No passado dia 1 de Dezembro foi lançada uma coletânea de contos e poemas de Natal, da editora lugar da palavra. Estou presente com um conto que os mais antigos já conhecem, e que aqui deixo, para que os leitores mais recentes possam ler. Terão que ampliar as fotos para ler, mas espero que vos agrade..
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10.12.19
CONTOS DE NATAL - UMA HISTÓRIA DE NATAL
No passado dia 1 de Dezembro foi lançada uma coletânea de contos e poemas de Natal, da editora lugar da palavra. Estou presente com um conto que os mais antigos já conhecem, e que aqui deixo, para que os leitores mais recentes possam ler. Terão que ampliar as fotos para ler, mas espero que vos agrade..
24.9.19
VIDAS CRUZADAS - PARTE XIV
Saiu, deu a volta ao monumento e deparou com uma feira de camponeses onde vendiam de tudo ao ar livre. Desde a broa de milho às flores, passando por coelhos, galinhas e pintos, mel, bolos secos, nabos, cenouras e batatas, a par de toalhas bordadas e das mais variadas peças de renda. Antes de regressar às Termas e a casa da tia, parou numa banca e comprou um frasco de mel de rosmaninho. A tia ia ralhar com ele de certeza, e dizer que não faltava mel lá em casa, mas ele achou que lhe devia levar um miminho.
Depois do almoço, pegou o jornal diário que ainda não lera nesse dia, e dirigiu-se à margem do rio. E eis que vê a jovem sentada a ler, precisamente no banco que ele adoptara desde que chegara como o seu preferido. Porém a jovem estava acompanhada por uma senhora mais velha, que fazia renda, enquanto o garoto brincava na frente das duas. Pedro hesitou. E agora? Iria cumprimentá-la? E se a senhora não gostasse. Olhou em volta, procurando onde sentar-se, quando o garoto o descobriu e veio a correr ter com ele. Pegou-lhe na mão e conduziu-o até junto das senhoras dizendo:
- Olha mãe, o amigo que encontrei anteontem. Vês, eu não dizia que ele era simpático?
A senhora levantou os olhos da renda e olhou-o com um ar inquisitivo, durante um longo minuto.
Depois sorriu e disse:
- Este meu filho! É sempre a mesma coisa, está sempre a importunar as pessoas...
- Por quem é, minha senhora. O seu filho é uma criança encantadora.
- Não quer sentar-se? Podemos conversar um pouco.
O convite era tudo o que ele desejava ouvir, mas antes de aceitar, Pedro olhou de relance para Rita. Esta parecia dizer-lhe com o olhar para ficar, e ele sentiu-se no céu. Foi uma conversa muito agradável que se prolongou durante algumas horas. Pedro ficou a saber que eram de Castelo Branco e que estavam ali, porque a dona Célia, a mãe dos jovens, estava a fazer tratamentos termais. Ficou a saber que a jovem tinha acabado os seus estudos, que gostaria de ser professora, e que embora parecesse muito jovem, tinha vinte e dois anos. O pai não pudera acompanhá-los, porque tinha muito trabalho. Era engenheiro numa multinacional. Estavam hospedadas no hotel Vouga, ali mesmo na margem oposta do rio.
Pedro falou de si, do seu emprego, da mãe e da tia Palmira, em casa de quem estava a passar férias.
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5.12.18
UMA HISTÓRIA DE NATAL - O BURRO
Era uma vez um burro. Velho e cansado como todos os burros, que viveram anos e anos, dia após dia, sempre carregando no lombo, pesadas cargas. Agora, no fim da vida, ele só esperava que o seu dono o deixasse morrer em paz. Mas parecia-lhe que não era essa a intenção dele, quando nessa manhã de Inverno o levou para a feira. O burro, que não era tão burro quanto o seu nome dizia, percebeu que o dono, a quem servira toda a vida, se ia desfazer dele, porque achava que não tinha mais préstimo. E embora reconhecesse que até já não tinha forças para grande coisa, doía-lhe a ingratidão do dono.
Esperaram por mais de três horas
na feira. De vez em quando aparecia alguém que parecia interessado no burro,
mas ao analisá-lo de perto concluía que era demasiado velho para o que
precisavam, e depressa se desinteressavam.
