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8.12.16
O NATAL E AS VELAS
O uso das velas acesas na noite de Natal é conhecido de todos nós. Mas sabemos porquê?
Conta-se que um pobre sapateiro, que vivia numa encruzilhada, algures em qualquer parte do planeta, tinha por hábito, todas as noites pôr uma vela acesa na janela da sua cabana, a fim de servir de referência a qualquer caminhante perdido.
Um dia, começou a guerra, e todos os homens válidos da aldeia foram para a guerra, deixando a aldeia, mais triste e pobre do que já era. Mas o velho sapateiro continuava a acender todos as noites a sua vela, como se quisesse iluminar o caminho daqueles que tinham partido. Vendo a persistência do pobre sapateiro que apesar de velho e doente, não deixava de lado a esperança, as mulheres da aldeiam resolveram imitá-lo e naquela noite de Natal, a aldeia encheu-se de pequenas luzes que tremeluziam nas janelas de todas as casas.
Então à meia noite os sinos da Igreja começaram a tocar. Mas nessa noite o toque era diferente dos outros anos, quando o padre tocava para anunciar o nascimento do Menino. Desta vez, ele anunciava o fim da guerra.
- Milagre, milagre, - gritava a população em coro. É o Milagre das velas. E desde aí, acender uma vela na noite de Natal, tornou-se um simbolo de paz e união em todo o mundo.
A propósito, a Cáritas vende as pequenas velas da foto acima. Chamam-lhes a "vela da paz" e custam apenas um euro. Este ano, a receita da venda destas velas destina-se a ajudar as crianças refugiadas da Síria. Porque não ajudar comprando uma ou mais velas, que podeis oferecer aos vossos filhos, ou netos?
7.12.16
O NATAL E A FONTE DA PEDRA
A propósito da fuga para o Egito, existem milhares de lendas. Uma delas, trás a Sagrada Família até à Serra da Estrela, mais concretamente à zona de Alvoco da Serra. E conta-se assim:
A lenda da Fonte da Pedra
Quando Herodes perseguiu São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus, eles fugiram para o Egito. No seu percurso, passaram pela Serra da Avoaça e N. Senhora quis descansar porque estava muito cansada. Todos tinham sede mas não se via nenhuma nascente por perto. S. José, vendo uma pedra ao pé deles, virou-se para o burro e ordenou:
- Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu mas a pedra não tugiu!
S. José ordenou novamente:
- Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu e desta vez a pedra gemeu!
S. José ordenou pela terceira vez:
- Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu e a pedra chorou!
E desta forma puderam os três matar a sede. A partir daí, a nascente passou a chamar-se Fonte da Pedra e possui propriedades terapêuticas; nomeadamente, a água cura os cravos, isto é, as verrugas das mãos.
Ainda lá estão as três marcas na pedra:
A primeira está seca (não tugiu).
A segunda deita um fio de água (gemeu).
A terceira é a nascente (chorou).
Enquanto descansavam, Nossa Senhora resolveu estender a toalha sobre uma pedra para comerem algo, que a fome apertava. Pois desde então nunca mais o musgo cresceu nessa pedra, como ainda hoje se pode comprovar!
Porém , chegou a hora de continuarem a viagem e arrumaram tudo. Quando começaram a andar, Nossa Senhora prendeu o manto no mato que crescia na zona e rasgou-o. Como castigo de tal atitude, decidiu que nunca o mato cresceria, seria sempre pequeno. E assim é, visto que ainda hoje se diz que o mato é como o da Fonte da Pedra, quando se pretende explicar que é de pequena estatura.
Tinha a Sagrada Família retomado a sua marcha, quando chegaram a um terreno onde várias pessoas semeavam a terra. E pergunta S. José:
- Então que semeais aqui?
- Semeamos pão (leia-se centeio)!
- Pois voltai amanhã, que pão colhereis!!
E assim aconteceu: no dia seguinte, as pessoas voltaram e encontraram o terreno repleto de centeio maduro, pronto para a ceifa.
Mais à frente, Nossa Senhora e S. José encontraram outro grupo de pessoas que semeavam igualmente um terreno. E, de igual forma, pergunta S. José:
-Então, que semeais vós aqui?
