26.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE IV





Depois ele montou uma pequena oficina nas traseiras, e ela, voltou à costura. Como não tinham filhos, todos os anos faziam uma grande viagem. Passeavam sempre que podiam e lhes apetecia e os anos foram passando, mas se a idade, fez com que as labaredas da paixão, se fossem aos poucos transformando num fogo mais brando, eles estavam cada dia mais unidos, mais companheiros, mais cúmplices.
Mas tudo mudara há uns sete anos. Os primeiros sinais foram tão imperceptíveis que quase nem se apercebeu. Uns momentos de ausência que ele até tomou por qualquer preocupação que a mulher tivesse com algum dos seus sobrinhos.
A sua avó dizia que “a quem Deus não dá filhos, o diabo dá sobrinhos” e os da mulher não eram lá grande coisa. Só apareciam a ver a tia, para pedirem dinheiro.
Depois, pequenas perdas de memória, primeiro raras, depois mais frequentes. A princípio nem o médico de família lhe ligou importância. Eram sintomas normais de envelhecimento. Afinal com a idade, toda a gente vai tendo essas pequenas perdas de memória, disse ele. E aconselhou-a, a passar a fazer uma lista das coisas para não se esquecer.
A determinada altura Alzira, tornou-se agressiva. Ele pensou que ela devia ter consciência de que algo de grave lhe estava a acontecer e estava revoltada. 
Perdeu a sua característica doçura, tornou-se agressiva. E chorava com frequência, que ele bem via os seus olhos vermelhos. Uma fase que durou quase três anos. O médico receitou calmantes, ela não os queria tomar, porque a deixavam meio a dormir o dia todo.
Depois, a agressividade foi trocada pela apatia.  Parecia que nada despertava o seu interesse. Progressivamente era como se aos poucos se fosse desligando do mundo que a rodeava.
E só nessa altura, o médico lhes passou uma credencial para um neurologista. Esperou algum tempo pela consulta no hospital, enquanto os sintomas se iam agravando.
Quando finalmente foi à consulta o diagnóstico não podia ter sido mais terrível para Luís, embora ele tivesse a noção de que Alzira já não tinha discernimento para saber o que era ter Alzheimer.



19 comentários:

Isa Sá disse...

a passar por cá para acompanha a história..


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Ana disse...

Uma história que vou ler de início. Gostei! =)
Beijinhos,
http://chicana.blogs.sapo.pt/

✿ chica disse...

Gostando de ler e triste esse diagnóstico!Muito virá! bjs, chica

Anete disse...

O capítulo anterior, caliente e impactante... O de hoje, surpreendente emoção... Puxa, um diagnóstico sério...
Vamos adiante p ver os pxs passos do casal...
Bjs

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Doença terrível que cada vez mais pessoas a contraem.
Um abraço e boa semana.
Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

Jaime Portela disse...

E vidas assim são ainda mais difíceis quando não há filhos.
Mais uma história bem contada, resta saber como acaba.
Elvira, continuação de boa semana.
Beijo.

Emília Pinto disse...

Não estava nada à espera que isto acontecesse, mas a vida nem sempre é boa; dizemos que é bela, que merece ser bem vivida, mas....estejamos preparados, pois não só de contentamentos consta a vida; problemas e sofrimento aparecem também. Obrigada, Elvira e parabéns! Estou a gostar muito. Beijinhos
Emilia

Os olhares da Gracinha! disse...

...e agora tudo se complicará! Bj

António Querido disse...

Sempre que as histórias, metem acidentes, ou doenças graves pelo meio, é a realidade mas mexem comigo!
Gosto do amor e uma cabana, embora tenha consciência que nem todas as vidas são rosas.
Da "minha Figueira", vai o meu abraço.

Edumanes disse...

A correr no tempo,
para o fim da vida
deixa-nos sofrimento
leva-nos a alegria!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Rui disse...

Um terrível diagnóstico que não irá favorecer em nada o desenrolar dos acontecimentos do casal ! :(
Torna-se muito mais difícil. Vejamos como a autora conseguirá tornear estes "obstáculos" !? ...

Abraço

maria madeira disse...

Elvira, estive por aqui, no seu blog, cerca de quinze minutos. Estive a ler atentamente as cinco partes desta sua história e, digo-lhe, que uma pessoa fica envolta nas palavras que, me parecem, ser uma mistura de realidade com uma quota-parte de ficção (não sei, penso eu). Admiro a parte em que toca no tema sexualidade associado a uma geração para quem a sexualidade era tabu. Era, e em certos casos penso ainda ser. Isto está muito bom, tem um jeito natural para contar histórias.

Um abraço, Elvira.

Ana Freire disse...

Uma doença terrível... por vezes... bem pior para os cuidadores de pessoas com ela!
Diagnosticada a uma pessoa próxima e minha amiga... por isso, algo que me é familiar...
Beijinho
Ana

Prata da casa disse...

Uma doença terrível não só para o doente como para a família .
Bjn
Márcia

Berço do Mundo disse...

A Elvira está a republicar uma história antiga? Ia dizer que já li um episódio por aqui muito parecido.
Tenho um medo do Alzheimer que nem sei explicar. Deve ser tão assustador esquecermo-nos de quem somos!
Abraço
Ruthia d'O Berço do Mundo

Socorro Melo disse...


Olá, Elvira!

Acompanhando a história com muita atenção e expectativa, amiga. O tema é realmente digno de estudo e reflexão. É uma doença muito séria. Um mal irremediável e que requer muito amor e paciência dos cuidadores. Penso que não há coisa pior do que perder a própria memória e com ela a história e a identidade.

Pedro Coimbra disse...

Uma doença terrível que afectou uma pessoa muito importante na minha vida.
Um horror.
Deixou de conhecer o marido, o filho, nunca conheceu as netas.
Até partir.
Um abraço
KUNG HEI FAT CHOI!!!

Odete Ferreira disse...

Amiga: as duas irmãs do meu pai, já falecido há muitos anos, e elas também, padeceram desta doença...

Dorli Ramos disse...

Elvira,
Morro de medo dessa doença. Leio um livro a cada 15 dias e tenho os dois blogs.
Beijos
Minicontista2