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I
Corria o ano de mil novecentos e sessenta e quatro.
O dia amanhecera radioso. Era um belo dia de Setembro, quando Setembro capricha ainda por nos dar um Verão, que a pouco e pouco se vai despedindo, renitente em dar lugar ao Outono.
Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:
Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:
- Acorda preguiçosa. Não sabes que dia é hoje? É um grande dia!
A jovem sorriu. Sorriu para o céu azul, para o passarinho, que naquele momento, passou a cantar, esvoaçando pela janela do seu quarto, e para o sol radioso que anunciava um dia de calor. Levantou-se, foi até à janela e abriu as vidraças, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno. Na sua frente, o rio, maré cheia, águas calmas, mais parecia um espelho, onde o céu se refletia vaidoso. Tomou banho, vestiu a sua melhor roupa e foi acordar a irmãzita que dormia na cama ao lado da sua. Deu-lhe banho, barrou-lhe o pão com um pouco de margarina, que constituía o de-jejum habitual, juntou-lhe um copo com leite quente, e deixou-a a comer, enquanto "puxava as orelhas" à cama e dava uma arrumação aos quartos. Pouco passava das dez, quando a pequenita gritou alvoraçada:
- Mana, já se vê o barco, já lá vem...
Correu à janela. Era verdade. Do outro lado da ponte já se via o barco. Resolveu ir até ao cais de desembarque. Porque o navio que se via ao longe, era o Gazela, um lugre-patacho da pesca bacalhoeira, que pertencia à Parceria Geral de Pescarias, dona da Seca da Azinheira, onde ela nascera e vivia. Andando devagar, com a irmã pela mão, chegou até à velha ponte de madeira, que servia de cais de desembarque da Seca. Ali já se encontravam muitas mulheres, velhas e novas, bem como alguns homens idosos, e muitas crianças. Eram os pais, as mulheres, e os filhos dos pescadores, que ali tinham ido espera-los, a fim de anteciparem de algumas horas, a visão dos entes queridos, que há mais de seis meses, haviam partido, para os mares distantes, da Terra Nova, e Gronelândia. Era assim todos os anos. Mas apesar de não ser novidade, ela ia lá sempre. E sempre se emocionava, como se fora a primeira vez. Não tinha lá ninguém e tinha toda a gente. Nascida ali, conhecia todos os pescadores e a todos admirava. Alguns, mais novos, filhos de gente que morava na Telha, e trabalhava na Seca durante a Safra, foram companheiros de brincadeiras. Depois cresceram, e ou por gosto, ou por falta de opção, ou ainda para fugirem da guerra colonial, juntaram-se aos pais, ou substituíram-nos, nos navios de pesca bacalhoeira. Com custo arrastada pela irmã, cuja curiosidade a empurrava lá para a frente, chegou mesmo à ponta do cais. Olhou à volta sem curiosidade. Sabia o que ia encontrar. Alentejanas, algarvias, nazarenas. Algumas vinham da terra, outras há muito tempo se tinham radicado na Telha, Quinta da Lomba, ou Verderena, localidades à volta da Seca, sabendo que tinham trabalho sempre que chegavam os barcos. Todas vinham à espera de alguém. Um filho, um pai, um irmão, um noivo, um marido...
18 comentários:
De volta à pesca do bacalhau,
e à seca, do mesmo, na azinheira
naquele tempo do que bom mas mau
não havia tempo para a brincadeira.
Do qual ainda não me esqueci,
não sei se foi entre duas datas
dizem que no mês de Março nasci
com os pés descalços sem alpercatas!
Mais um conto a navegar,
em alto mar num veleiro
se puder irei acompanhar
mas, não fui Fuzileiro
cumpri o serviço militar
no Exército Português
gostava de lá voltar
se pudesse outra vez!
Não sei a que porto seguro,
esse veleiro irá ancorar
prefiro a claridade não escuro
para aqui de novo poder voltar!
Tenha uma boa tarde de domingo amiga Elvira.
Um abraço.
E que belo momento o da chegada !
_e a expectativa enche os corações de ansiedade.
Quero acompanhar essas datas preciosas e inesquecíveis desse conto.
Um abraço Elvira
Que lindo e quanta emoção existe já na espera, imagina no reencontro...Tanto a dizer, tanto a acontecer! beijos,chica e já gostando!
Gostei minha amiga e desejo-lhe um bom Domingo.
Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados
Boa tarde. Mais um bonito episódio:)) Gostei muito...
Bjos
Domingo feliz.
E de Palhais, não havia ninguém?
Talvez uma Filomena magricela que foi minha namorada?
De facto esta história traz-me lembranças de um tempo feliz, sem responsabilidades e sem o peso dos anos. A juventude vale mais que tudo!
Mais uma estória importante que gostei de ler!! Está de parabéns
Poetizando...- "Trabalho árduo... ao luar" ( Poetizando ...)
Beijos...Bom Domingo
Essas chegadas e partidas deviam ser emocionantes! bj
Só de ler este texto, veio-me ao nariz o cheiro do mar.
Imagino que a Telha na altura (1964) era mais natural e selvagem que hoje.
Abraço, boa semana.
Gostei de ler
Bjs
https://caminhos-percorridos2017.blogspot.pt/
Mulheres de choradas saudades
Homens de tão sofridas ausências
Dá sempre para boas narrativas e memórias
Uma boa memória.
abraço Elvira
Bom dia. Visitando e gostando muito de ler.
.
* Aroma da papoila ... E a outra face do sentimento *
.
Inicio de semana feliz.
Tinha que vir aqui o engatatão do "Tintinaine" falar das namoradas!
Eu que era Querido só frequentava os bailes em Palhais, mas para me divertir não para arranjar namoradas, levei uma para a Quinta da Lomba mas era da aldeia onde nasci, comecei por brincar com ela no tempo da escola primária nunca mais deixámos de brincar até hoje.
E esta hei!
BOA SEMANA.
Amei o início desse conto, já vislumbro uma bela história e, também, apreciei o ano em que irá desencadear essa história, pois é o ano em que nasci.
Beijos carinhosos!
Boa noite Elvira,
A chegada dos pescadores da pesca do bacalhau era um acontecimento!
Tantos que por lá ficavam!
Vou continuar a ler.
Beijinhos,
Ailie
Muito bom começo para mais um grande conto! Tenho ceteza.
Um abração!
Mais uma história/estória que começa, promete ser boa e me deixa curioso e com vontade de ler mais.
Abraços,
Furtado
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