Sendo estas pessoas de má índole, responderam:
- Semeamos pedras!
- Pois voltai amanhã, que pedras colhereis!
E no dia seguinte, quando as pessoas tornaram ao terreno, encontraram-no cheio de pedregulhos. Diz-se que foi na Pedriça de Unhais, onde ainda se podem ver as pedras.
Entretanto, o rei Herodes não se conformou com a fuga da Sagrada Família e mandou soldados no seu encalço. Estes seguiram o mesmo percurso da Fonte da Pedra e chegaram ao local onde o primeiro grupo de homens ceifava o terreno de centeio. Os soldados resolveram informar-se e perguntaram às pessoas:
- Viram passar um homem a conduzir um burro, onde ia uma mulher com um menino ao colo?
- Vimos, sim senhor! - responderam os ceifeiros. - Passaram aqui quando estávamos a semear este terreno!
Ao ouvir tal, exclamaram os soldados:
- Oh! Estavam a semear?! Então já passaram há muito tempo! Já não os vamos conseguir apanhar!
E voltaram para trás, desistindo da perseguição.
Fonte: Aqui
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6.12.16
O NATAL E OS TREMOÇOS
E porque estamos a caminho do Natal, época de nascimento do
Deus menino, lembrei-me de vos contar uma história sobre… tremoços.
Pois tremoços, aqueles pequenos grãos amarelos de que quase
todos gostamos e que comemos com gosto, sem nunca nos enfartarmos.
E o que tem os tremoços a ver com o Menino
Jesus. Pois, quando eu era pequena a minha avó contou-me uma história. Há dias
lembrei-me dela e fui pesquisar na net. E descobri que existe no norte uma
lenda, que a tradição oral trouxe de tempos muito antigos, e que atualmente já
se pode encontrar escrita em livro.
Então vamos lá. Todos sabem a história do
nascimento de Jesus. E também sabem que foi visitado por três Reis Magos.
Ora é aqui que a história começa. Como
sabem, a estrela que os guiava desapareceu quando chegaram a Jerusalém.
Sem saberem onde encontrar o Menino decidiram procurar à pessoa mais
importante, que era o rei Herodes, pensando que decerto ele saberia.
Herodes ao ouvir dizer que teria nascido, um Menino que viria a ser o rei, ficou furioso, mas disfarçando pediu aos Magos,
que depois passassem pelo palácio, a fim de lhe dizerem onde estava o tal Menino
para que ele também o fosse adorar.
Depois de encontrarem Jesus, foram os
Magos avisados em sonhos, que deviam regressar por outro caminho pois Herodes
não podia saber onde estava o Menino. Também José foi avisado em sonhos para
fugir para o Egito porque o rei queria matar o Menino.
Quando Herodes, percebeu que os Magos não
voltariam ao palácio e que fora enganado, mandou que os soldados percorressem
todo o reino e matassem todas as crianças do sexo masculino até aos dois anos de
idade. Como sabemos, José já ia com Maria e Jesus a caminho do Egito, mas não
estavam a salvo, enquanto não atravessassem a fronteira. A qualquer momento podiam ser descobertos pelos soldados do
rei, pelo que não iam por caminhos feitos ou por estradas, mas faziam a
caminhada por sítios mais ermos, e menos habitados.
A certa altura meteram por um tremoçal.
Ora não sei se sabem, mas o pé de tremoço quando este já está maduro na vagem,
faz um grande barulho com qualquer pequeno movimento. Imaginem o barulho, com
José e o burro carregado com Maria e o Menino, a passarem por meio deles.
Maria ficou muito nervosa, pensava no
risco que seria se algum soldado passasse perto e pediu aos tremoceiros para se
calarem. Como eles não o fizeram, Maria zangada terá dito. “ Tão amaldiçoados
sejam, que nunca consigam matar a fome a ninguém. “
Boas Festas
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5.12.16
A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE XI
Quedei-me surpreendida ao ouvir aquele pregão numa voz
masculina. Procurei com o olhar, o dono da voz, e deparei com o Chico que de
cartas na mão, andava de um lado para o outro apregoando:
- Cinco cartas dez tostões!
