12.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XI






-Vai-te embora, Ana.
A voz saiu-lhe seca e rude como um tiro. Assustada, a jovem largou-lhe o braço e deu um passo atrás.
- Outra vez? Estás muito instável. Não pensei que depois de cinco anos voltasses assim. Não podes ser o Simão. És apenas parecido com ele. O Simão que eu conheço não me trataria assim. 
Afastou-se a correr, para que ele não visse as lágrimas que embaciavam o seu belo olhar.
Ele ficou no jardim vendo-a afastar-se. Doía-lhe o corpo e a alma. Sentia-se impotente para dominar os seus sentimentos. Apertou os punhos. Que podia fazer? Correr atrás dela e confessar-lhe… o inconfessável? Não podia fazê-lo. Ia odiá-lo. E com ela toda a sua família. Tinha que se dominar. Disfarçar. Fingir.
Mas ele nunca fora bom a fingir. Desde menino sempre quis saber a verdade das coisas e ser verdadeiro com os seus sentimentos e as pessoas que o rodeavam. Sentou-se e fechou os olhos.
Sobressaltou-se ao sentir uma mão no ombro.
- Que se passa, filho? Porque não entras e te divertes como os teus irmãos? Convivem tão pouco.
- Não se passa nada, pai. Estava aqui a recordar. A lembrar da primeira vez que entrei nesta casa, para cá morar. Até aí, vivia com os meus avós.
-Sim? Tinhas cinco anos. Não julguei possível que te recordasses.
-Pois. Mas na verdade até lembro, da primeira tarefa que me deste. Disseste para vir para o jardim com os manos, tomar conta deles, e ter especial cuidado com a Ana porque era ainda um bebé.
- E tu passaste a manhã toda com ela ao colo, - sorriu Afonso
- Ela gostava. E eu sentia-me tão importante com isso.
O pai sorriu e mudando de conversa, perguntou:
-Quando é que pensas, deixar Paris e voltar para casa? A mãe sofre, com a tua ausência.
- Sinceramente ainda não pensei nisso.
- Tens alguém lá que te prenda? – Perguntou encarando-o.
-Não. – Respondeu com firmeza, devolvendo o olhar
- Então filho, juro que não te entendo. Sei que Paris é uma cidade linda, com uma grande concentração de artistas de todo o mundo, muitas tertúlias, muita boêmia. Mas será que um homem pode ser feliz só com isso? Já realizaste algumas exposições e todas foram um êxito. O teu nome anda sempre associado ao talento. Então, o quê, ou quem, te mantem exilado da tua pátria e daqueles que te amam?
Engoliu em seco. Mas não respondeu.
Afonso sentiu que havia qualquer coisa que impedia o filho de regressar. Qualquer coisa de muito doloroso. Era advogado há muitos anos. Conhecia a natureza humana. Estava habituado a descobrir nos silêncios, coisas que lhe queriam esconder. E o filho escondia-lhe alguma coisa. Talvez precisasse da sua ajuda e não se atrevesse a pedir. Tinha que estar alerta.
- Vamos Simão. Está na hora do jantar.
E os dois homens entraram em casa.



15 comentários:

Isa Sá disse...

a passar para acompanhar a história e desejar um ótimo dia!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Tintinaine disse...

Coitado do Simão! Lá chegará a hora em que vai compreender que o amor entre ele e a Ana não tem qualquer problema.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Continuo a acompanhar a história com muito interesse.
Um abraço e boa semana.
Andarilhar

António Querido disse...

Será que vai começar a desbobinar? O pai e nós, ficamos à espera!
O meu abraço.

Prata da casa disse...

Pobre Simão. Será que não se lembra de que não são verdadeiramente irmãos?
Bj
Márcia

Edumanes disse...

Para ela disse Simão,
vai-te embora Ana
ficando com a paixão que anda
apoquentando o seu coração!

Tenha um bom dia amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Socorro Melo disse...


Situação difícil a do Simão. Desejo-lhe boa sorte.

Emília Pinto disse...

Querida Elvira, estive a ler o teu conto desde o começo e, como sempre, interessantíssimo. Cá fico à espera do desenrolar dos acontecimentos. Um beijinho e tudo de bom para ti e para todos aí em casa.
Emilia

Taty disse...

olá!
Adorei!
Conhecendo o blog hj e adorando!
Vou ficar por aqui pra não perder nadinha!
Bjus
Taty
Na Casa dos Abrantes
Canal

Rogerio G. V. Pereira disse...

Simão é um dissimulado, afinal
Simula é mal

é mesmo mau, no fingir

Pedro Coimbra disse...

Curioso pelo que aí vem...
Um abraço

Mar Arável disse...

Sigo os seus textos
Teremos livro?
Aguardo na minha escarpa

maria disse...

Pois é... inconfessável?... qual será o segredo de Simão?

lua singular disse...

Oi Elvira,
Amanhã volto quero saber o que acontece com simão."Arrumei a outra postagem".
Beijos
Lua Singular

Roselia Bezerra disse...

Boa noite, querida Elvira!
Não sabe o bem que me está fazendo essa história... nada é por acaso!
Bjm muito fraterno