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5.12.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE XI


- Cinco cartas dez tostões!
Quedei-me surpreendida ao ouvir aquele pregão numa voz masculina. Procurei com o olhar, o dono da voz, e deparei com o Chico que de cartas na mão, andava de um lado para o outro apregoando:
- Cinco cartas dez tostões!
Durante os dias que se seguiram ao funeral da pobre Esperança, e aproveitando o resto das minhas férias, tinha conseguido saber que o Chico tinha voltado do Brasil, viúvo e muito rico. Vinha com a intenção de se fazer perdoar, e recuperar enfim aquele amor que tinha ficado perdido no passado. Devo acrescentar que me foi fácil descobrir isto. Bastou seguir o Chico no próprio dia do funeral, e apresentar-me como amiga da Esperança. Cheio de remorsos, sentindo o peso da solidão, e tendo-me visto em casa e no funeral de pobre mulher, não foram difíceis as confidências.
Mas então que história era aquela? Porque estava ali a vender cartas no Terreiro do Paço, junto à gare fluvial da travessia Lisboa – Barreiro? E que roupas eram aquelas tão simples e tão semelhantes  às dos outros vendedores?
Correndo o risco de chegar atrasada ao emprego interroguei-o. Ele então contou-me, que os remorsos, não o deixavam em paz, depois de saber da sofrida espera da amada. Pensara acabar com a vida. Mas era demasiado cobarde para o fazer.
Assim resolvera doar em nome da falecida, toda a sua fortuna, para instituições de caridade.  Afinal toda aquela riqueza só servira para fazer dele um homem infeliz, a quem Deus nem se dignara dar descendência, que o pudesse consolar na velhice.
E agora ali estava no sítio onde ela vivera e fazendo o que ela fizera. Procedendo assim sentia-se mais perto da mulher a quem tanto amara, e que desgraçara por ambição.
- “Talvez quem sabe, seja mais fácil obter o seu perdão, e viver este amor numa outra dimensão”
Apertei-lhe o braço, tentando dar-lhe algum consolo e afastei-me, acompanhada pelo pregão tão conhecido:
- Cinco cartas dez tostões!

Fim


Maria Elvira Carvalho


Pronto, acabou.  
 Acabei de escrever "Uma história de amor" que irei publicar no princípio do ano. Porque não há melhor maneira de começar um ano que com amor, não é mesmo?
Até lá, terão aqui publicações alusivas à época em que nos encontramos.
Obrigada a todos que têm paciência para me ler. Tenham um bom dia, e sejam felizes.

26.11.16

A TI ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE II




Quem conheceu o Terreiro do Paço naquela época, sabe que  em frente à estação fluvial que ligava Lisboa ao Barreiro, havia ali havia um verdadeiro mercado ambulante.
Mulheres e homens vendiam bananas, amendoins, bolos, lenços, roupas de bebé, bonecas, brincos, pentes, braceletes, rádios, óculos e muito mais. Os táxis, chegavam à porta da estação por uma rua, depois havia um passeio largo, outra rua por onde os carros saíam outro passeio e só depois a estrada principal junto aos edifícios ministeriais.  Por esses passeios se amontavam vendedores ambulantes.
E então por entre o burburinho, ouvi de novo:
- Cinco cartas dez tostões!
Olhei e vi-a. Era uma mulherzinha que talvez não tivesse mais de quarenta anos, embora aparentasse muitos mais. Mas é sempre difícil, saber ao certo a idade das pessoas, para quem a vida foi madrasta. Envelhecem mais depressa, dos trabalhos e provações, do que com o passar dos anos.
Franzina, de pele morena. Poderia ter sido muito bonita na juventude, mas já não lhe restava nada dessa beleza. Seria até considerada uma mulher vulgar, não foram os seus maravilhosos olhos verdes, de brilho intenso, como se neles se concentrasse toda a juventude, que o seu corpo deixara para trás há muito.
Fiquei fascinada com aqueles olhos. Reparei como olhava repetidas vezes para o mar, porém não podia ficar ali mais tempo, pois estava na hora de ir para o trabalho.
 Desde que a vi a primeira vez, não mais pude deixar de a procurar com o olhar, sempre que ouvia o seu pregão.
E então imaginava bonitas histórias, em que ela era a protagonista. Foi assim que um dia me apercebi que os olhos verdes da mulher ficavam às vezes de um tom azulado, tal como o mar em dias de calmaria.
Chegou o mês de Agosto, e como em todos os anos, o laboratório encerrou para férias. Decidi passá-las em Lisboa em casa dos meus tios, já que não dispunha de verba, nem autorização dos pais para ir para qualquer lugar sozinha. Com os meus tios, gozava de ampla liberdade, desde que não tivesse namorado. Eu tinha-o, mas ele estava em África numa comissão, por isso eles me deixaram ficar lá em casa. Era a oportunidade de eu conhecer a cidade que me encantava desde menina. Como tinha passe, não parava em casa, sempre desejosa de novas descobertas. E foi nessa altura que me ocorreu descobrir, se as minhas fantasias a respeito da vendedora de cartas tinham algum fundamento. Tomada a decisão, logo a pus em prática.