13.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXVII


foto google


Isabel permaneceu nos correios durante um bom bocado. Depois de expedir as cartas, dirigiu-se aos expositores de livros, e fingindo escolher um, lá permaneceu por quase meia hora, e quem sabe não teria ficado mais tempo se entretanto não chegasse a hora do encerramento. Tinha medo de voltar a encontrar Luís. Não se reconhecia. Ela que enfrentara com coragem a morte do marido daquela forma brutal. Que lutara pelos seus sonhos mesmo quando não dormia para cuidar dos pais. Que era feito daquela mulher forte, a quem a vida madrasta não assustava? Quem era aquela mulher que tremia feito criança assustada na presença de um quase desconhecido?
Entrou no prédio e dirigiu-se ao elevador
- Boa tarde menina, - saudou a porteira que se dirigia para a porta da rua com um balde e uma esfregona.
- Boa tarde D. Rosa. Desculpe não a tinha visto. E dizendo isto abriu a porta do elevador.
- Não faz mal menina. Tenha cuidado ao sair do elevador, o chão pode não estar seco ainda.
- Terei cuidado. Até logo e obrigada pelo aviso
- Até logo menina. Vá com Deus.
A conversa com a porteira tivera o condão de a desviar dos seus pensamentos e sentia-se agora mais calma.
Quando em 2007 ela fora morar para o prédio já a D. Rosa lá estava. Era uma mulher sozinha. O marido morrera há anos e o único filho que tivera emigrara para França. Queria fugir dum futuro sem esperanças. Lá casou e lá foi pai por duas vezes. A princípio vinha sempre a Portugal, todos os anos em Agosto. Depois os filhos começaram a crescer, foram para a escola, arranjaram amigos e foram-se desinteressando das férias em Portugal. Afinal lá é que era a sua terra e lá estava o seu futuro. Se a nora fosse portuguesa, decerto faria pressão para vir ver a família. Mas não era. Aos poucos as visitas foram rareando. A última vez que viu o filho e os netos foi no funeral do marido. Nessa altura o filho insistiu em levá-la, tinha lá boa vida que comprara há poucos meses, e até tinha um quartinho para a mãe. Mas ela não quis. Costumava dizer “Vivi aqui toda a vida, quero repousar aqui". E depois eles têm lá a sua vida os seus costumes e eu ia para lá servir de estorvo. São outras terras, outras modas."E burro velho não aprende línguas".Aqui, tenho a sorte de ter este trabalho, tenho a casa, não pago renda, os inquilinos são como amigos, tratam-me com carinho que mais hei-de querer?”
Um dia Isabel perguntou-lhe: - Mas não tem saudades deles?
-Ai menina, se tenho. É uma mágoa sem tamanho. Mas sabe a minha avó sempre dizia. Quando casamos uma filha, ganhamos um filho, quando casamos um filho perde-mo-lo.
- Nem sempre D. Rosa, nem sempre.
- Claro, menina há excepções. Mas do mesmo modo que uma filha puxa o marido para nós, a nora também puxa o marido para a família dela. É a ordem natural das coisas.
Isabel gostava dela. Talvez fosse a solidão das duas que as aproximava.
Tomou um duche rápido, envolveu-se num roupão de seda e dirigiu-se à cozinha.
Não lhe apetecia cozinhar. Procurou no frigorífico as sobras. Tinha um pouquinho de frango assado. Também um restinho de arroz branco. Meia alface, um pimento, e um tomate.
Na dispensa havia sempre uma latinha de milho. Decidida fez uma salada de frango.                             

20 comentários:

lidacoelho disse...

Hoje vim até aqui. Gosto de ler estes textos. Gosto de perceber as suas tramas e os seus pensamentos.
Ainda não arrumei a casa e cada dia se torna mais difícil.
Ainda não consegui encontrar as definições para colocar a lista de amigos e de leitura. Haverei de chegar. Com o primeiro blog parece que tudo foi fácil.
Desejo que tudo vá bem coma Elvira e os seus.
A vida é um presente que vamos abrindo e amando.

Pedro Coimbra disse...

Conheço muito bem todos esses pormenores que descreve acerca de casar fora de Portugal e dos filhos crescerem fora do país e pouco se sentirem ligados a ele.
Um abraço

António Querido disse...

Apanhei o comboio da manhã e passei por aqui, para não perder o desenrolar da história, gostei da salada de frango ao pequeno almoço!
Com o meu abraço.

Blog da Gigi disse...

Ótimo dia!!!!!!!!!!!! Beijos

Tintinaine disse...

Fiquei a pensar no porquê de o Luís lhe ter dado um nome falso. Será um escroque? Em breve o saberemos!

Isa Sá disse...

a passar para acompanhar a história...e aquela foto já me abriu o apetite.

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Rui Pires - Olhar d'Ouro disse...

Muito interessante e absorvente!
Abraço,

Rui

© Piedade Araújo Sol disse...

Elvira

estive a ler os anteriores para seguir a trama que promete.

muito talento para a narrativa tem a Elvira.

beijinho

:)

Às Bolinhas Amarelas disse...

Gosto do que e como escreve! Este texto tocou-me particularmente na parte em que "casamos um filho e perdemo-lo". Há raras exceções, mas acredito que seja mesmo assim.
Tenho que aproveitar enquanto os meus são pequeninos e mostrar-lhes que a família é o pilar, o resto são acrescentos.

Beijinho e boa semana
www.blogasbolinhasamarelas.blogspot.pt

Ana S. disse...

É verdade na grande maioria das vezes. quando os homens casam, passam a ser dominados pelas mulheres e se elas implicam com a sogra, ele acaba por afastar-se da familia para não haver conflitos em casa. Raro é o caso em que a sogra e a nora dão-se bem mas acontece!
Abraço

Edumanes disse...

Isabel tem com certeza vontade de se cruzar com o homem dos olhos cinzentos, mas ao mesmo tempo parece não ter coragem para o enfrentar? Todavia, se eles se amam o destino os há-de juntar!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Gaja Maria disse...

A ler a continuação da história :)
Beijinho Elvira

Odete Ferreira disse...

Acompanhando...
O nome falso deve ser para "baralhar" os leitores.
(Tenho cá a minha ideia, vamos ver...)
Bjo, amiga :)

Anete disse...

Bom dia, Elvira.
A narrativa prossegue criativamente. Estou gostando do que que li nos dois últimos capítulos.
É mesmo, quando casamos um filho é bem diferente de filha. Precisamos agir com muita sabedoria!
Vamos adiante. Vêm boas novidades por aí p Isabel.
Beijinhos

Mariangela do Lago Vieira disse...

Bom dia!!
Que boa história, pelo que li até agora, promete muito!
Eu tento ao máximo agradar as minhas noras ( uma nora e duas namoradas) para que sintam prazer em vir aqui, e desmistificam esta lenda que sogra é chata rsss...
Um grande abraço Elvira!
Mariangela

Blog da Gigi disse...

Lindo dia!!!!!!!!! Beijos

Duarte disse...

Isso também me passa a mim, desconheço as artes culinarias, limito-me ao dama, valete e rei, mas la vai saindo. Ela sim é uma artista, eu só ajudo.
O texto, como sempre, uma maravilha.
Besos, nuestros.

Elisa Bernardo disse...

Adoro ler o que escreve Elvira
Muitos beijinhos
elisaumarapariganormal.blogspot.com

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

É muito bom ler você querida Elvira, um abraço.

Ana Freire disse...

Mais um capitulo super empolgante!
Adorei os diálogos!
Bjs