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8.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVIII




 Não vai ser uma surpresa agradável para eles, mas desde que manifestaram a intenção de lutarem pela  guarda das meninas, com o argumento de que um homem só, não pode cuidar delas, fiquei sem vontade nenhuma de ser agradável com eles. Amanhã tenho um julgamento não poderei ficar em casa. Logo que eles cheguem apresento-te e deixo-vos. Espero que não sejam desagradáveis contigo, mas se o forem, quero que procedas como dona e senhora da casa e os obrigues a respeitar-te como tal.
Não podemos, nem seria justo impedi-los de privarem com as netas. Afinal são o seu consolo, depois da morte da filha. Mas eles têm que nos respeitar.  Eu virei para casa, logo que o julgamento acabe. Vou pedir à Graça que fique por perto se precisares de ajuda.
- Não será preciso. Vai correr tudo bem, não te preocupes. Agora e antes de arrumar as minhas coisas, gostava de te pedir uma coisa. Acabo de descobrir que há um pequeno quarto que comunica com aquele que devemos partilhar. Gostaria de o utilizar  para mim. Percebo o teu argumento sobre as crianças, mas não consigo pensar naquele quarto como meu. Peço-te que te ponhas no meu lugar. Não é fácil partilhar a nossa intimidade com outra pessoa. Especialmente se a essa pessoa não nos liga mais que um contrato, ou mesmo um sentimento de gratidão. Desculpa a minha sinceridade, mas sinto-me como se fosse partilhar o quarto com o patrão. 
Estava nervosa, as suas mãos não paravam de gesticular, a sua face estava vermelha.
- Mas aquele quarto é muito pequeno. Era o quartinho das bebés, E nem sequer tem uma cama.
- Tem um sofá. E agora que não há nenhum bebé podemos arrumar o berço noutro lado E pôr ali um armário para as minhas roupas.
- Não confias em mim?
- Claro que confio. Mas tenta perceber a minha posição. Nós tínhamos acordado em quartos separados.
- Bom, se ficas mais descansada, o quarto é teu. Mas hoje não temos tempo para tratar disso e amanhã com a visita dos meus ex-sogros, e o julgamento também não. Prometo que no sábado  trataremos de deixar aquele quarto minimamente confortável. Entretanto fica no principal. Eu fico aqui no escritório. De qualquer modo vou precisar preparar o julgamento de amanhã. E depois este sofá é bastante confortável.


                                                     

7.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVII

Não abriu a porta. Bateu com os nós dos dedos.
-Entre
Entrou e fechou a porta atrás de si, ficando na expectativa.
Afonso deu a volta à secretária e dirigiu-se para ela.
-Senta-te. – Disse indicando-lhe o sofá. Esperou que ela se sentasse e fez o mesmo. Continuou.
-Deves estar cansada, não é fácil cuidar de quatro crianças tão pequenas. Podias ter aceitado a ajuda da minha irmã.
-A Graça vai embora depois de amanhã. Tenho que me habituar. E depois tenho a ajuda de Simão, – respondeu.
-Reparei que ele não é como o irmão. Parece triste.
-Sempre foi uma criança mais comedida nos sentimentos. E soube há poucos dias, que o pai morreu. Tinha-lhes dito que andava em viagem, mas ele ouviu uma conversa da avó com uma vizinha e questionou-me.  Tive que lhe contar a verdade. É muito responsável e acredita que tem de cuidar de mim e do irmão.
- E eu? Sou um intruso que odeia?
-De modo algum. Mas não esperes que seja tão espontâneo como o irmão. Ele é cauteloso. Tem de sentir que o chão onde põe os pés, é firme. Mas se percebe que assim é e se entrega, é um menino amoroso.
- Bom, sendo assim espero ganhar a sua confiança em breve. A Ana e a Marta, aceitaram-te como se estivesses com elas desde que nasceram.
- É natural, eram tão pequenas quando a mãe morreu que nem devem recordar-se dela. O mesmo acontece com João que só conheceu o pai por fotografia. O Simão é mais velho, conheceu e lembra-se do pai.
Falavam nas crianças, chamando-as pelos nomes. Nem um nem outro se atreviam a dizer “nossos filhos” o que pressupunha uma intimidade que não havia entre eles, mas também não diziam, os teus filhos, os meus filhos, para que o outro não pensasse que não cumpriam a sua parte no acordo. Francisca quebrou o silêncio que se instalara.
- A Graça disse que me querias falar. Passa-se alguma coisa?
- Amanhã, é o dia dos meus ex-sogros virem passar o dia com as netas.
Propositadamente não lhes falei de ti nem das minhas intenções de voltar a casar. 