Durante os dias que se seguiram ao funeral da pobre Esperança,
e aproveitando o resto das minhas férias, tinha conseguido saber que o Chico
tinha voltado do Brasil, viúvo e muito rico. Vinha com a intenção de se fazer
perdoar, e recuperar enfim aquele amor que tinha ficado perdido no passado.
Devo acrescentar que me foi fácil descobrir isto. Bastou seguir o Chico no
próprio dia do funeral, e apresentar-me como amiga da Esperança. Cheio de remorsos, sentindo o peso da solidão, e tendo-me visto em casa e no funeral de pobre mulher, não foram difíceis as confidências.
Mas então que história era aquela? Porque estava ali a
vender cartas no Terreiro do Paço, junto à gare fluvial da travessia Lisboa –
Barreiro? E que roupas eram aquelas tão simples e tão semelhantes às dos outros
vendedores?
Correndo o risco de chegar atrasada ao emprego
interroguei-o. Ele então contou-me, que os remorsos, não o deixavam em paz,
depois de saber da sofrida espera da amada. Pensara acabar com a vida. Mas era demasiado cobarde para o fazer.
Assim resolvera doar em nome da falecida, toda a sua fortuna, para
instituições de caridade. Afinal toda aquela riqueza só servira para fazer dele um homem infeliz, a quem Deus nem se dignara dar descendência, que o pudesse consolar na velhice.
E agora ali estava no sítio onde ela vivera e fazendo o que
ela fizera. Procedendo assim sentia-se mais perto da mulher a quem tanto amara, e que
desgraçara por ambição.
- “Talvez quem sabe, seja mais fácil obter o seu perdão, e
viver este amor numa outra dimensão”
Apertei-lhe o braço, tentando dar-lhe algum consolo e
afastei-me, acompanhada pelo pregão tão conhecido:
- Cinco cartas dez tostões!
Fim
Maria Elvira Carvalho
Pronto, acabou.
Acabei de escrever "Uma história de amor" que irei publicar no princípio do ano. Porque não há melhor maneira de começar um ano que com amor, não é mesmo?
Até lá, terão aqui publicações alusivas à época em que nos encontramos.
Obrigada a todos que têm paciência para me ler. Tenham um bom dia, e sejam felizes.
Pronto, acabou.
Acabei de escrever "Uma história de amor" que irei publicar no princípio do ano. Porque não há melhor maneira de começar um ano que com amor, não é mesmo?
Até lá, terão aqui publicações alusivas à época em que nos encontramos.
Obrigada a todos que têm paciência para me ler. Tenham um bom dia, e sejam felizes.
4.12.16
A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE X
A primeira coisa que os seus olhos viram, foi a urna, iluminada por duas lamparinas. No chão uma coroa de flores. A um canto duas mulheres conversavam baixinho, enquanto velavam o corpo que ele reconhecera imediatamente como sendo a “sua” Esperança. As duas mulheres olharam-no, e depois trocaram um olhar entre si como quem pergunta:
-“Quem será?”
Não lhes ligou. Com passos vacilantes aproximou-se da urna. Olhando a imensidão de rugas no rosto feminino, bem como a pobreza à sua volta, pensou que a vida não tinha sido nada fácil para ela. Sentiu uma punhalada no peito, e um nó na garganta, porque ele sabia, que fora o causador daquele infortúnio.
E pensar nos sonhos que arquitectou no caminho até ali. Tinha chegado tarde, para pedir perdão, tarde para tentar compensá-la dos anos de espera, tarde para viver enfim o sonho da juventude. Havia chegado atrasado. Era como um castigo do céu. Já era tarde quando se arrependeu do casamento, e era tarde ao chegar ali.
Como num filme, passou-lhe pela memória a recordação de todos aqueles anos desde que a conhecera. Uma lágrima rolou pelas suas faces. Nem sequer podia ter o consolo do seu perdão.
Os olhos da morta intensamente verdes pareciam dois lagos de água. Verdes? Mas não eram castanhos os olhos da Esperança? Ele tinha a certeza de que eram castanhos, um quente e belo castanho dourado. E no entanto agora eram verdes. Como podia ser? Seria que até a cor dos olhos da mulher que tanto amou, não recordava direito? Até ele chegou o murmúrio da mulher mais velha.