Um dos que se aproximaram para o
ver, dissera mesmo ao dono. "Está velho. Já não tem préstimo. Devia
abatê-lo"
O velho burro estremeceu de
terror. E pensou que os homens eram animais perigosos. Serviam-se dos outros
animais, enquanto eles podiam, executar por si as tarefas mais difíceis, e
quando estavam velhos, matavam-nos. Pensou se eles fariam o mesmo aos da sua
espécie. Mandariam abatê-los quando estavam velhos?
Ao findar do dia, quando o dono
se preparava para fazer o regresso, e o pobre burro, não pensava noutra coisa
que não fosse a frase cruel ouvida de manhã, sem conseguir descortinar no seu
dono se era ou não isso que ele ia fazer, um homem alto e magro de ar calmo e bondoso
aproximou-se do burro e do seu dono.
Examinou-o e perguntou o
preço.
-Muito alto para um burro velho,
-disse.
Voltou a examinar o burro.
Passou-lhe a mão pelo lombo. O burro estremeceu. Sentiu os calos na mão do
homem, e no entanto aquela mão, transmitiu-lhe uma tal doçura, que o pobre do
burro não habituado a isso, ficou maravilhado. Ah! Se ele soubesse rezar,
decerto teria rogado ao Deus do homem, para que o comprasse, de tal
forma o desejou. Mas ele era apenas um burro.
-Dou-lhe metade, -disse o homem
O dono regateou. E o homem virou
costas decidido a partir. O burro ficou triste. Tão triste, que uma lágrima
turvou o seu olhar cansado. Mas então o dono, perdida já a esperança de
melhor preço, chamou o homem.
Este voltou atrás e fez a compra.
O homem pegou o burro pela
arreata, e dirigiu-se para casa. Pelo caminho falou como se soubesse que o
burro o entendia:
-Estás velho, amigo. Vamos a ver
se consegues ajudar-nos. Para te ser sincero, preferia um animal mais
novo. Mas não vi nenhum. E ainda que visse, talvez não tivesse dinheiro
suficiente para o comprar. Espero que dês conta do recado e nos ajudes na
viagem.
A palavra viagem, não agradou ao
velho burro, que já sentia as patas fracas. Mas entre uma viagem e a
morte, que decerto o esperava na volta para casa do seu antigo dono, a
escolha era óbvia.
Relinchou tentando dar ao novo
dono, uma confiança de que ele próprio duvidava.
Nessa noite, foi o burro muito
bem tratado, em palavras e ração, pelo que adormeceu feliz da vida.
Na manhã seguinte, eis que o
homem se apresenta com a esposa, e uma carga que lhe põe no lombo, e os três
empreendem a tal viagem. De vez em quando, o burro olhava a mulher, que se
apresentava em adiantado estado de gravidez, e pensava que ela não ia aguentar
muito tempo a caminhada. Em breve teria que a carregar. Temia não ter
forças para isso.
A meio do dia, fizeram uma pausa.
Tiraram-lhe a carga e deixaram-no livre, para que pastasse algumas ervas
que por ali espreitavam entre o gelo do inverno, enquanto o casal se sentava
sobre um pedaço de rocha e comia alguma coisa.
Pouco tempo depois, o homem pegou
o burro pela arreata e levou-o até junto da mulher que se mostrava visivelmente
cansada. O burro percebeu que tinha chegado o momento tão temido. E se ele não
fosse capaz de levar a mulher? Que seria do casal, perdido no descampado ermo,
em pleno inverno?
O homem ajudou a mulher a montar
e pegando na carga até aí transportada pelo burro colocou-a às costas e os três
recomeçaram a viagem.
Mal retomaram a marcha, o velho burro
abriu ainda mais os seus grandes olhos, espantado. Que milagre era aquele?
Porque não sentia qualquer peso no lombo? Será que a pobre mulher tinha
caído? No seu estado? Virou a cabeça, para constatar que ela seguia bem sentada
no seu lombo.
Então porque ele não sentia
qualquer peso? Seguia sem esforço, caminhando melhor que nos anos da sua
juventude. E assim seguiram os três até que à noitinha chegaram à cidade. O
burro reconhecia aquela cidade. Várias vezes lá fora com o antigo dono. Até já
ficara num estábulo numa daquelas ruas, uma vez que o dono pernoitara na
cidade. Por isso, quando depois de percorrerem várias estalagens, não
encontraram lugar para pernoitar, e o casal já desanimava, na eminência de terem que pernoitar ao ar livre naquela noite fria de Inverno, o velho burro,
ansioso por mostrar a sua gratidão ao casal, tomou o rumo do estábulo que ele
conhecia bem.
Elvira Carvalho
Elvira Carvalho
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