6.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVI



O almoço estava delicioso, e foi servido com correcção e esmero pelos dois empregados que ficaram na sala a recolher as loiças quando todos se levantaram.
Francisca, desapertou o cinto da cadeirinha de Ana e pegando-lhe ao colo, disse:
- Agora, vamos todos lavar os dentinhos e dormir a sesta. Pegou na mão de Marta, hesitou um pouco e depois aproximou-se de Afonso, dizendo:- Damos um beijinho ao pai?
Ana esticou os bracinhos e inclinou o corpo para o pai, que a beijou. Em seguida inclinou-se para Marta que se agarrava às suas pernas para a beijar.
 Sem que ninguém pudesse prever, João avançou e agarrou-se-lhe à outra perna.
Emocionado, Afonso beijou os dois, mas os seus olhos estavam fixos em Simão que se mantinha um pouco afastado.
O garoto porém virou-lhe as costas e encaminhou-se para o corredor.
- Ajudo-te a deitá-los – disse Graça
- Não. Quero fazê-lo sozinha.
E Francisca seguiu rumo à casa de banho, com as crianças.
Os quartos dos meninos eram iguais e contíguos. Ambos eram espaçosos, tinham uma grande janela que dava para o jardim, duas camas e um grande armário.  E uma pequena zona cheia de brinquedos que naturalmente eram diferente de um para o outro quarto. 
Depois que saíram da casa de banho, abrindo a porta do
  quarto para os filhos, Francisca disse a Simão.
-Cuida do teu irmão. Vou deitar as meninas e já venho.
O garoto assentiu com um sorriso.
Ela sabia que o filho ficava feliz com aquela incumbência. Sempre fora uma criança, com grande sentido de responsabilidade. No outro quarto Francisca abriu um armário, retirou uma fralda e colocou-a em Ana. A criança com quinze meses, já tinha controlo das necessidades acordada, mas a dormir ainda precisava de fralda.
Deitou-a, deu-lhe um beijo, aconchegou a roupa a Marta, beijou-a,  correu a persiana e saiu fechando a porta. Encontrou os filhos já deitados. Aconchegou-lhes a roupa, beijou-os e saiu, não sem antes correr a persiana
Dirigiu-se à sala. Graça lia um livro. Olhou-a e disse:
- Afonso quer falar-te. Disse para ires ter com ele ao escritório.



ESTRANHO CONTRATO - PARTE XV



Depois do duche e de ter trocado de roupa, Afonso voltou à sala. Foi até à janela e ficou observando o exterior. A irmã, estava no baloiço com a sobrinha Ana. Marta e João ora subiam as escadas do escorrega, ora se deixavam deslizar pelo outro lado, soltando alegres gargalhadas. Desde o dia em que se conheceram três meses antes, que aqueles dois quando estavam juntos era uma festa. Ninguém diria ao vê-los que não eram irmãos, ou amigos de longa data. Um pouco afastados, Francisca, de cócoras falava com Simão. O menino preocupava-o. Pelo que observara, naqueles três meses, parecia-lhe demasiado adulto para os seis anos que ia fazer em breve. Não tinha a alegria nem a espontaneidade do irmão, nem estava sempre a pensar na brincadeira. Várias vezes observara nele atitudes de protecção com o irmão e até com a própria mãe.
No jardim a conversa continuava, e Afonso pensou que gostaria de saber de que falavam. Será que o miúdo ia ter problemas de integração? Que não ia aceitar o casamento da mãe?
A carrinha do restaurante parou junto ao portão. Antónia, a empregada, saiu para o abrir e lhes franquear a entrada.  Viu as duas mulheres chamarem as crianças e encaminharem-se para casa. O serviço com o restaurante estava tratado, incluindo a presença de dois empregados para lhes servir a refeição, não tinha que se preocupar com isso. Chamá-lo-iam quando tudo estivesse pronto.
O que o preocupava agora era a visita dos ex-sogros, no dia seguinte. Não lhes tinha dito nada que ia voltar a casar. Preferira apresentar-lhes o acto consumado. Desde que lhe disseram que queriam a guarda das meninas, porque achavam que elas estavam muito sozinhas, que um homem só e ainda por cima com tanto trabalho, não teria condições de dar às crianças a atenção que necessitavam, toda a simpatia que lhes tivera desaparecera. Fora por isso que Graça o incentivara a casar. E se a princípio ele achou que semelhante ideia era uma estupidez, depois que a irmã lhe falou da amiga, e sobretudo quando a viu, tímida e envergonhada no seu escritório, a ideia começou a parecer-lhe mais aceitável.  E se ainda tinha dúvidas, depois que ela foi com os filhos, passar o dia lá a casa, e viu a forma carinhosa como tratava deles, e como se deu a conhecer e tratou as meninas, teve a certeza de que era realmente o passo certo.

