25.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE III


Foi difícil. Alzira corava quando o marido lhe lançava um olhar mais atrevido, tinha vergonha de se despir na frente dele, quanto mais abandonar a posição de missionário por uma nova experiência, ou ficar de luz acesa na intimidade. Foi preciso muita paciência, muito amor, até que a esposa, percebesse que não há nada proibido, nem vergonhoso entre dois seres que se amam, e entendesse que contrariamente ao que a mãe lhe dizia, o caminho para o coração de um homem pode não ser exatamente o do estômago.
Três anos depois, Luís começava a ficar preocupado, pois apesar de não usarem métodos contraceptivos, e terem uma vida sexual intensa, Alzira não engravidava. Depois de conversarem sobre o assunto, resolveram procurar ajuda médica. Luís pensava que talvez a esposa fosse estéril, e ela temia isso mesmo. Emagreceu, estava triste. Temia perder o marido. Adorava-o. Para ela, era Deus no Céu e o marido na terra. Ele percebeu. E apesar de ansiar por um filho, jurou-lhe que nada mudaria se ela não os pudesse ter. Amava-a de qualquer jeito. Porém depois de todos os exames feitos descobriu que afinal o problema era dele. Sofria de Azoospermia.
Ele não sabia o que isso era, e então o médico explicou-lhe que o seu sémen  não continha espermatozoides. Era como se o seu sémen fosse um ovo sem gema. Impossível ser pai, a não ser que recorresse à adoção. Ficou triste, enraivecido, doente. Sentia-se diminuído.
Foi nessa altura que se apercebeu do verdadeiro amor da esposa e de como ela tinha mudado. Convenceu-o que para ela, era muito mais importante o seu amor, do que o desejo de ter filhos.
Ainda que não fosse mãe, era mulher, e uma mulher que ele fazia muito feliz.  Mas a maior prova de amor, recebeu-a, quando interrogada pelos pais, sobre quando lhes daria um netinho, ela assumiu perante toda a família que era estéril.
Anos mais tarde, pensando que aprendera o suficiente para tentar dar outro rumo à vida, Luís decidiu emigrar. Alzira deixou tudo e foi com ele. Estiveram quinze anos na Suíça. Trabalharam muito, fizeram alguns sacrifícios e regressaram com o dinheiro suficiente para comprarem um terreno e construírem uma bonita casa.
Não era nenhuma mansão, muito menos um palacete, mas era uma bonita casa térrea, com um pequeno terreno à volta que a mulher logo encheu de flores.



20 comentários:

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um problema comum este do Luís, estou a gostar da história.
Um abraço e boa semana.
Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

Tintinaine disse...

São os azares da vida. Outros interesses surgirão para os manter unidos.

Isa Sá disse...

a passar para acompanhar a história.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

paideleo disse...

Vexo que non paras e inicias outra historia.
Alédome da túa capacidade para escribir e deleitar aos demais.
Por certo, visitei " virtualmente " o xardín Buddha Eden de Bombarral e prestoume.
Queda pendente para un futuro.
Graciñas pola consella.

Roaquim Rosa disse...

bom dia
como sempre cada episodio nos deixa mais motivados para e seguinte !
JAFR

O meu pensamento viaja disse...

A infertilidade parece ser actualmente um problema de grande dimensão. Importante que o amor entre o casal supere esta situação. Bj

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Bom dia querida Elvira!
Estou gostando muito e ansiosa para saber que rumo irá dar a este lindo conto e viva o amor.
Um abraço e até amanhã.

António Querido disse...

Vou ser talvez um pouco ousado, mas mudar de país para trabalhar, ou de férias, resultava com colegas minhas francesas!
Fico por aqui antes que me saia mais alguma asneira...
O meu abraço.

Taty disse...

Conta mais que estou amando!
Bjus
Taty
Na Casa dos Abrantes
Canal

rendadebilros disse...

Como às vezes se diz, aprece não haver felicidade completa. Que novidades nos trará a continuação desta história de vida? Beijinhos.

© Piedade Araújo Sol disse...

pois...a culpa era sempre da mulher...

vamos aguardar, que a historia promete

beijinho

:)

Rui disse...

Comecei por dizer que estava perfeitamente "enquadrado" com a época ! ... E é verdade ! Um belo "retrato" desses tempos !
na segunda parte, curioso, como sempre e desde sempre a primeira reacção vai para a esterilidade da mulher !?... Só quando esgotados todos os meios de diagnóstico se coloca a outra hipótese de afinal se tratar de uma azoospermia no que os homens são tão relutantes em aceitar !
E como a Alzira num acto inesperado de amor e nobreza, arcou com a responsabilidade da situação !

:)

Janita disse...

Lido o episódio anterior e este actual, fico a matutar em como a Elvira consegue retratar tão bem as mentalidades de outrora.


Sem querer ser mais papista do que o Papa, sinto que há neste conto algo muito semelhante a uma autobiografia.
Aguardo a continuação.

Um abraço.

Prata da casa disse...

Nada que o amor entre os dois não possa resolver. Estou a gostar da história.
Bjn
Márcia

Rogerio G. V. Pereira disse...

Intenso
aborda um tema nada fácil

eu seria incapaz de escrever sobre tal

(há situações em que Deus devia ser chamado a depor)

Pedro Coimbra disse...

Conheço muitos casais inférteis.
Não é ele, não é ela, é o casal.
Uma boa parte deles adoptaram.
Porque paternidade/maternidade é muito diferente de espermatozóide e óvulo.

Os olhares da Gracinha! disse...

Espera_se que o amor vença! Bj

Ana Freire disse...

A esterilidade é sempre melhor aceite, quando o problema é da melhor... pois os homens sempre a associam a impotência... não deveria ser assim... mas... é assim que a sociedade, vai olhando para tal, infelizmente...
Estou a adorar a história!
Beijinhos
Ana

Odete Ferreira disse...

Neste conto há ingredientes muito interessantes. Muito bem, Elvira.
Bjinho 😊

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,

que pena ele não poder ter filhos.
Engraçado, tive dois maridos e não engravidei de nenhum e nunca tive nada. Foi constatado ser psicológico. Pra mim foi mais fácil adotar
Beijos
Minicontista2