- Faz-me aflição ver assim a pobrezinha. Mas não consegui fechar-lhe os olhos.
- Eu também tentei, e não consegui. É como se ela esperasse por alguma coisa ou alguém – respondeu a outra mulher, bem mais jovem.
Chico estremeceu. Ela o esperara toda a vida e continuava à sua espera mesmo na eternidade.
O remorso foi tão grande que cambaleou.
- Sente-se mal, senhor?
Era a mulher jovem que vira ao entrar. A outra também se aproximou. Olhou para ele, olhou para a morta e soltou uma exclamação abafada.
- Santo Deus!
Havia tal espanto na sua voz que a jovem olhou. O homem também o fez. E o que viu encheu a sua alma de espanto. Os olhos da Esperança, tinham voltado a ser castanhos, tal como ele os recordava. Um castanho quente e amendoado a que nem a frieza da morte retirava encanto. Assustado, fugiu dali como se fosse perseguido, por todos os demónios do Inferno, enquanto a jovem cerrava suavemente os olhos da defunta, dizendo:
- O Chico. Só podia ser o Chico. Meu Deus porque não me ocorreu logo?
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3.12.16
A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE IX
Tanto que a pobrezinha sofreu por amor do Chico. Quando
percebeu quão falsas tinham sido as suas promessas desinteressou-se da vida.
Era costureira. Deixou a costura. E olhe que tinha muita freguesia. E foi para
o Terreiro do Paço vender cartas. Penso que junto ao mar, tinha a ilusão de estar mais perto dele. E de tanto olhar o mar, os seus olhos foram perdendo a cor, e ficando assim. É como se o próprio mar se instalasse dentro dela, e lhe assomasse aos olhos. Ou como se eles quisessem manter viva a esperança, que o seu
coração já sepultara.
Escutava a voz de Rita, enquanto velávamos o cadáver da
infeliz Esperança. Desde aquele dia em que a vira doente, e aproveitando as minhas
férias, tinha ido todos os dias visitá-la, e fizera amizade com a Rita, a vizinha , que era talvez
a sua única amiga.
Mas só hoje, depois da sua morte, e ali na presença do seu
corpo, Rita me contara a história da pobre mulher.
Não pude evitar as lágrimas. E pensei que se há amores que
são a nossa razão de viver, outros pelo contrário tiram-nos a vida….
**************************************************
Depois de muito procurar o Chico conseguira finalmente saber
onde vivia agora a Esperança, e ansioso seguiu num táxi a caminho de sua casa.
Estava nervoso, e emocionado. Ia finalmente rever a “sua” Esperança, depois de
quase trinta anos. Dava-se conta que apesar do seu casamento, do abandono a que a
votara, ele sempre sentira a doce rapariga como algo seu. Durante todos os anos
em que remoeu o seu remorso, sempre o fez convicto de que ela estava à sua
espera. Se passava pela sua cabeça, que a jovem podia ter casado, ter
filhos, uma família enfim, logo afastava esse pensamento, como quem tira um obstáculo do seu caminho.
O carro acabara de parar junto a uma modesta habitação.
Pagou a corrida, e bateu à porta. Depois reparou que estava só encostada, e
como ninguém vinha abrir, empurrou-a e entrou. Quedou-se na ombreira,
paralisado pela surpresa, o rosto lívido.
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A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE VIII
Uma manhã a polícia telefonou-lhe para o escritório a anunciar a morte de Laura. Tivera um desastre quando conduzia a grande velocidade. Ela e o companheiro tiveram morte imediata.
Não sentiu pena. Que Deus lhe perdoasse mas até sentiu um certo alívio. E passaram-se mais três anos. Por fim decidiu voltar a Portugal. Vendeu tudo, transferiu o dinheiro – uma fabulosa fortuna – para um banco português, e comprou a viagem de regresso.
Não quisera vir de avião. A viagem seria demasiado rápida e ele precisava tempo para pensar. E agora, a poucos minutos do desembarque, só pensava numa coisa. Rever Esperança, saber como estava, o que fazia.