5.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIV




Naquele momento Francisca entrou na sala. Trocara o fato do casamento por um conjunto de calça e blusa azul-escuro, de corte simples mas elegante. Sem maquilhagem, a farta cabeleira presa numa trança, de sabrinas, parecia ainda mais jovem.
O homem levantou-se e avançou para ela.  
- Estás mais calma? Não te preocupes, vai dar tudo certo. Ouves as crianças? Estão muito felizes com a brincadeira no jardim. Podes ir até lá, ou vê-las aqui da janela. A Graça está com elas. Tem tanto jeito para lidar com crianças que me admira de ainda não ter engravidado. – Olhou o relógio. São onze e quarenta, encomendei o almoço para o meio-dia e trinta. Vou tomar um duche, e trocar de roupa.
Afastou-se sem lhe dar tempo a responder. Francisca foi até à janela. Viu a cunhada com a pequenita no baloiço. Marta, a mais crescida descia o escorrega, seguida por João, rindo com aquela alegria que só as crianças têm. Abriu a porta e saiu para o jardim.
Simão perdia-se na perseguição de uma bela borboleta. Correu para ela mal a viu.
-Mãe, a “tia” Graça, disse que logo não voltamos para casa dos avós. É verdade que vamos ficar aqui para sempre?
- Sim filho, é verdade. A mãe já te tinha dito que estava a preparar o vosso quarto para ficarem a viver com a mãe.
- Mas não contaste que ias casar com o “tio” Afonso. Nem aos avós.
-Sabes filho, às vezes as pessoas têm segredos que não podem contar às outras. Mas depois vem um dia em que deixa de ser segredo e já se pode contar.
- Então o vosso casamento é segredo? Assim como o pai ser uma estrelinha no céu?
- Sim filho.
O menino com um ar sério disse:
- Fica descansada, não conto a ninguém.
Francisca acariciou-lhe a cabeça sorrindo.
-Vai brincar filho.
A criança não se afastou. Como se alguma coisa o preocupasse.
Perguntou:
- Também vais ser mãe da Ana e da Marta?
-De certo modo, sim filho. Tu sabes que todas as crianças devem ter um pai e uma mãe. A mãe delas, como o vosso pai é agora uma estrelinha no céu. Eu tentarei fazer o meu melhor, para que elas não se sintam tristes.
Naquele momento, chegou o almoço. Graça retirou a sobrinha do baloiço, e Francisca chamou as crianças que estavam no escorrega. Depois todos tomaram o caminho de casa.



