25.2.18

CARLOTA - PARTE II



foto minha, de um dos armazéns da Seca da Azinheira.

No final do primeiro ano de safra, Carlota juntou os seus trapinhos, e o pouco dinheiro amealhado, e foi à aldeia. Há quatro anos que não via os pais, nem os irmãos, alguns tinham casado entretanto, tinha família, que ainda não conhecia.
Tinha quinze anos mas não aparentava nem treze, pois continuava miúda e franzina, embora cheia de genica. Depois de abraçar os pais e irmãos, conhecer os cunhados e até um sobrinhito, nascido entretanto, começou a procurar trabalho nas quintas da aldeia. Afinal iria permanecer lá até ao final de Agosto, altura em que pensava voltar ao sul, para a safra do bacalhau. E nessa vida o tempo foi passando, os anos foram fazendo o seu trabalho e aos dezoito anos, Carlota, era uma bela jovem, apesar do seu escasso metro e cinquenta. Tinha uma farta cabeleira que usava sempre entrançada, uns grandes e expressivos olhos castanhos, que iluminavam um rosto bonito, de nariz fino e boca pequena. Bem proporcionada de corpo, não lhe faltavam pretendentes, mas a jovem achava que era muito nova para se prender, queria algo diferente da vida, algo mais do que encher-se de filhos como a sua mãe e irmãs, e então pensava que quanto mais tarde isso acontecesse melhor.
Mas a vida, ou o destino, ou lá o que fosse, fez com que nesse ano, o patrão se enrabichasse por ela. Na verdade já no ano anterior ela notara que ele a olhava de maneira estranha. Mas como a jovem sempre ia e vinha acompanhada de outras trabalhadoras, a coisa não passou disso mesmo.
Porém naquela noite de Julho, quando ela regressava a casa, foi surpreendida pelo homem que a tomou à força. Consumado o ato vil, ainda a ameaçou, dizendo que se ela contasse a alguém, o seu pai ia aparecer morto num qualquer valado, daqueles caminhos, sem ninguém saber como.
Ferida no corpo e na alma, a jovem engoliu o choro, disfarçou o melhor que pode, a dor e a raiva que sentia, e no dia seguinte, despediu-se dos pais dizendo que estava farta do trabalho no campo, e que ia para casa da irmã na Seca. De resto estava-se nos finais de Julho, faltava um mês para a safra começar, podia ser que a aceitassem para a limpeza dos armazéns, que faziam sempre antes dos navios chegarem.
Cedo, a irmã e o cunhado notaram que Carlota estava diferente. Antes parecia um rouxinol, sempre cantando, agora estava triste calada. O sorriso fácil e bonito de antes, parecia agora um esgar. Até a paciência para as brincadeiras com os sobrinhos perdera.



22 comentários:

Os olhares da Gracinha! disse...

O que nunca deveria ter acontecido e eu conheço alguém com igual triste experiência! bj

noname disse...

Sinto sempre um enorme nojo, um asco sem tamanho de "coisas" que só porque usam calças se apelidam de homens. Há coisas que parecem não mudar nunca. Mandasse eu e cada um deles teria a morte certa, bem devagarinho.

Boa noite Elvira

✿ chica disse...

Motivos fortes pra tristeza...Bem contado tudo! beijos, chica

Cidália Ferreira disse...

Boa noite. São marcas que ferem a ama para toda a vida!

Poetizando... Notável jura de Amor... [ Poetizando...]

Beijos

Larissa Santos disse...

Episódio triste :/
Mas gostei de ler.



Bjos

Votos de boa noite

Lucia Silva disse...

Realmente, o que aconteceu a ela foi muito triste! Ser tomada, sexualmente, à força é um desrespeito profundo à dignidade da mulher. Esperar com ansiedade o decorrer dessa história que promete ser um arraso de boa.
Beijos carinhosos!

A Nossa Travessa disse...

Minha querida Elvirinhamiga

Esta estória começa mal, começa muito mal.A pobre Carlota não merecia ser violada. Ninguém, homem ou mulher dever ser violado. Mas a vida é madrasta. Minha querida tens de dar a volta a esta narrativa porque exijo que venham melhores tempos, mas é apenas uma figura de retórica pois tenho a certeza de que virão.

Muitos qjs do teu amigo e admirador
Henrique, o Leãozão

Cantinho da Gaiata disse...

Uma revolta e uma dor na alma que a irá acompanhar sempre,uma tristeza.
Espero que a amiga Elvira lhe dê um final feliz.
Bj

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história e desejar um bom domingo!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

António Querido disse...

A Carlota não merecia ter esse monstro por perto, começa triste a história, espero que tenha um final feliz!

FELIZ DOMINGO.

Roaquim Rosa disse...

bom dia
vai vir o verão e os dias irão com certeza se alterar para a pobre rapariga.
JAFR

Cidália Ferreira disse...

Passando para desejar bom Domingo.



Poetizando... Notável jura de Amor... [ Poetizando...]

Beijos. Bom Domingo

Olinda Melo disse...


Muito triste. Tantas e tantas mulheres violadas e violentadas como a Carlota há por esse mundo fora e entre nós...

Bj

Olinda

AC disse...

A Elvira já viu muita coisa na vida, daí o seu incrível recurso de novas situações que se enquadram perfeitamente em todas as histórias que vai escrevendo.
Adivinha-se, por mais que a vida lhe bata, a determinação da Carlota, exemplar dos pequenos heróis da vida que tentam levar sempre o seu destino a bom porto.
Cá estarei para ler o que se segue, Elvira.

Abraço :)

Ontem é só Memória disse...

Muito triste!

Bjxxx
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Edumanes disse...

Dela se aproveitou sem sentir amor,
brutamontes lhe roubara a alegria
Carlota com a alma ferida de dor
deixou de sorrir como antes sorria!

Tenha um bom dia de domingo amiga Elvira.
Um abraço.

PS: Tenho vaga ideia de que já li esta história.

Duarte disse...

Essas aldeias nossas a quantos sentimentos nos atam! Mesmo sendo algo tristes certas vivências, mas vida tem de tudo e muito disto.
Beijinhos para um feliz Domingo.

aluap Al disse...

Afinal li mesmo esta história dos tempos antigos, em que nas aldeias certas famílias eram donas dos lugares, e todos lhes prestavam reverência.
Boa semana Elvira.

Ailime disse...

Boa tarde Elvira,
O que a Carlota deve ter sofrido!
Muito triste...
Beijinhos,
Ailime

Minhas Pinturas disse...

A brutalidade e a ignorância de certos seres sempre existirá na face da terra, lamentavelmente.
Beijinhos, Léah

lis disse...

Doloroso quando ouvimos a respeito de casos assim.E acontece a cada minuto.
Pobre Carlota, tão nova e já com experiências tão tristes.

Rosemildo Sales Furtado disse...

A Carlota fez exatamente o que o safado queria, não ser denunciado para continuar fazendo o mesmo com outras. O ideal seria tê-lo denunciado para que os moradores da localidade, com raiva, o castrassem e o violentassem com um pedaço de pau.

Perdoe-me, é que não aceito esse tipo de procedimento.

Abraços,

Furtado