Assim que chegou a terra, apanhou um táxi e dirigiu-se a casa dela. Pelo caminho foi olhando tudo. Quase não reconhecia Lisboa, tão diferente estava de quando ele a deixou.
Pensava. Por certo Esperança teria casado, talvez tivesse filhos. Era o mais lógico. Quem sabe nem mais se lembraria dele. Ainda assim, ele queria pedir-lhe perdão.
A primeira decepção, apanhou-a quando ao chegar ao lugar onde outrora fora a casa da jovem, encontrou um moderno edifício, de vários andares. Ali ninguém sabia quem ela era nem onde vivia.
“Foi melhor assim” – pensou. Que podia eu dar-lhe agora? Dinheiro? E podia com dinheiro comprar o seu perdão?
Logo porém afastou os seus pensamentos e decidiu:
- Tenho de encontrá-la…
Nota:
Espero que acompanhem esta história até ao fim, pois vejo que não vos está a agradar. Sei que criei um personagem imoral, completamente dominado pela ambição, capaz de pisar os sentimentos dos outros em seu proveito. Talvez um psiquiatra encontrasse na infância do Chico, criado num mundo em mudança, ferido por uma guerra, que deixara a Europa, a "pão e água", sem o carinho da mãe, nem a mão firme do pai, a razão para a sua ambição. Mas nenhum de nós é psiquiatra. Eu limitei-me a criar um personagem, e vocês a sentirem sentimentos de repulsa sobre ele. E no fundo é isso que se quer.
Muito mal andaria o mundo se o Chico vos despertasse
simpatia.
Nota:
Espero que acompanhem esta história até ao fim, pois vejo que não vos está a agradar. Sei que criei um personagem imoral, completamente dominado pela ambição, capaz de pisar os sentimentos dos outros em seu proveito. Talvez um psiquiatra encontrasse na infância do Chico, criado num mundo em mudança, ferido por uma guerra, que deixara a Europa, a "pão e água", sem o carinho da mãe, nem a mão firme do pai, a razão para a sua ambição. Mas nenhum de nós é psiquiatra. Eu limitei-me a criar um personagem, e vocês a sentirem sentimentos de repulsa sobre ele. E no fundo é isso que se quer.
Muito mal andaria o mundo se o Chico vos despertasse
simpatia.
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1.12.16
A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE VII
Esperança, a doce namorada, estava muito longe de si, e da sua nova situação de homem rico. E casando com Laura, podia juntar à sua, a imensa fortuna do sogro.
Além disso Esperança era uma moça simples, que talvez nem
soubesse mover-se no seu mundo. Laura era uma mulher elegante, habituada a
frequentar qualquer lugar por muito chique que fosse. Movia-se na sociedade
como peixe dentro de água.
Aos poucos, foi encurtando as cartas para Portugal. Às vezes
sentia-se um canalha, e tinha vergonha de si. Logo porém afastava esses
sentimentos, como quem afasta um obstáculo que o estorva. E casou com Laura. Graças à influência do sogro, o prestígio do
Chico cresceu, bem como os seus negócios.
Curioso, foi que crescera também um sabor amargo, uma
desilusão que não o deixava ser feliz.
Tarde demais dera conta de duas coisas. A primeira era que
se vendera miseravelmente por dinheiro; a segunda era que Laura era muito
diferente da meiga Esperança. A mulher era independente
e caprichosa. Tinha tanto de bela como de leviana. Enquanto o pai era vivo, ainda se fora comportando. Porém com a
sua morte, foi como se, se rompessem todas as cadeias que ainda a prendiam á
decência. Saía de casa a qualquer hora sem dar satisfações ao marido, e quando
este lhe chamava a atenção para o facto de que não era correto uma mulher
casada sair com outro homem que não o marido, ela ria-se dele, dizendo que era
apologista do amor livre.
Pensou divorciar-se, mas naquela época, não era permitido o
divórcio no Brasil. E assim, naquele inferno, viveu dezoito anos.