4.11.16

ESTRANHO CONTRATO PARTE XIII



-Não quero que os meus pais saibam do casamento. Não iam entender. Vou dizer-lhes que me contratou para ama das meninas, e que não se importa que tenha comigo os meus filhos. Não me agrada mentir, mas sei que eles não iriam aprovar o que nos propomos fazer. Mais tarde lhes contarei a verdade. É a minha única exigência.
- Muito bem. Vou telefonar à minha irmã para a vir buscar. Entretanto se me der os seus documentos, mando já fazer as cópias para dar início ao processo de casamento.
Francisca tirou os documentos e estendeu-lhos. Ele abriu a porta e chamando a secretária, pediu que lhos fotocopiasse.
Fechou a porta e voltou-se para ela.
-  Sendo assim pode dizer a seus pais que tem emprego. Amanhã, às cinco espero-a aqui para assinar o contrato  combinado. Traga os seus filhos. Gostaria de conhecê-los. E no fim-de-semana, espero que vão passar o dia connosco. Para que conheçam a casa e as minhas filhas. Será uma espécie de ambientação para eles.
Enquanto o casamento não acontece, a Graça irá busca-la a fim de tratarem do que pensem ser necessário, para a cerimónia, mas devo dizer-lhe que ela será o mais discreto possível e não haverá festa, nem viagem. Também terão que escolher os móveis e decorar o quarto para os seus filhos.
A secretária bateu à porta e Afonso ordenou:
-Entre.
- Aqui tem doutor, - disse pondo os documentos e respectivas fotocópias em cima da secretária. Mais alguma coisa?
- Não obrigado. Logo que a minha irmã chegue, faça-a entrar. Pode retirar-se.
- Com certeza Doutor.
A secretária retirou-se, não sem antes lançar uma mirada curiosa a Francisca. Desde que trabalhava para o doutor, nunca o vira tanto tempo no gabinete com uma mulher.
Pouco depois Graça chegou.
-Espero que tenham chegado a acordo. Os seus olhos foram de um para o outro interrogativos. – Chegaram ou não?
- Chegámos – respondeu o irmão
- Ufa. Pensei que não tinham decidido nada. Estão com uma cara.
- O assunto é sério Graça. Não querias que estivéssemos a pular de alegria.
- Está bem. Não precisas zangar-te. Já sabes como sou.
Afonso não respondeu. Levantou-se e aproximando-se estendeu-lhe a mão
-Não se aflija. Vai correr tudo bem. Não esqueça, espero-a amanhã às cinco.
Apertou-lhe a mão sentindo a suavidade da mão feminina.
E agora ali estava, casado  e disposto a partilhar a vida com uma quase desconhecida, esperando não ter feito uma grande asneira da qual se pudesse arrepender. Tinha-o feito pelas filhas. Elas eram toda a sua vida e para não as perder, faria qualquer coisa.



ESTRANHO CONTRATO - PARTE XII


Esperando por Francisca, Afonso recordava aquela tarde três meses antes, quando Graça lhe aparecera no escritório, com aquela que hoje era sua mulher. Habituado a ver belas e desenvoltas mulheres, a jovem parecera-lhe um ser indefeso e assustado. Avançou para ela.
- Boa tarde. Sou Afonso, advogado, viúvo e com duas meninas de tenra idade. Parece-me que a minha irmã já lhe falou do nosso plano. Pretendo alguém de confiança, que goste de crianças e que possa criar as minhas filhas com carinho. A Graça contou-me a sua situação, sei que está com dificuldades e precisa de ajuda para criar os seus filhos. O que lhe proponho, não é um casamento normal como é evidente, mas um casamento de  conveniência, de modo a que os meus sogros não possam ter a veleidade de me tirarem as crianças, alegando que não tenho tempo para elas, ou que estão entregues à empregada. Casando-me, aos olhos da comunidade tenho uma família estável. Eu cuidarei que nada falte a seus filhos, e você cuidará que as minhas não sintam a falta da mãe nestes anos mais próximos em que ela tanta falta faz. Elas são demasiado pequenas, uma tem três anos, a outra, doze meses. Quando crescerem não terão memórias da mãe, mas de quem esteve sempre com elas. Em público seremos um casal, com uma família feliz, dentro de casa seremos uma espécie de amigos, ou companheiros de trabalho com deveres comuns. E claro, teremos quartos separados.
A jovem mantinha-se calada. Dava para ver que estava nervosa pela maneira como retorcia a asa da mala. Estava envergonhada. Afonso percebeu-o. Continuou.
- Não fique envergonhada, como se eu estivesse a tentar comprá-la. Veja isto como um contrato de trabalho, embora seja um contrato especial. Amei muito a minha mulher. Esse amor é o escudo que não me deixa voltar a pensar em me apaixonar e ter um casamento normal.  Só as minhas filhas me interessam. A Graça disse-me, que também não tem interesse em ninguém. É verdade?
Francisca assentiu com a cabeça. Ele continuou.
-Exijo respeito absoluto. Não posso impedi-la de voltar a apaixonar-se. Mas se isso acontecer quero que seja franca. Arranjarei maneira de libertá-la. Estas são as minhas condições. Espero que as aceite e que me ponha as suas. Depois farei um documento escrito que registarei em cartório e cada um ficará com uma cópia. Não quero correr riscos.
Calou-se. Pela primeira vez a jovem olhou-o nos olhos. Depois murmurou:
- Aceito as suas condições. Tem razão quando diz que me sinto como se estivesse à venda. Estou tremendamente envergonhada. Mas o que me oferece é muito atractivo para uma mãe que vê seus filhos precisados de coisas tão básicas como vestir e calçar e não sabe como comprá-las. Se não fossem eles, não estaria aqui. Não me desagrada cuidar das suas meninas e acredite que o farei de todo o meu coração, tentando que elas não sintam a falta da mãe. Mas o que me oferece não é um emprego de ama,  e daí esta sensação de algo imoral.
Afonso admirou-lhe a franqueza. Ela continuou.




