. 
Francisca acabara de adormecer as crianças e preparava-se para se deitar.   Afonso ainda estava no escritório, e ela sempre respeitava aquele espaço. Sabia que ele se refugiava ali para trabalhar. 
Olhou-se no espelho. Como estava diferente. Agora era uma mulher feliz, realizada. Tão diferente daquela  Francisca que foi casada com Jorge. Viu pelo espelho a entrada do marido e como se dirigia para ela. Sentiu os seus braços à roda da cintura, os olhos procuraram-se através do espelho.
-Amo-te! - Sussurrou-lhe ao ouvido.
Sem respondeu, voltou-se e ofereceu-lhe a boca entreaberta, pronta para o beijo.
Enlouquecia-o. Cada dia mais, como se fosse uma dependência. Pegou-lhe ao colo, e deitou-a na cama. Inclinou-se para ela.
- Espera, - disse ela colocando a sua mão no peito  masculino e empurrando-o suavemente. - Vamos conversar.
-Agora? - Em tom de lamento.
-Depois compenso-te. Prometo!
-Sendo assim, - parecia resignado.
-Sabes, o quartinho ali ao lado…
- O que é que tem? – Interrompeu impaciente
- Temos que trazer de novo para lá o berço. Vai ser preciso... 
Levantou-se de um salto
-Queres dizer…
- Que a família vai aumentar dentro de alguns meses.
Abraçou-a.
- Amo-te tanto! Tens noção de que me tornaste no homem mais feliz do mundo?
- Esforço-me por isso - sorriu sedutora.
-Amanhã trato do berço.
-Temos tempo. Ainda faltam uns meses. Antes, queria contar-te uma fantasia que tinha contigo quando lá dormia. Prometes que não te ris?
Beijou-a com paixão.
- Conta, - pediu com voz rouca
E ela contou. Devagar frisando cada pormenor da fantasia tantas vezes sonhada, exacerbando  e levando ao limite o desejo do marido.
Quando ela se calou, ele estendeu-lhe a mão, ajudando-a a levantar-se.
- Vai, - sussurrou. Vamos convertê-la em realidade.
Feliz, ela encaminhou-se para o outro quarto




                                                        FIM


Agora sim, chegou ao fim. Ou talvez não, quem sabe...  Como não sou indiscreta, deixo à imaginação de cada um o que se seguirá. Rsrsrs.
Falando sério, gostaria que os amigos que acompanharam esta história, me deixassem no comentário. a vossa opinião sobre ele. Dizer que gostaram só, não vale. Já o foram deixando nos comentários. Tenho consciência de que são os vossos reparos que me levam a ser um pouco melhor de história para história.
Um grande obrigada a todos. Estou de regresso, hoje mesmo passarei pelas vossas "casas".

20.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXXI









Afonso foi até ele. Dobrando os joelhos para ficar à altura da criança, perguntou:
-Estás triste? O Pai Natal enganou-se no presente?
-Não. Estou confuso.
- Queres dizer-me o que te faz confusão?
- Um menino na escola disse-me que não há Pai Natal. Que os presentes são os pais que os dão. No entanto tu estiveste sempre aqui. E o Pai Natal veio trazer os presentes. Tento perceber onde está a verdade.
Desde o primeiro momento, Afonso considerara Simão um menino muito especial.  Era muito precoce no entendimento das coisas, muito responsável, ele diria até que demais para a sua idade.
- Queres saber a verdade? E depois guardas segredo?
- Claro.
Afonso falou-lhe então, da lenda do Pai Natal. Disse-lhe que os irmãos acreditavam na sua existência e eram felizes com isso. Mas a verdade é que eram sim os pais que compravam os presentes. Depois pediam a alguém de confiança, que se vestisse de Pai Natal e fosse entrega-los naquela noite. Mas agora ele tinha que guardar segredo. Um dia quando os irmãos fossem maiores também iam descobrir a verdade. Mas por enquanto iam ficar muito desiludidos se perdessem aquela magia.
O menino sorriu feliz.
- Fica descansado. Sei guardar um segredo. E sabes uma coisa? Gosto muito de ti. 
-Também gosto muito de ti, filho – respondeu emocionado, abraçando o menino.
Por fim a noite chegou ao fim, as crianças recolheram aos quartos.
Mariana e Matilde, as gémeas, ficaram na cama de Ana, e esta foi dormir com a irmã. Os adultos trocaram então os presentes, com os pais de Francisca a retiraram-se logo a seguir, pois estavam habituados a dormir cedo. Na sala, Afonso conversava com o cunhado, e Graça aproveitou a ida de Francisca à cozinha, para a seguir.
- Ainda não tive oportunidade de falar contigo. Vejo que vocês se entenderam. Há muito tempo?
-Há dois dias.
-Por isso esse ar atarantado dos dois. Estão em lua-de-mel.
-Oh! Nota-se assim tanto? - Perguntou corando.
- Como não? – Vocês devoram-se com os olhos.
- Meu Deus que vergonha!
- Não sejas tonta, amar não é vergonha. Fico feliz por saber que vocês o são. Merecem-no bem. Estava preocupada convosco. Era evidente para mim que vocês estavam apaixonados um pelo outro. Mas são tão teimosos que temia, nunca viessem a reconhecê-lo.  