Quantas vezes, ao longo desses anos, pensou em Esperança. Desesperava-se
pensando que estava a pagar o pecado de ter desprezado uma boa rapariga, que
tudo lhe dera física e moralmente.
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30.11.16
A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE VI
- É verdade, eu já vi isso num filme.
Antes da partida, Esperança quis dar-lhe, duas coisas. Era tudo o que tinha de valor. Uma medalhinha em ouro que a mãe lhe dera dias antes de morrer, dizendo que era para lhe dar sorte, e a sua virgindade.
Ele aceitou emocionado, e partiu chamando-lhe “a minha mulherzinha”. Ela ficou no cais sonhando com o dia em que fosse ela a embarcar, para ir viver com o seu homem.
No Brasil, o Chico foi bafejado pela sorte. Conheceu um conterrâneo, antigo amigo de seu pai, que já tinha “feito a vida” e que queria regressar. Simpatizou com ele e deixou-lhe um pequeno restaurante, para que o Chico começasse a vida. Ele nem queria acreditar, mas o homem dissera que, como não tinha filhos, podia ajudar o filho do homem, que muitos anos atrás fora seu companheiro de brincadeiras. Ele tinha mais do que precisaria para regressar e viver bem até ao fim dos seus dias.
Quando a vida começa a ser muito fácil, um homem perde-se. O Chico tinha condições agora para chamar a mulher que lá longe, só sonhava com esse dia. Mas não o fez. Quis mais. “Quando eu for rico, a chamarei e lhe darei uma vida de rainha” pensava.
Trabalhou dia e noite, rodeou-se de alguns bons colaboradores, e em pouco tempo o restaurante, era ampliado. Mais tarde comprou outro e depois outro.
Então decidiu aventurar-se noutros negócios, e fez sociedade com um fazendeiro, que possuía também uma fábrica de queijos.
O sócio, um viúvo idoso, só tinha uma filha. Demasiado mimada, e com muito dinheiro. Laura, a filha do sócio, engraçou com o Chico e tentou seduzi-lo. Se ele se deixou seduzir pela beleza da jovem, ou pela riqueza que ela herdaria como filha única, não sabemos. Mas que o Chico esqueceu a promessa feita a Esperança e casou com Laura, foi um facto.
A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE V
O paquete Vera Cruz estava a chegar a Alcântara. Na amurada do navio, um homem destacava-se do mar de gente que se preparava para o desembarque. Não teria ainda cinquenta anos, alto, bem vestido, mas com um ar cansado, observava a cidade.
Lisboa, a bela cidade, que deixara há quase três décadas quando partira para o
Brasil em busca de fortuna. Quantas asneiras se fazem na juventude, quando a
ambição nos domina. O Chico era muito jovem quando perdera os pais. Os primeiros
anos, vivera com um tio sapateiro, com quem aprendera o ofício. Quando o tio
morrera, o Chico ficara com a pequena oficina, onde confeccionava ou arranjava
o calçado. Foi nessa altura que conheceu a Esperança. Era a moça mais bonita do
bairro. Tinha uns grandes olhos castanhos, docemente amendoados. Conheceram-se
e amaram-se no mesmo instante. Ele era nessa época, um belo rapaz, com um ar altaneiro
que fascinava as moças casadoiras, e as deixava suspirando pelos cantos. Mas
ele só tinha olhos para a sua Esperança.
Durante dois anos trocaram juras de amor, e sonharam com um
futuro a dois, muito feliz.
Mas o negócio não corria bem ao Chico, cada vez mais os
fregueses optavam por comprar sapatos feitos em vez de os mandarem fazer, e ele
ouvira falar do Brasil, e das muitas oportunidades de conseguir fortuna lá. E
um dia decidiu-se. Vendeu a oficina, e comprou a passagem. Com tudo decidido,
procurou a namorada e falou-lhe da viagem, dos seus sonhos de riqueza, e da
separação que teriam de viver em prol de um futuro melhor.
Ela chorou. Com intensidade, como fazem as mulheres que amam
de verdade. Tentando consolá-la ele dizia que seria por pouco tempo. Logo que
estivesse a trabalhar, arranjava casa, e casavam por procuração. Depois ela
embarcava e ia ter com ele ao Brasil.
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