3.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XI


Agora ali estava ela, assustada com a rapidez com que tudo acontecera, mas decidida a cumprir a sua tarefa, tal como se propusera. Acabara de tomar banho e preparava-se para trocar de roupa. Antes porém dirigiu-se à porta e fechou-a à chave. O quarto partilhado com o homem, tinha-a deixado surpresa e inibida. Não estava no contrato. Tinham acordado que ficariam em quartos separados. Aceitara aquele estúpido contrato, como quem aceita uma missão. Pelos filhos, e também pelas meninas. Tinha imensa pena das crianças que ficam sem mãe. Iria tratar delas o melhor que sabia, para que não lhe sentissem a falta. Mas não se sentia capaz de partilhar a sua intimidade com um desconhecido.
Porque no fundo, era isso que Afonso era. Um desconhecido, com quem falara meia dúzia de vezes naqueles três meses que antecederam a cerimónia, com quem assinara um contrato de trabalho. Ou aquele casamento podia ser considerado outra coisa que não um contrato de trabalho? E ela não se sentia capaz de prescindir da sua privacidade, nem era mulher capaz de a partilhar com o patrão, ainda que esse patrão lhe tivesse posto uma aliança no dedo.
Porém Afonso tinha razão. Era capaz de se tornar esquisito para as crianças, que ficassem em quartos separados.  
Olhou à sua volta. O quarto era amplo. Tinha a porta por onde entrara, a porta que dava para a casa de banho e… outra porta?
Vestida, mas ainda descalça, foi até lá e experimentou rodar o puxador. A porta abriu-se e Francisca encontrou-se num quarto mais pequeno,  com um berço de verga, um sofá, uma prateleira com alguns livros, e junto à janela uma escrivaninha e uma cadeira 
“Deve ser o quarto, onde dormiam as meninas nos primeiros meses de vida, para estarem mais perto da mãe” – pensou.
E nesse mesmo momento pensou que aquilo era a solução para o seu problema. Ela poderia ficar naquele quarto. É certo que teriam de partilhar a casa de banho, que teria de passar pelo quarto principal para sair e entrar, já que não havia outra porta, mas ainda assim ficava mais resguardada dos olhares masculinos, era menos constrangedor,   
Agora, só precisava coragem para falar com Afonso






