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19.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXVI



A notícia que a jovem tanto esperava, chegou nessa mesma tarde, num telefonema do pai. Ele fora ao laboratório buscar o resultado, e informaram-no de que também já o tinham enviado para ela, nessa mesma manhã, pelo que devia recebê-lo no dia seguinte. Ela era filha de Jorge Noronha sem qualquer dúvida. Que aliás ele nunca tivera e sempre dissera que por ele, aquele teste  era desnecessário. Mas ela, sim, precisava ter certeza. Estava emocionada, tinha vontade de chorar e rir ao mesmo tempo. O pai contou-lhe que já tinham feito as vindimas e que o vinho já estava no processo de fermentação. Também, lhe disse que dentro de dois dias, a mulher voltava ao médico e que como estava tudo a correr bem, ele lhe devia dar alta. Ele estava à espera desse dia, para falar com o médico e saber se o que tinha para contar à mulher, podia de algum modo prejudicá-la.  E se a opinião do médico fosse favorável, nesse mesmo dia lhe contaria. E terminou, dizendo que estava cheio de saudades dela.
Lena desligou a chamada e ligou para o tio a contar-lhe a novidade.
- Nunca duvidei que fosse esse o resultado, querida. E tenho a certeza de que o Jorge também não terá duvidado nem por um minuto. A tua mãe era doida por ele, e nunca teve outro homem antes ou depois dele.
- Mas se ela o amava tanto, porque pediu o divórcio? E porque nunca lhe disse que estava grávida.
- Mistérios da alma humana. A tua mãe sofria de um grave complexo de inferioridade. Não se julgava merecedora do amor do teu pai. Talvez pensasse que um dia ele se ia cansar dela e pedir o divórcio. Então para não prolongar a tortura da espera, resolveu pedi-lo ela. Tenho a certeza de que aquele abraço foi só o pretexto, ela sabia bem que não fora traída. Desde que soube que estava grávida, deve ter pensado, que quando ele pedisse o divórcio, ficaria também com o filho, uma vez que tinha uma melhor situação financeira. E ela não ia suportar a dupla perda. Eu e a Ana, conversámos algumas vezes sobre isto e a tua tia, Também pensava assim.
- Meu Deus, isso é doença! Como é que eu nunca me apercebi desse complexo? Dessa insegurança?
- Não te recrimines. És muito jovem, mal começavas a descobrir a vida, e depois tinhas a faculdade, os estudos, as amigas. Tenho a certeza que a tua mãe se arrependeu. Se assim não fosse quando sentiu que estava perto do fim, teria destruído as provas. Penso que conhecendo-te, ela sabia que ias em busca do teu pai, e isso foi também uma maneira de  lhe pedir desculpa.
-Acreditas que ela se arrependeu?
- Penso que sim. Quando sentiu que ia partir e que ficavas sozinha, deve ter-se arrependido, sim. Só assim se explica o não ter, destruído os documentos. E agora, vais viver com o teu pai?
Havia tristeza na sua voz e a jovem percebeu-o.
- Ainda não sei. É verdade que gostaria de o fazer, mas o meu pai tem a sua família e eles podem não me aceitar. E eu não quero criar mal-estar na sua vida. Não te preocupes. Mesmo que me aceitem e vá viver para lá. Nunca te deixarei sozinho. Quando estive em Viseu, falamos nisso. E o pai disse, que vocês sempre foram amigos e que seria uma mais-valia ter-te por perto.
- Está bem querida, mas não vamos por o carro à frente dos bois. A vida nem sempre nos leva por onde queremos ir. Olha para festejar o facto, vou aí buscar-te e vamos jantar a qualquer lado. Aposto que não tens saído desde que vieste do norte.
- Mas tio…
- Não tem mas, nem meio mas, põe-te bonita que eu não demoro.



Não se admirem se saírem dois posts por dia. Não serão todos os dias mas em alguns já aconteceu e vai voltar a acontecer, visto que eu desejo acabar esta história antes das férias.


29.11.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE IV






- Diga, diga, - pedi eu com mal disfarçada ansiedade.
A mulher hesitou, mas por fim decidiu-se:
- Sabe, - disse baixando a voz como quem vai revelar um segredo. É que a Esperança, quando para aqui veio, tinha uns olhos castanhos, amendoados, que depois ficaram verdes. Ora eu penso que uma coisa assim só por bruxedo.
- Muito obrigada. Se a vir dou-lhe o recado senão…
Deixei a frase incompleta e afastei-me. Tinha ficado pensativa. Eu não acreditava em bruxedos, mas convenhamos que isto de uma pessoa ter olhos castanhos que viram verdes, não era de todo normal. As lentes de contacto em Portugal eram raras e caras, decerto não estavam ao nível do bolso de uma vendedora ambulante, pelo que o mais certo era a mulher se ter enganado.Com certeza que já não se lembrava bem dos olhos da outra. A idade faz muitas confusões. O melhor era não pensar mais nisso.
Mas a verdade é que aquela mulher me intrigou, desde a primeira vez que a vi.
E como sempre me apaixonaram os mistérios, e os detetives eram no meu imaginário, uma figura muito romântica, resolvi transformar-me num, e lá fui até à Prior do Crato.
Perguntei a várias pessoas se a conheciam. Ninguém sabia quem era. Comecei a pensar que a velha mulher dos amendoins, sabia do que falava quando disse que ninguém sabia onde morava. Quase a desistir, um garotito que jogava à bola, disse-me que  a conhecia, e indicou-me a casa.
Respirei fundo e sem pensar dirigi-me para lá. Bati. Uma mulher dos seus quarenta anos, veio abrir. Pensei que o garoto me tinha enganado. E como o melhor remédio para o saber era perguntar-lhe, assim o fiz.
-Desculpe, disseram-me que morava aqui uma senhora que vende cartas, - foi a primeira coisa que me veio à cabeça e confesso que não era uma ideia famosa, já que podia comprar cartas em qualquer papelaria.
– Decerto me enganaram, - acrescentei ao ver que a mulher não parecia nem um pouco desconfiada.
- Ah! É aqui mesmo. É a Ti’Esperança. Mas ela está tão doente, coitadinha... Entre, entre, - convidou
Entrei. A casa era muito pobre. Tanto que me meteu dó. Sobre uma velha cama de ferro desconjuntada, com um puído lençol de linho, que já devia ter servido várias gerações, estava a enferma. Morta? Não fora os seus olhos, e eu diria que estava morta. Senti um arrepio….