25.11.16

A TI ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE I


- Cinco cartas dez tostões!        
Todas as manhãs ao desembarcar no Terreiro do Paço era sempre aquele, o primeiro pregão que ouvia. Procurei com o olhar a dona do pregão. Não consegui vê-la. Mas sabia que ela lá estava como de costume. A sua voz fazia-se ouvir entre o burburinho dos que todas as manhãs faziam a travessia do Tejo, nos barcos da CP. Gente que morava na progressiva vila do Barreiro, mas que trabalhava em Lisboa, como eu.
Estávamos a meio dos anos sessenta, e eu que nascera no Barreiro, tinha começado a trabalhar em Lisboa, pelo que de Verão ou Inverno fazia aquela travessia, todos os dias excepto aos fins-de-semana. Trinta e cinco minutos em barcos que tinham o nome de alguns distritos de Portugal. Durante a travessia, encantava-me olhar o Cristo-Rei- Lembrava-me da primeira vez que o vimos da nossa casa, à noite iluminado. Era ainda uma miúda, mas de lá, na outra margem do rio, era tão pequenino que mais parecia um brinquedo. E agora, uns anos depois, tinha oportunidade de vê-lo um pouco mais de perto. Até me ter empregado em Lisboa, se vinha à cidade, era para ir a algum hospital, e nada conhecia da sua beleza, mas encantava-me olhar para as grandes montras, onde tudo era novo e maravilhoso para mim. Confesso que nessa altura, não eram o belíssimo arco da Rua Augusta, ou a estátua do D. José, cercado de automóveis por todo o lado que me encantavam. Mas os maravilhosos vestidos e belos sapatos, que enfeitavam as montras que me faziam sonhar.
Às vezes imaginava-me vestida e calçada assim, e sonhava que era uma qualquer princesa de um reino imaginário. Mas logo a minha mãe, me puxava por um braço, trazendo-me de volta à terra.
Porém o tempo é uma máquina inexorável, que não para nunca, e os anos foram passando, o corpo foi-se transformando, e o primeiro trabalho no Armazém da Lenha, seguido do outro na Seca do Bacalhau, acabou com grande parte do meu romantismo, mostrando-me a realidade nua e crua da vida do povo nessa década de sessenta.
Bom, a falar verdade eu sempre vivi dentro dessa realidade, mas a pouca idade, e os sonhos que acalentava, faziam com que quase ignorasse a fome, e os pés tantas vezes descalços.   
E então cresci. Agora, com vinte anos, e depois da passagem pelo trabalho numa fábrica de cortiça, tinha conseguido arranjar trabalho num laboratório de produtos farmacêuticos em Lisboa. Por isso, todas as manhãs fazia aquela travessia, a caminho do trabalho. Outra coisa que me espantava, era a beleza da ponte Oliveira Salazar, inaugurada no Verão anterior. Quando a olhava do meio do rio, parecia-me ver um enorme carreiro cheio de formigas de várias cores que se deslocavam rapidamente no seu tabuleiro.
As duas fotos são da net, não lhes vi nenhum nome de autor.



Amigos, aqui vai mais uma história. Bem mais pequena que a anterior, para não perderem o fio à meada. Esta história só não é bem uma reposição, porque entretanto foi um pouco mais trabalhada do que na primeira vez que a publiquei aqui há uns cinco ou seis anos, não mudou de direção, pelo que espero que no final, não me desanquem.

20 comentários:

Tintinaine disse...

Ora aqui está um conto que já conheço e gostei muito de ler!

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Gostei deste inicio e vou seguir com interesse.
Um abraço e bom fim-de-semana.
Andarilhar

Os olhares da Gracinha! disse...

O início promete!
Bj

Edumanes disse...

Uma história bem contada,
por quem neste país a viveu
por mim não sendo contrariada,
como a autora também a vivi eu!

Foi no tempo da miséria,
com os sonhos de esperança
neste país havia quem não quisera
dar atenção ao sorriso duma criança!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Vou seguir com o interesse de sempre.
Eu também trabalhei 30 anos em Lisboa
e fazia a viagem de barco diariamente.
Trabalhava na Rua S. José por detrás do
Cinema Tivoli e fiz muita vez a caminhada
a pé da Praça do Comércio à Rua de S.José,
também com a curiosidade de ver as montras
e as pessoas.
Bom fim de semana.
Bjs.
Irene Alves

© Piedade Araújo Sol disse...

Elvira
então cá estarei para seguir o conto.
a introdução, promete um bom conto.
bom fim de semana.
beijos
:)

maria disse...

Penso que vem aí mais uma boa história... aguardo, com curiosidade e muito interesse o seu desenrolar...beijinho amiga!!!

Anete disse...

Das minhas férias, vendo o início de mais uma história emocionante...
Vamos adiante, há muito pra contar e encantar...
Bjs e muita pazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzZ

Dorli Ramos disse...

A história já começou com o encantamento de uma decepção ao ter que trabalhar no duro.
Demorei porque aqui estava um inferno de quente. Tranquei-me no quarto, liguei o ar e dormi até a pouco.
Beijos
Minicontista2

Graça Sampaio disse...

É o que eu digo! Onde é que esta mulher vai buscar inspiração e imaginação para escrever tantas novelas?!!! Maravilha! Continua, que faz bem: a quem escreve e a quem lê...

Beijinhos

lua singular disse...

Oi Elvira,
Começamos bem o conto.
Dessa vez vou seguir certinho, se não adoecer demais.
Beijos
Lua Singular

Janita disse...

Fique descansada, Elvira.
Não li a versão original mas sei que quem conta a realidade, nunca a desvirtua. Já lemos a história de vida do Manel da lenha (peço desculpa se errei na alcunha) e agora vamos saber aquilo que a Elvira quiser partilhar connosco.
Um abraço, esperando o seguinte episódio.

Bom FDS.

Isa Sá disse...

A passar para acompanhar as histórias e desejar um bom fim de semana!


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Majo Dutra disse...

Começou na primeira pessoa e começou muito bem.
Como é hábito, vou acompanhar...
Ótimo fim de semana, Elvira.
Abraço afetuoso.
~~~~~~~~~~

AC disse...

Venha de lá a história, Elvira. As tuas palavras, a cada post que passa, parecem-me cada vez mais apuradas.

Um beijinho :)

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
ESTOU AQUI, BEM FELIZ, TE LENDO QUE É COISA QUE GOSTO MUITO DE O FAZER E AINDA MAIS PORQUE PEGUEI TEUS ESCRITOS NO COMEÇO, TOMARA QUE EU CONSIGA ACOMPANHAR-TE.
ABRÇS

http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Olinda Melo disse...


Olá, Elvira

Uma história que começa muito bem, falando de um percurso (barcos, Tejo, Lisboa) que eu bem conheço. E a cadência da escrita belíssima, como sempre.

Beijinhos

Olinda

Rogerio G. V. Pereira disse...

Elvira
"Ponte Salazar"?
não lhe chame assim
dá azar

Prata da casa disse...

Olá Elvira: devo confessar que este tipo de história é dos que mais gosto. Vou seguir, com muito interesse, esta .
Bjn
Márcia

Rosemildo Sales Furtado disse...

Pelo início, tudo indica ser um belo conto. Volto na parte dois.

Abraços,

Furtado