2.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE X






Quando o filho mais novo acordou, ela já tinha tomado uma decisão. Assim depois de lhes ter dado o lanche, foi com eles ao jardim da aldeia. E enquanto as crianças brincavam telefonou à amiga, dizendo-lhe que aceitava a sua proposta. Graça ficou radiante, disse que nessa mesma noite falava com o irmão, e depois falavam. 
Francisca desligou com a sensação de que tinha feito asneira, mas a decisão estava tomada. Temia e desejava que o homem não fosse na cantiga da irmã. Temia, porque as crianças estavam a precisar de roupas que ela não sabia quando poderia comprar. Mas ao mesmo tempo sentia-se como se, com a sua decisão se estivesse a vender e desejava que Afonso não aceitasse. De tal modo se encontrava dividida, que nessa noite, não conseguiu dormir. Na manhã seguinte, Graça telefonou-lhe. Afonso estava de acordo, pedia-lhe para se encontrarem nessa tarde, a fim de tratarem do assunto, queria saber a que horas e onde ela podia ir busca-la para a levar até ao irmão. Francisca disse que estaria às três da tarde na paragem do autocarro perto do café onde se tinham encontrado na véspera. Depois foi ter com a mãe e disse-lhe que precisava de ir à cidade para uma entrevista de emprego. Escolheu um saia-casaco discreto, cinzento anilado, e um camiseiro azul claro. Mala e sapatos pretos, sem maquilhagem, cabelo apanhado. Parecia mais nova.
Desceu do autocarro e olhou em volta. Graça esperava-a no outro lado do passeio junto ao carro. Beijaram-se.
- Estás muito bonita. Confesso que tive medo que não telefonasses. Vamos, vou levar-te até ao meu irmão. Não te assustes com o seu ar sério. No fundo aquilo é só fachada.
Entraram no carro e rodaram pela cidade durante alguns minutos que a Francisca pareceram intermináveis. Por fim,  Graça estacionou junto de um edifício de escritórios, dizendo:
-Chegámos. Estás preparada?
Ela assentiu em silêncio e seguiu a amiga até ao elevador. Sentia as pernas a tremer, e tinha vontade de fugir dali. De súbito viu-se em frente de uma porta que a amiga empurrava e entraram. Atrás de uma mesa, uma jovem empregada. 
- Boa tarde Luísa. 
- Boa tarde, dona Graça.
O meu irmão está só?
- Sim. Disse para a fazer entrar logo que chegasse.
- Obrigado. Não precisa anunciar-me – disse pegando no braço de amiga e avançando para o gabinete. Abriu a porta.
- Boa tarde, Afonso. Esta é a minha amiga Francisca. Deixo-vos sós para conversarem. Telefona-me quando acabarem.
E saiu fechando a porta atrás de si.



1.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE IX



Depois do almoço, e de ajudar a mãe a arrumar a cozinha, Francisca foi deitar os filhos para dormirem a sesta. As crianças não tardaram a adormecer. Ela sabia que o pai sempre ficava a cochilar àquela hora e a mãe não perdia a novela. Assim deixou-se ficar no quarto pensando. Mas por mais que tentasse pensar noutras coisas, o pensamento sempre ia parar na proposta da amiga. Era uma maluquice. Mas e se desse resultado? Não conhecia Afonso. Como seria ele? Era mais velho que a irmã. Mas seriam muitos anos? Não se lembrava de ter ouvido a idade. Mas também que importava isso. Ela não pensava aceitar. Ou aceitaria? Que estupidez, aquilo eram coisas da Graça, o irmão ia lá querer casar com alguém só por causa das filhas. Metia-as num bom colégio interno e pronto. Ficava tudo resolvido. Mas a amiga dissera que o irmão queria alguém que lhe cuidasse das filhas como se fosse a mãe. Bom para ela, isso não era entrave. Adorava crianças. E então meninas. Quando estava grávida sonhava tanta vez com meninas, vestidos e lacinhos. Mas o destino brindara-a com dois meninos.
Cansada acabou por adormecer. Acordou sobressaltada com a mãozinha de Simão acariciando-lhe a cara. Soergueu-se e olhou para o filho mais novo. Dormia profundamente. Pôs um dedo sobre os lábios indicando ao filho que não fizesse barulho, para não acordar o irmão, sentou-o na cama e calçou-lhe os ténis. Verificou que um estava roto. Estremeceu. Mais uma despesa! Devagarinho, saíram do quarto fechando a porta com todo o cuidado para não acordar João.
- Mãe, tenho sede, -disse o menino mal saíram do quarto.
Dirigiram-se à cozinha. Francisca encheu um copo de água e estendeu ao filho. A criança bebeu um pouco, e perguntou de súbito:
- Quando é que o pai volta?
- Não sei.
- Não vai voltar nunca mais, pois não, mãe?
Francisca sentiu um aperto no peito. Abraçou o filho:
- Porque dizes isso?
O filho respondeu com outra pergunta:
- É verdade que o pai morreu?
- Quem te disse isso?
- Ouvi uma conversa da avó com a vizinha. Não chores. Eu não choro, vês?
- És um menino muito corajoso, Simão. É verdade, filho. O teu pai agora é uma estrelinha no céu. Mas não contes ao teu irmão. Ele é muito pequenino, vai sofrer muito e não queremos isso pois não?
- Claro, mãe. É um segredo só nosso. E não quero que chores, - disse abraçando a mãe com toda a força dos seus quase cinco  anos.