19.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXX





Aquele Natal seria memorável para todos, naquela casa, onde para além dos moradores, se encontravam os pais de Francisca. E esperavam a qualquer momento a chegada de Graça e do marido. A felicidade do casal, era por demais evidente. Tão evidente que os pais de Francisca acreditaram finalmente no grande amor que a filha lhes descrevera como razão para um casamento tão rápido. 
Afonso tinha encomendado o serviço do mesmo restaurante que os tinha servido no dia do casamento e esperava-se a sua chegada com o jantar. Mais tarde viria o Pai Natal com os presentes para as crianças, que estavam excitadíssimas com a festa.
Pouco antes das oito Graça chegou. E protagonizou a maior surpresa da noite, ao trazer com ela duas meninas de seis anos, que apresentou como suas filhas. Eram-no legalmente desde o início do mês.
Perante o espanto da família, Eduardo contou que devido a uma anomalia  genética, ele não podia ter filhos. Sabendo como a mulher adorava crianças, e de como se sentia frustrada, nos seus anseios maternos, tinha-se decidido pela adopção. As duas meninas eram gémeas, estavam há muito tempo na instituição, porque ninguém se atrevia a adoptar as duas de uma só vez, e era cruel demais separá-las. Para eles não era problema, e foi por isso mais rápida a adopção,não precisaram ficar em lista de espera. Tinham guardado segredo, pois tinham receio de que alguma coisa não corresse bem, durante o processo. Elas eram amorosas e eles nunca estiveram tão felizes.
- Deviam ter-nos contado. Elas vão sentir-se excluídas, quando o Pai Natal chegar com os presentes.
- E porque é que pensas que te pedi o nome da empresa que contrataste? - Disse a irmã. - Entrei em contacto com eles, e no dia em que aqui estive, fiz as compras e fui lá entregá-las.
- Pensaram em tudo. Mas que surpresa!
Entretanto as crianças já brincavam juntas. A princípio as meninas pareciam pouco à vontade, mas logo Marta, com a sua natural espontaneidade  tratou de fazer com que se integrassem na brincadeira.
Jantaram às nove, primeiro porque os mais pequenos tinham que jantar cedo, depois porque o serviço de restaurante por ser noite de Natal, encerrava às dez e meia, e os empregados teriam que sair a essa hora.
Pouco passava das dez, quando o Pai Natal chegou, carregado de presentes para alegria dos miúdos.
No meio da confusão, Afonso notou que Simão estava pensativo. Ele tinha recebido uma mala de pintor, um cavalete, tintas acrílicas e três telas. Adorava pintar e na sua carta ao Pai Natal, apenas pedira, material de pintura.



18.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXIX




E então Afonso fez algo completamente inesperado. Puxou-a para si e beijou-a. Primeiro suavemente apenas aflorando os lábios femininos, depois dando aso ao amor que trazia no peito, e à paixão que lhe invadia o corpo, o beijo, foi-se intensificando, e quando sentiu que a mulher lho retribuía, enlaçando-lhe o pescoço, perdeu completamente o controlo.  As suas mãos percorriam nervosas o corpo feminino que palpitava junto ao seu. Amaram-se ali mesmo, no sofá do escritório, as roupas espalhadas pelo chão, os corpos cavalgando no ritmo da paixão, as bocas perdidas entre beijos e gemidos, os corações acelerando cada vez mais até ao êxtase final.
Momentaneamente apaziguado o fogo que os devorara, Afonso perguntou:
- Desde quando?
- Não sei. Penso que desde o dia do casamento, quando me cedeste o quarto e ficaste a dormir aqui.
- Tão depressa? E eu a pensar que suspiravas pelo falecido.
- Tonto. Ele foi o pai dos meus filhos. Se não tivesse morrido seria decerto o meu marido, para o resto da vida. Sou uma mulher fiel. Mas nunca foi um grande amor. E tu? Desde quando? Eu pensava que não reparavas em mim.
- Desde aquela noite que ficaste no quarto das meninas. Acordei às cinco da manhã. A porta do teu quarto estava completamente aberta, e não te vendo lá, fui ver as crianças. Tu e a Ana dormiam abraçadas. Tive inveja dela, sabes?
Ela riu feliz. Ele continuou.
- Os últimos tempos foram cada dia mais difíceis. Passava horas aqui fechado, ansiando por ir ter contigo apertar-te nos braços e fazer-te minha. Mas o medo de te perder era maior que o meu desejo.
-Medo de me perder? – Admirou-se ela. Porquê?
- Por causa da quinta cláusula do contrato.
-E o que diz a quinta cláusula desse bendito contrato?
- Não leste? Tens uma cópia.
- Não.
- Não leste? – Perguntou admirado
- Não tenho uma cópia.
- Não? Eu dei-ta.
- Sim. E eu rasguei-a.
-Quando?
- Quando percebi que te amava
-Meu Deus, tanto tempo perdido.
- Ainda estamos a tempo de recuperá-lo. Mas... não seria melhor continuarmos no quarto?
E dizendo isto, Francisca soltou-se dos seus braços e começou a apanhar as roupas dispersas pelo chão.




À margem.

Como os meus leitores estavam à espera disto, aí desde o segundo ou terceiro capítulo, pensam que a história acabou aqui? Pois enganam-se. Ainda há muitas pontas soltas...