“Longe da vista, longe do coração” costuma dizer o
povo e neste caso assim aconteceu. Ela cansou-se e trocou-me por um vizinho.
Não sei o que ficou mais ferido. Se o coração, ou o
orgulho, mas o certo é que a minha fé nas mulheres que já tinha ficado abalada
por causa da minha madrasta, ruiu por completo.
Durante os anos seguintes, tentei esquecer, voltando a
dedicar-me de corpo e alma à minha profissão, oferecendo-me como voluntário
para tudo quanto era missão no exterior.
Há quatro anos, de volta a Portugal, fui ao casamento de um amigo, também militar. Na
altura, andava meio deprimido, já tinha ultrapassado os trinta anos e era o
único do grupo que ainda não tinha formado família.
Durante a festa do casamento, bebi demais, e depois
quando a festa acabou, decidi ir acabar a noite num bar. Lembro-me de me ter
sentado a beber, junto de uma ruiva muito atraente, mas não me recordo de nada
mais, a não ser, de ter acordado no dia seguinte, num quarto de um hotel com a
tal ruiva.
Um mês depois, ela procurou-me no quartel.
Apresentou-me umas análises e disse-me que a engravidei naquela noite, e queria
dinheiro para fazer um aborto. Não deixei que o fizesse. Em vez disso
propus-lhe casamento. Mais tarde viria a descobrir, que nunca lhe passou pela cabeça
abortar, só o disse para que eu tomasse a atitude que tomei. Parece que um
homem embriagado, nas mãos de uma mulher experiente não despe só o corpo, desnuda também a alma. E
Marisa tinha experiência de sobra. Foi um casamento rápido. Tão rápido
como o nosso, embora muito diferente. Apesar de não amar Marisa, pelo bem-estar
do meu filho, estava disposto a fazer tudo para que a união resultasse. Depois
disso acabaram-se as missões, queria estar perto dela quando o bebé nascesse.
Porém quando Marisa estava no sexto mês, tive que
substituir um oficial que fora ferido em serviço no Kosovo. Parti pois, e um mês mais tarde, recebi uma carta anunciando o nascimento do Bernardo. Nascera prematuro
aos sete meses. Quase dois anos depois, vim a descobrir que me traía, e que
utilizava o meu dinheiro para sustentar o seu amante. Expulsei-a de casa,
afirmando que com as provas que tinha ela não só não veria um tostão com o
divórcio, como ia requerer a guarda do meu filho. Ela riu-se na minha cara e
afirmou que o Bernardo não era meu filho, e que mo tiraria quando quisesse.
Fiquei de rastos. Amo aquele menino mais do que a mim
mesmo. Apesar de não ser parecido comigo, Bernardo era muito parecido com a
mãe, e há milhares de crianças que se parecem apenas com um dos progenitores. Por
isso não quis acreditar que tinha sido enganado, mas um teste de ADN provou que
o tinha sido. Mais tarde, o médico dele, respondendo a uma preocupação minha, pelo facto do Bernardo ser prematuro, disse-me que ele, era um bebé normal, nunca fora prematuro. Fui duplamente enganado. Marisa já estava grávida
de dois meses naquela noite, no bar. O pai da criança devia tê-la abandonado e
ela andava à caça de um papalvo que a sustentasse a ela e ao filho.
No entanto esta descoberta, não beliscou em nada o
sentimento que eu tinha pelo menino, e vivi na angústia constante de o perder, até
ler no jornal a notícia daquele acidente.
Segundo a mesma, um grupo de amigos, realizou uma festa num barco. Calcula-se que durante a festa, muito álcool tenha sido ingerido pelos participantes. Perto da meia-noite, foram surpreendidos por uma tempestade. Três participantes caíram à água e apesar de todos os esforços, os seus corpos só foram resgatados três dias depois. Um deles era o de Marisa.
Segundo a mesma, um grupo de amigos, realizou uma festa num barco. Calcula-se que durante a festa, muito álcool tenha sido ingerido pelos participantes. Perto da meia-noite, foram surpreendidos por uma tempestade. Três participantes caíram à água e apesar de todos os esforços, os seus corpos só foram resgatados três dias depois. Um deles era o de Marisa.

