Com tudo arrumado, sentou-se na cama. Gostava da casa. Era bonita. Ouviu vozes no estúdio. O arrastar de qualquer coisa. Percebeu que deviam ser os caixotes com as telas. Uma voz desconhecida que se despedia, uma porta que se fechava, e os passos fortes de Miguel. Gostava de saber que estava por perto. Sentia-se protegida.
Mariana tinha perdido aquela angústia dos primeiros tempos. Claro que continuava, apreensiva e um pouco angustiada. Como não havia de estar, se continuava sem saber quem era. Mas, já não era aquele aperto no peito, que quase a sufocava, dos primeiros tempos. De vez em quando, sem razão aparente, vinha-lhe à memória, uma frase, um rosto, uma rua. Uma coisa tão fugaz que surgia e desaparecia tão rápida quanto um relâmpago. Seria a sua memória a forçar o regresso? Estava ansiosa por voltar ao médico. É que ultimamente sentia-se muito estranha. Sonhava que em breve ia ficar boa, recuperar a memória, voltar para a sua casa, e para a normalidade da sua vida. Ficava tão feliz! Mas quando se sentia no píncaro da felicidade, deslizava de novo para o vale da amnésia.
Voltar para a sua vida, era deixar de viver com Miguel, de o ver a toda a hora, de conversar com ele, de sentir o seu carinho e protecção. E isso causava-lhe uma angústia quase tão grande, quanto não saber quem era. O ideal, seria recuperar a memória e continuar junto de Miguel. Ali, no Algarve, ou em qualquer parte do mundo. Mas isso não era possível. Ela devia ter família, que reclamaria a sua presença! E Miguel certamente, ficaria contente, por se ver livre dela e retomar a sua vida, Sentiu um nó na garganta e as lágrimas deslizaram silenciosas, pela sua face atormentada. Que se passava com ela? Porque era tão complicada? Ensimesmada, nem reparou, que a noite ia descendo de mansinho, o seu negro manto, sobre a cidade. Acendiam-se as luzes na rua. Mas na cabeça e no coração de Mariana continuava a reinar a escuridão.
Perdida, algures em si mesma, nem ouviu as batidas na porta do quarto, quando Miguel voltou duas horas depois.
Ele chamou ao mesmo tempo que batia de novo;
- Mariana!
Sobressaltou-se a jovem.
- Entra. Está aberta.
- Que fazes às escuras? Estou cheio de fome. Afinal de contas, nem lanchámos. Vamos sair?
- Não me apetece nada!
- Podíamos encomendar uma pizza, mas sinceramente, hoje não me apetece pizza. Vá lá, a noite está muito bonita. Um bocadinho fria, mas nada de especial. Vestes um casaco e pronto. Anda,- e estendia-lhe a mão, - não aceito uma recusa. E depois do jantar, damos uma volta, pelo bairro. Vais gostar. E demais, aproveitamos o tempo para combinarmos algumas coisas.
- Pronto, convenceste-me!
